Zazen por… Charllote Joko Beck

(…) O ponto central do zazen é este: o que temos de fazer com constância é apenas criar uma discreta transição do mundo vertiginoso que temos dentro de nossas mentes para o momento presente, o preciso aqui e agora. Essa é nossa prática. O que temos de desenvolver é nossa intensidade e nossa capacidade de estar exatamente aqui e agora. Precisamos ser capazes de desenvolver a habilidade de dizer: “Não, não vou nessa vertigem”; de fazer tal escolha. Nossa prática é, de momento a momento, como uma escolha, uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. É sempre uma escolha, a cada momento, entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes e aquilo que de fato existe (…).

(…) Não espere ser nobre, quando praticar o sentar. Ao desistirmos dessa mente vertiginosa, mesmo que por apenas alguns instantes e só sentamo-nos com o que é, essa presença que somos é como um espelho. Vemos tudo. Vemos o que somos: nosso esforço para parecermos bons, para sermos os primeiros, ou para sermos os últimos. Vemos nossa raiva, nossa ansiedade, nossa arrogância e nossa pseudoespiritualidade. A verdadeira espiritualidade é apenas estar com tudo isso. Se na realidade pudermos estar com Buda, com quem somos, então isso se transforma.

Fonte: “Sempre Zen – Como introduzir a Prática do Zen em seu dia a dia”.

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O que é um sesshin?

“Sesshin quer dizer unificar, tocar, conectar, harmonizar a mente. Pode também significar penetrar a mente. Mas a que mente se refere? Não é apenas a minha, a sua, mas a mente do universo. Conectar-se, harmonizar-se, tocar a mente universal. Transmitir, receber, manter a mente imensa, onde tudo e todos estão incluídos. Unificar-se com a mente da imensidão.

Mestre Eihei Dôgen escreveu:

A mente são as montanhas, os rios, as árvores e a grama. A mente é o sol, a lua e as estrelas.

Outra interpretação do termo seria controlar ou penetrar a sua própria mente consciente. Conhecer a mente, ver com clareza. Discernir com sabedoria-Buda. É uma prática mais quieta, calma e assentada. Penetrando a essência da mente individual, percebemos que, de qualquer maneira, já estamos unidos com tudo o que existe.

O sesshin é uma tentativa de ver através das ilusões e delusões – surgindo e desaparecendo – e reconhecer o que é a existência. Durante esse período, nos concentramos de algumas formas específicas, acalmando ou tornando a consciência tranquila, permitindo, assim, que os fatos se reflitam com claridade.

É uma oportunidade de verdadeira concentração para realizar quem somos, o que somos de fato, para o aprofundamento e a clarificação do Caminho de Buda. Acordar (shinrei), ir ao banheiro (tossu), lavar o rosto, zazen, kinhin, entoar sutras, ôryôki, samu, tenzô, teishô, dokusan, dormir – tudo é sesshin, uma prática de 24 horas.

Os sesshins podem durar um só dia, um fim de semana, três, cinco dias ou uma semana inteira. Esse é o procedimento tradicional da Sôtô Shû. Há grupos de praticantes na Europa e nos Estados Unidos que fazem sesshins mais longos, chegando até mesmo a 30 dias. Mas são exceções.

Os períodos de zazen variam entre 30 e 45 minutos, dependendo do grupo. São intercalados pela meditação andando (kinhin), que dura, no máximo, dez minutos. Pode haver até 15 períodos de zazen por dia. Esteja preparada(o). Pela manhã, quando o sino de despertar tocar (shinrei), levante-se, guarde as roupas de dormir, vá ao banheiro (tossu), lave o rosto, escove os dentes, preparando-se para começar um dia de zazen.

Cinco minutos antes do início do primeiro período, todos os praticantes devem estar sentados em seus respectivos lugares. Geralmente há dois períodos de zazen antes da leitura de sutras da manhã. “Entoar com os ouvidos” é uma expressão dos praticantes zenbudistas, que significa harmonizar a sua voz com a do grupo, sem sobressair nem se omitir. É dessa forma que os sutras são entoados.

Em seguida, a refeição da manhã – esta, bem como o almoço, é sempre feita na sala de zazen, na postura de zazen, utilizando um conjunto de pequenas tigelas chamado ôryôki. Há todo um procedimento adequado, com a entoação da Invocação das Refeições e pessoas que servem os alimentos. O silêncio é mantido.

Na cozinha, o tenzô (pessoa responsável pelo cardápio, pela escolha e pela preparação dos alimentos) é um praticante experiente, capaz de estar em profunda prática da não dualidade durante todo o sesshin.

Depois da refeição da manhã, todos são convidados a participar do samu – limpeza de banheiros, salas, cozinha, jardins. O zazen recomeça e, durante esse período, a mestra ou o mestre pode transmitir ensinamentos do Darma, chamados de teishô.

Depois de três períodos de zazen, intercalados por kinhin, há o almoço formal. Um pequeno descanso e zazen novamente. Outros dois períodos de zazen e é servido chá (gyôcha), bebido na sala de zazen – cada pessoa sentada em seu lugar e de maneira formal.

Seguem-se outros períodos de zazen, intercalados por kinhin. Pode haver dokusan (entrevista individual com a mestra ou o mestre para clarificar aspectos dos ensinamentos e da prática) durante os períodos de zazen.

No final da tarde, entoa-se outro sutra e há uma refeição informal, chamada yakuseki (a pedra da cura). À noite, outros dois ou três períodos de zazen, antes de todos irem dormir.

Kaitchin é quando as luzes são apagadas. Todos devem estar na cama. Dormir é considerado um período de zazen. Durante todo o sesshin, mantemos o nobre silêncio e os olhos baixos.

Sesshin é viver a vida de Buda. Funcionar de acordo com o Darma e perceber a inseparabilidade da unidade de toda a Sanga.”

Fonte: Zazen – a prática essencial do zen.Comunidade Zen-Budista do Brasil. Coordenação: Monja Coen

Nehan Sesshin 

“15 de fevereiro comemora-se a Morte e Parinirvana de Shakiamuni Buda. Ele faleceu perto da cidade de Kushinagara, norte da India.

Uma grande pintura (em forma de pergaminho) mostrando Buda entrando em Parinirvana é pendurada nos templos e uma cerimonia expressando gratidão a Buda é realizada. Diz-se que, no momento de sua morte, Buda estava dormindo em uma cama preparada entre duas árvores Sala. Sua cabeça para o norte, seu rosto para o oeste e sua mão direita fazendo as vezes de travesseiro. Naquele momento, flores brancas desabrocharam nas arvores Sala e caíram sem cessar. Muitos de seus discípulos, o rei e sua família, homens e mulheres de todas as idades, e mesmo pássaros e animais estavam reunidos, suspirando de tristeza.

Buda fez seu último discurso, expondo a verdade fundamental: mesmo que o corpo físico morra, o Darma é eterno, para que seja possível ver Buda, é preciso ver o Darma. Dessa forma, ele ensinou a seus discípulos sobre os preceitos e sobre como eles deveriam manter a prática do Caminho de Buda. Esse sermão chama-se Yuikyogyo, o Último Ensinamento de Buda Shakiamuni”.

Rohatsu Sesshin

Buda obteve a iluminação ao sentar-se em meditação por sete dias seguidos. No Rohatsu praticamos por igual período de tempo, em celebração à iluminação de nosso ancestral maior. Trata-se do retiro mais longo e importante de nossa tradição.

Fonte:  Apostila de Preceitos e Procedimentos Budistas (Zendo Brasil).