> INSCRIÇÕES – Memória Correta – trilhando o Caminho de superação do sofrimento

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> História da nossa linhagem (3) – Zen da China ao Japão

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

3 – Zen da China ao Japão

Na época em que Mestre Eisai visitou a China, a escola Zen usufruía do patrocínio de leigos, reconhecimento oficial e acesso exclusivo às abadias de monastérios. É importante apontar que, nesta época, os monastérios eram públicos e o Zen não possuía exclusividade – ou seja, todos os monastérios budistas chineses possuíam a mesma arquitetura, estrutura burocrática, grade de atividades e formas de disciplina e de prática. Contavam com salas de Buda (para oferendas e sutras), salas do Darma (onde se realizavam palestras) e salas de sangha (onde os monges meditavam, comiam e dormiam em plataformas).

Todos os monastérios tinham zazen e samu, a prática coletiva de limpeza, independente da sua linhagem. Diante disso, o que diferenciava a escola Zen na prática não eram arranjos institucionais ou práticas específicas mas sim reivindicações de linhagem, traço de uma dimensão não apenas mítica mas também socialmente tangível, na medida em que os monges reconhecidos como herdeiros da linhagem constituíam uma elite privilegiada dentro da ordem budista em geral. Outra diferença também estava no estilo pedagógico e retórico dos mestres[1].

O estilo Zen chegou a dominar estes monastérios por 300 anos (séc. XI a XIII) mas nunca tiveram seus próprios monastérios independentes e exclusivos. O que eram os chamados “Monastérios Zen” eram simplesmente aqueles monastérios públicos que decretos imperiais restringiam a monges budistas certificados como herdeiros de algum ramo da linhagem Zen.

Por outro lado, as linhagens Rinzai e Soto alternavam a dominância dos mosteiros. Mas enquanto a primeira advogava um estilo de meditação relacionado com a contemplação de frases, a segunda advogava um estilo conhecido como “iluminação silenciosa”. Ambas compartilhavam, contudo, de um estilo diferenciado de retórica e do corpo de literatura de koans[2]

Após cinco anos de visitas a estes monastérios na China, Mestre Eisai leva a linhagem Rinzai ao Japão, onde se apresenta como seu herdeiro legítimo. A profundidade de sua prática era tal que logo veio a atrair um sem número de alunos. Muitos queriam aprender sobre a “escola da mente de Buda” e sobre os preceitos do Bodisatva que o mestre difundia[3].

Entretanto, quanto maior a propagação de suas ideias, mais resistência ele encontrava nas escolas budistas já existentes no Japão, como Tendai, Shingon e Nara. Mestre Eisai, inclusive, era um monge da mais alta hierarquia da escola Tendai e continuava ensinando ritos e práticas desta tradição. Sua principal proposta era que a prática Zen viesse a impulsionar uma transformação das escolas tradicionais, trazendo-as de volta à essência dos ensinamentos de Buda. Ao mesmo tempo, advogava a consolidação de uma escola independente, distinta da linhagem Tendai[4].

Para Mestre Eisai, o Budismo no Japão poderia ser revivido na sua forma mais profunda e essencial, transmitido de forma autêntica e direta, de mestre a discípulo.  E isso seria feito, a ser ver, a partir de uma reforma da disciplina monástica baseada no modelo chinês descrito acima, com um rigoroso código de treinamento, pautado por preceitos morais e pelo zazen (dhyana)[5].

Cita Mestre Eisai, em um dos seus principais escritos:

 “(…) portanto, praticar dhyana [chan, zen, zazen] e adentrar o Caminho pressupõe uma conduta moral que siga os preceitos. A menos que a pessoa esteja livre de transgressões e se mantenha distante do erro, como poderia obter o despertar e se tornar um ancestral?”[6].

De modo notável, esta mensagem se dava em um contexto onde os preceitos e regulações de comportamento não guardavam importância central nas práticas religiosas.

O monastério de Kennin Ji foi um dos espaços que ele construiu tendo os monastérios chineses como modelos de organização e operação. Em sua época, por inúmeras razões, coexistiam ali práticas tradicionais ligadas às escolas Tendai e Shingon, juntamente com práticas mais diretamente advindas de sua experiência com o Zen na China. Entretanto, 800 anos depois, este mosteiro se apresenta como um ambiente exclusivo da linhagem Zen Rinzai – realização da visão de Mestre Eisai, de que um dia a escola Zen se tornaria independente e amplamente disseminada no Japão.


[1] FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html

[2] FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html

[3] Foreword em EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[4] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[5] WELTER, A. Zen Buddhism as the Ideology of the Japanese State: Eisai and the Kozen Gokokuron em Zen Classics: Formative Texts in the History of Zen Buddhism. 2006.

[6] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).