> Zazen por…. Shundo Aoyama Roshi

É um trem noturno

Enquanto dormimos

nos carrega em paz

O mestre Kodo Sawaki frequentemente citava esse poema, dizendo: “Sua respiração e pulsação de seu coração não possuem nenhuma relação com a sua vontade. Seus desejos e contrariedades também só existem enquanto você está acordado”. Quando nos damos conta de que há forças que nos mantém vivos mesmo enquanto dormimos ou cochilamos, percebemos que nossa vida está se desenrolando e se mantendo de formas que vão muito além de nossos pensamentos pequenos e de nossos sentimentos mesquinhos.

O mestre zen Dogen definiu dois tipos de “eu”. O primeiro é aquele egoísta, contido dentro de um saco de pele. A isso ele chamou de “ego”(jiga ou aga). O segundo é o que age distante da nossa vontade pessoal, obedecendo às grandes forças do Cosmo para nos envolver e dar vida. A isso ele chamou de “verdadeiro eu”(jiko). Costumo usar o termo “o outro eu”.

O ideograma de za em zazen significa “sentar”, e seu desenho lembra duas pessoas sobre a terra. Pode-se interpretar isso como uma conversa entre o nosso eu mesquinho e o nosso outro eu, que é Buda. Ou como o nosso outro eu agindo para que o nosso eu mesquinho não faça besteiras, o que é uma visao interessante.

O mestre Sawaki afirmou: “A religião é nada mais do que permitir que Buda cuide de todos os aspectos da nossa vida”. E um de seus maiores discipulos, o mestre Kôshô Uchiyama, disse: “Zazen é me crucificar”. É a mesma coisa. A prática consiste em abandonar o nosso ego até que ele morra – em outras palavras, manter-se feliz e contente até que durma satisfeito -, ao mesmo tempo que despertamos e criamos o nosso outro verdadeiro eu, repleto da vida do Universo, para viver de acordo com esse nosso verdadeiro eu.

E quanto mais esse nosso outro eu cresce e de desenvolve, mais os nossos olhos se aclaram e mais evidente se mostra o nosso ego mesquinho, sujo e irrecuperável. É nisso em que eu acredito. Novamente, a plavra do mestre Sawaki: “O paraíso também é chamado de terra 10 trilhões de léguas a oeste; essa distancia se refere ao trajeto que começa em você e termina em você mesmo”. Isso demonstra uma verdade que cala fundo em nosso coração.

Chamamos de Buda essa Verdade, essa Pulsação da Vida que nos mantém vivos e que age em níveis que transcendem em muito a nossa vão filosofia. E vivemos de acordo com Buda, abandonando totalmente nosso ego, prestando reverencia a essa Verdade e retornando a Ela, deixando nossa vida em Suas mãos e seguindo-A de coração. Esse estilo de vida é o que chamamos de Namu kie, o Refúgio ou Abrigo nas Três Joias, que é se tornar de verdade seguidor de Buda. Acredito que seja esse o espirito do zazen e das recitaçoes de nenbutsu.

15 de julho de 2010, por ocasião do fim do período de treinamento intensivo (ango) de verão.

Gasshô,

Shundo Aoyama

em Posfácio, no livro A Coisa mais Preciosa da Vida

> Shobogenzo Zuimonki (20) – Livro 1 Parte 19

Em cada situação que você enfrenta, apenas considere cuidadosamente; faça tudo, mesmo que traga pouco benefício à pessoa que está diante de você, sem preocupação com o que as pessoas irão pensar de você. Mesmo que você se torne desfraternizado de seus amigos ou se indisponha com eles por dizerem que você fez algo ruim ou impróprio para um monge, isso não é importante. Seria melhor romper com tais pessoas de mente estreita. Mesmo que externamente possa parecer às outras pessoas que você esteja fazendo algo impróprio, a principal preocupação deve ser a de quebrar intimamente com seu apego egocêntrico e jogar fora qualquer desejo por fama.

1-19

Em uma palestra vespertina Dogen disse:

         “Suponha que alguém venha conversar sobre seus negócios e peça que você escreva uma carta solicitando algo de outra pessoa, ou que peça para ajudá-lo em um processo, etc., mas você recusa este pedido e se exime, com a justificativa de que você não é um homem [do mundo secular][1], que se apartou e que não tem nada a ver com afazeres mundanos, e que não é apropriado para um recluso dizer algo que não seja adequado a uma pessoa leiga. Embora esse possa parecer o modo de um recluso agir, você deveria examinar sua mais profunda motivação. Se você rejeita o pedido porque pensa que você é um monge que deixou o mundo secular e as pessoas poderão pensar mal de você se você disser algo inadequado para um recluso, isso ainda demonstra apego do ego a fama e lucro.

         Em cada situação que você enfrenta, apenas considere cuidadosamente; faça tudo, mesmo que traga pouco benefício à pessoa que está diante de você, sem preocupação com o que as pessoas irão pensar de você. Mesmo que você se torne desfraternizado de seus amigos ou se indisponha com eles por dizerem que você fez algo ruim ou impróprio para um monge, isso não é importante. Seria melhor romper com tais pessoas de mente estreita. Mesmo que externamente possa parecer às outras pessoas que você esteja fazendo algo impróprio, a principal preocupação deve ser a de quebrar intimamente com seu apego egocêntrico e jogar fora qualquer desejo por fama. Um buda ou bodisatva corta até mesmo sua própria carne e membros quando alguém pede sua ajuda. Quão mais, então, você deveria estar disposto a ajudar alguém que pede apenas que você escreva uma carta? Se você rejeita este pedido, preocupado com sua reputação, você está demonstrando profundo apego ao seu ego. Embora outros possam pensar que você não é um homem sagrado e que você diga coisas inapropriadas, se você jogar fora sua preocupação por fama e trouxer mesmo que um pequeno benefício aos outros, você estará em harmonia com o verdadeiro Caminho. Nós encontramos vários exemplos de sábios antigos que parecem ter tido esta atitude. Também considero isso verdade. É uma coisa fácil ajudar um pouco escrevendo uma carta quando seus apoiadores ou amigos pedirem para falar algo que seja um pouco inesperado.”

         Ejo respondeu: “Isso é realmente verdadeiro. Certamente está correto dizer aos outros o que é bom e benéfico para eles. Mas, e no caso de alguém querer tomar a propriedade de outra pessoa por meios maléficos, ou tentar caluniar outra pessoa? Ainda assim devemos transmitir tais mensagens?”

         Dogen respondeu: “Não cabe a nós decidirmos o que é sensato ou não. Devemos explicar à pessoa que estamos enviando a carta que alguém nos pediu para enviar, e dizer a ela para lidar com a questão sensatamente. A pessoa que recebe a carta e tem que lidar com o problema deve decidir o que é certo ou errado. Também é errado pedir à pessoa para fazer algo inconcebível sobre assuntos que estão fora de nossa área de atuação.

         E, embora pareça errado, se você tiver um amigo que respeita você e por quem você sente que não poderia ir contra, tanto para o bem quanto para o mal, e ele pede seu apoio para, através de você, fazer algo errado e inaceitável, ouça seu pedido uma vez e em sua carta escreva que você foi requisitado inoportunamente e que a questão deveria ser tratada com sensatez. Se você trata cada situação desta forma, ninguém irá guardar rancor. Você deve levar em consideração coisas como essa de forma muito meticulosa, em cada encontro ou situação.  A preocupação principal é deixar de lado o desejo por fama ou apego ao ego qualquer que seja a situação.”


[1] A palavra que Dogen usa é hinin, que literalmente significa “não humano”. No Japão antigo, os monges eram, algumas vezes, chamados assim porque abandonavam o mundo secular. Na época de Dogen, as pessoas que deixavam os templos degenerados eram chamados hinin, yosutebito (aquele que abandona o mundo), ou tonseisha (o que escapa do mundo). Eles praticavam de vários modos e eventualmente formaram o assim chamado “Novo Budismo” do periodo Kamakura. Aqui Dogen critica alguns daqueles que eram indiferentes em relação a ajudar outros usando como desculpa o fato de serem eremitas.