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> Shobogenzo Zuimonki (25) – Livro 2 Parte 3

(…)  eu nunca ouvi falar que ser rico e reverenciado por pessoas ignorantes fosse uma manifestação da virtude do Caminho. Desde tempos antigos, todas as pessoas com mente bodai têm sido pobres, aguentaram dor física, nada desperdiçaram, foram compassivas e conduzidas pelo Caminho. Estas pessoas têm sido chamadas de os verdadeiros praticantes.

LIVRO 2

2-3

Em uma palestra vespertina Dogen disse:

         Durante o reinado de Taiso (Tai-zong) da dinastia To (Tang)[1], Gicho (Wei Zheng)[2], um dos ministros, comentou com o imperador:  “Algumas pessoas estão caluniando vossa Majestade.”

         O imperador respondeu, “Como um soberano, se eu tenho virtudes[3], não temo ser caluniado pelas pessoas. Me causa mais temor me elogiarem por virtudes que não possuo.”

         [Aqui temos um exemplo de como] até mesmo um leigo demonstrou tal atitude. Monges deveriam, antes de qualquer outra coisa, manter esta atitude. Se você tiver compaixão e mente bodai, não precisará se preocupar com o fato de ser difamado por pessoas ignorantes. Você deve, sim, ter muito cuidado se for considerado alguém do Caminho apesar de não possuir nenhuma mente bodai.

Dogen também relatou:

         Buntei (Wen Di)[4], da dinastia Zui (Sui), disse a si mesmo: “Devo cultivar a virtude secretamente e esperar até que eu tenha amadurecido.”

         O que ele pretendia era praticar virtude, esperar até que ele mesmo tivesse amadurecido, e então, governar as pessoas com benevolência. Como monge, se você ainda não tiver despertado este espírito, você deve ser cauteloso. Apenas se você praticar o Caminho intimamente é que a virtude do Caminho, de um modo natural, se manifestará exteriormente. Sem expectativa ou desejo de ser conhecido pelas pessoas, se você apenas seguir os ensinamentos de Buda ou o Caminho dos ancestrais, as pessoas acreditarão na virtude do Caminho por conta própria.

         Há uma armadilha aos alunos aqui [outros e também nós mesmos] podemos acabar acreditando que ser respeitado por outras pessoas e acumular uma grande quantidade de posses é uma manifestação da virtude do Caminho. Você deve entender em seu coração que acreditar que tal coisa é ser possuído por demônios. Seja muito cuidadoso em relação a isso. Em uma certa escritura, isso é chamado ‘façanhas de demônios’. Considerando os exemplos dos três países (Índia, China e Japão), eu nunca ouvi falar que ser rico e reverenciado por pessoas ignorantes fosse uma manifestação da virtude do Caminho. Desde tempos antigos, todas as pessoas com mente bodai têm sido pobres, aguentaram dor física, nada desperdiçaram, foram compassivas e conduzidas pelo Caminho. Estas pessoas têm sido chamadas de os verdadeiros praticantes.

         Manifestar virtude não significa ter uma abundância de riqueza material, nem sentir-se orgulhoso de receber grandes oferendas.

         Há três passos na manifestação da virtude. Primeiro, torna-se conhecido o fato da pessoa estar praticando o Caminho. Em seguida, as pessoas que aspiram ao Caminho vão até essa pessoa. E, por último, as pessoas aprendem o Caminho e praticam com ela da mesma forma. Isso é chamado de a manifestação da virtude do Caminho.


[1] Taiso, da dinastia To (597-649), foi seu segundo imperador e reinou de 627 a 649.

[2] Um dos ministros de Taiso (580–643).

[3] Jin, em japonês (Ch., Ren) é o conceito mais importante do confucionismo. Pode ser entendido como benevolência, generosidade, virtude perfeita, filantropia etc.

[4] Buntei foi o fundador da dinastia Zui (Sui), que durou de 541 a 604. Ele reinou de 589 a 604.

> Shobogenzo Zuimonki (24) – Livro 2 Parte 2

(…) Naquela época, não havia vestimentas, comida ou quaisquer outras posses no templo. Embora Eisai pensasse sobre o que fazer, ele estava perdido. Havia um pouco de cobre fino destinado a fazer a auréola para o Yakushi-Buda que estava sendo construído. O abade o pegou, quebrou em pedaços, embrulhou e o deu para o pobre homem, instruindo-o a trocar o cobre por comida para aliviar a fome de sua família.

LIVRO 2

2-2

Dogen instruiu:

Certa ocasião, quando o falecido Sojo (Arcebispo) Eisai[1] estava em Kenninji, um homem pobre chegou e disse: “Minha família é tão carente que não temos nada para comer há muitos dias. Minha esposa e filhos estão prestes a morrer de fome. Por favor, tenha compaixão por nós.”

Naquela época, não havia vestimentas, comida ou quaisquer outras posses no templo. Embora Eisai pensasse sobre o que fazer, ele estava perdido. Havia um pouco de cobre fino destinado a fazer a auréola para o Yakushi-Buda[2] que estava sendo construído. O abade o pegou, quebrou em pedaços, embrulhou e o deu para o pobre homem, instruindo-o a trocar o cobre por comida para aliviar a fome de sua família.

O homem ficou muito satisfeito e partiu.

Os discípulos de Eisai, entretanto, o reprovaram [Eisai], dizendo: “Aquilo é nada menos que a auréola para a estátua de Buda. Você a cedeu ao leigo. Não é um pecado usar propriedade de Buda num uso pessoal?”

O Sojo respondeu: “Sim, é. Ainda assim, pensem na vontade de Buda. O Buda decepou sua carne e membros e os ofereceu aos seres vivos[3]. Mesmo se déssemos o corpo inteiro de Buda às pessoas que estão realmente prestes a morrer de forme, tal ação certamente estaria de acordo com a vontade de Buda.”

Ele continuou: “Mesmo que eu caia no inferno por causa deste pecado, eu acabei de salvar seres vivos que morreriam de fome”.

Alunos de hoje deveriam também considerar a mais profunda sensibilidade deste venerável predecessor. Não se esqueçam disso.

Certa vez, alguns monges na assembleia de Eisai disseram: “As construções de Kenninji estão localizadas muito perto do rio. Certamente chegará o dia em que elas serão destruídas por uma inundação”.

O Sojo respondeu: “Nós não deveríamos nos preocupar com a inevitável destruição desta construção no futuro. Mesmo em Gion-shoja[4]  (o Monastério Jetavana) na Índia, somente os pilares permaneceram. Entretanto, o mérito de haver fundado um monastério nunca se perde. Do mesmo modo, a virtude de praticar o Caminho no agora, mesmo que apenas por um ano ou meio ano, deve ser enorme.”

Agora, quando penso sobre isso, tendo em vista que fundar um monastério era de fato um grande acontecimento em sua vida, seria completamente natural tentar evitar um desastre futuro, e contudo, acompanhando este estado de espírito, Sojo Eisai teve tal atitude no fundo de seu coração. Nós realmente devemos ponderar sobre isso cuidadosamente.


[1] Veja 1-2, nota de rodapé 4.

[2] Yakushi (Mestre da Medicina) é o nome de um buda popular cujo nome completo é Yakushi-Ruriko (Mestre da Medicina da Luz Esmeralda); em sânscrito, Bhaisajya-guruvaidurya-prabha, Buda da Terra da Esmeraldo no Oriente. Como um bodisatva, Yakushi-Ruriko fez doze votos, um dos quais era curar doenças.

[3] No Jataka, uma coleçao de histórias sobre as vidas prévias de Buda, há uma em que o Bodisatva ofereceu seu próprio corpo para um tigre faminto. Muitas fábulas similares são encontradas nesta coleção.

[4] O monastério Jeta Gorve (em sânscrito, Jetavana-Vihara), O primeiro monastério budista doado ao Buda por seu discípulo leigo Sudatta (em japonês, Shudatsu).

> Shobogenzo Zuimonki (23) – Livro 2 Parte 1

(…) Quanto aos iniciantes na prática, domem o mal em sua mente, e façam o bem com seu corpo sem se preocuparem se eles são sentimentos mundanos ou humanos. Este é o significado de abandonar corpo e mente.

LIVRO 2

2-1

Dogen instruiu,

         Praticantes, somente se vocês domarem a mente[1], tornar-se-á fácil abandonar a si mesmos e o mundo. Empenhar-se em sua reputação mundana em termos de fala e comportamento, refreando-se de fazer o mal porque as pessoas pensarão negativamente de você, ou fazendo o bem a cada oportunidade porque as pessoas irão respeitá-lo como um praticante budista, denota que você ainda está sendo movido por sentimentos mundanos. Além do mais, cometer más ações desenfreadamente mostra que você é uma pessoa totalmente depravada.

         Por fim, esqueça as más intenções, esqueça de seu próprio corpo e leve adiante suas atividades apenas pelo bem do darma de Buda. Simplesmente esteja alerta em cada encontro. Quanto aos iniciantes na prática, domem o mal em sua mente, e façam o bem com seu corpo sem se preocuparem se eles são sentimentos mundanos ou humanos. Este é o significado de abandonar corpo e mente.


[1] Jobuku, em japonês, significa domar, treinar, controlar ou dominar a mente. No Tenzo Kyokun, Dogen compara nossas mentes a cavalos selvagens e nossas emoções a macacos balançando nas árvores.