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> Shobogenzo Zuimonki (11) – Livro 1 Parte 10

[Ao perceber uma discussão com alguém] não derrote essa pessoa, nem se afaste dela dizendo que você está errado. É melhor simplesmente deixar o assunto de lado e parar de discutir”.

Palavras chave: ETIQUETA; AUTOAPERFEIÇOAMENTO; SANGA; HARMONIA NA SANGA

LIVRO 1

1-10

Em uma palestra do darma, Dogen disse:

Mesmo que você esteja falando racionalmente[1] e outra pessoa diga algo irracional, é errado derrotá-lo valendo-se de argumentação lógica. Por outro lado, não é bom desistir precipitadamente dizendo que você está errado, mesmo que você saiba que sua opinião é sensata.

Não derrote essa pessoa, nem se afaste dela dizendo que você está errado. É melhor simplesmente deixar o assunto de lado e parar de discutir. Se você agir como se não tivesse escutado e se esquecer do assunto, ela irá esquecer também e não ficará zangada. Isso é algo muito importante que sempre deve-se ter em mente.  


[1] O original japonês, dori (ch. Daoli) significa (1) princípio, verdade, (2) razão, argumento.

> Shobogenzo Zuimonki (10) – Livro 1 Parte 9

Uma vez que tenha entrado no Caminho de Buda você deve praticar as várias atividades apenas pelo bem do darma de Buda. Não pense em ganhar nada em troca. Todos os ensinamentos, budistas e não budistas, nos exortam a nos libertarmos da expectativa de ganhar uma recompensa”.

Palavras chave: PRÁTICA DESINTERESSADA; NECESSIDADE DE RECONHECIMENTO; VERDADEIRA PRÁTICA; AUSENCIA DE EXPECTATIVAS; AUSENCIA DE COMPORTAMENTO DE GANHO

LIVRO 1

1-9

Em uma conversa ao anoitecer Dogen disse:

Houve uma vez um general cujo nome era Rochurem (Lu-zhong-lian)[1]. Enquanto vivia no país regido por Heigenkun (Pingyuan-jun), ele subjugava os inimigos da corte. Embora Heigenkun o elogiasse e quisesse recompensá-lo com muito ouro, prata e outras coisas, Rochuren recusava, dizendo: “Derrubo inimigos apenas porque este é o papel de um general. Não faço isso para obter recompensas ou posses”. Ao dizer isso, ele nunca recebeu a recompensa. Rochuren era famoso por sua retidão e integridade.

Mesmo na sociedade secular, aqueles que são sábios realizam suas tarefas apenas em nome de cumprir seus papéis. Eles não esperam nenhuma recompensa. Alunos do Caminho devem ter a mesma atitude mental. Uma vez que tenha entrado no Caminho de Buda[2], você deve praticar as várias atividades apenas pelo bem do darma de Buda[3]. Não pense em ganhar nada em troca. Todos os ensinamentos, budistas e não budistas, nos exortam a nos libertarmos da expectativa de ganhar uma recompensa.                                                          


[1] Famoso general chinês na era dos Estados Guerreiros (403-221 a.C). Esta estória é tirada de Shiki (Shiji), compilada por Shibasen (Simaqian). Para o japonês, este tipo de herói chinês equivale ao herói grego ou romano para o povo europeu.

[2] Caminho (Do, em japonês, Dao em chinês) é uma tradução das palavras sânscritas marga ou bodhi. Marga é o caminho ao longo do qual devemos andar (prática) para nos tornarmos um Buda. Bodhi é consciência ou iluminação. Assim “Caminho de Buda” tem dois significados combinados, um é o caminho que leva à iluminação e o outro é a própria iluminação de Buda. Assim, o Caminho de Buda é o caminho que deveríamos trilhar em nossas atividades diárias na direção do Buda, uma vez que cada uma das atividades nada mais é do que uma manifestação da iluminação de Buda.  Este é o significado da expressão de Dogen shusho-ichinyo (prática e iluminação são um).

[3] Buda-darma significa (1) a verdade ou realidade para a qual o Buda desperta, (2) os ensinamentos que nos mostram a realidade, e (3) a lei ou princípios morais que formam o modo de vida em acordo com esta realidade ou ensinamento. Outro significado desta palavra é “existência” ou “coisas” (a miríade do darma).

> Shobogenzo Zuimonki (9) – Livro 1 Parte 8

Discípulos do Caminho nos dias de hoje deveriam ter a mesma atitude. Vocês não devem censurar os outros se não estiverem na posição de fazê-lo”.

Palavras chave: REPREENSÃO COMPASSIVA; SANGA; RESPEITO AO PAPEL DE CADA UM

LIVRO 1

1-8

Dogen também relatou a seguinte estória:

Quando o saudoso General da Guarda Imperial (Minamoto Yoritomo)[1] era primeiro secretário assistente do Hyoe-fu[2], participou uma vez de uma festa especial. Ele sentou-se perto do conselheiro particular.[3] Havia um homem causando um tumulto.

O Vice-ministro[4] pediu a Yoritomo que o contivesse.

Yoritomo respondeu: “Dê essa ordem a Rokuhara”[5]. Ele é o general do Clã Taira.

O Vice-ministro observou: “Mas você está bem aqui”.

Yoritomo disse: “Não é meu papel contê-lo”.

Essas são palavras admiráveis. Ele foi capaz de governar o país devido a tal atitude. Discípulos do Caminho nos dias de hoje deveriam ter a mesma atitude. Vocês não devem censurar os outros se não estiverem na posição de fazê-lo”.


[1]Minamoto Yoritomo (1147-1199), filho mais velho de Minamoto Yoshitomo, foi o primeiro shogun (general) do Shogunato Kamakura. Yoritomo foi designado General da Guarda Imperial em 1190, e tornou-se Seii-dai-shogun em 1192. Foi o primeiro samurai a, de fato, assumir poder político.

[2]Escritório da classe samurai que protegia a Corte Imperial e o Imperador quando ele saia.

[3]Conselheiro particular é uma tradução de Daifu. Yoritomo foi nomeado secretário assistente do Hyoe-fu em 1159, quando ele tinha treze anos. Durante o ano seguinte o clã Minamoto foi derrotado pelo clã Taira, o pai de Yoritomo foi morto, e ele foi expulso para Izu. O avô de Dogen, Matsumodo Motofusa, tornou-se conselheiro particular em 1160. Supõe-se que Dogen ouviu esta estória de seu avô (Shobogenzo Zuimonki, Mizuno Yaoko, p. 63).

[4]“Vice-ministro” é a tradução de Dainagon.

[5]Rokuhara é o nome de um lugar em Kyoto onde o clã Taira tinha suas propriedades. O clã Taira era rival do clã Minamoto e tinha mais poder naquela época. Os clãs continuaram a lutar até que Yoritomo estabeleceu seu próprio xogunato em Kamakura. No Japão, desde tempos remotos, as pessoas têm sido chamadas pelo nome da localização geográfica em que vivem.