Arquivo da categoria: Textos e Sutras

> Zazen por… Bernie Glassman Roshi

“(…) Assim como começamos a preparar uma refeição limpando a cozinha, é útil começar o dia limpando nossa mente. No Zen Budismo, nós limpamos a mente pelo processo da meditação, ou zazen, o que literalmente significa “apenas sentar.”

Para mim, zazen é uma atividade como dormir, comer, beber e ir ao banheiro: se eu não cuidar destas funções naturais, eu sinto uma diferença em mim mesmo. Se eu não comer, por exemplo, começo a ficar com muita fome, e se eu não dormir, me sinto cansado. E se eu não sentar, minha estabilidade diminui, e eu me sinto descentrado.

Nós não praticamos para atingir a iluminação, assim como nós não comemos ou respiramos para estar vivos. Porque estamos vivos, nós respiramos. Porque estamos vivos, nós comemos. Porque somos iluminados, fazemos zazen. Dogen diz que zazen é a manifestação do estado iluminado. Nós praticamos e reconhecemos tudo que fazemos como uma manifestação do estado iluminado.

Os ingredientes básicos são muito simples:

Um espaço para meditar. Uma almofada ou cadeira sobre a qual meditar. E seu corpo e mente. Escolha uma hora do dia que suas chances de ser interrompido sejam mínimas – de manhã cedo, antes que a maioria das pessoas tenha acordado, por exemplo.

Ache um espaço que seja quieto, não muito escuro nem muito claro, onde você provavelmente não seja incomodado. Se necessário, feche a porta.

Torne o espaço esteticamente agradável. Dependendo do seu gosto, inclua uma imagem inspiradora, ou um objeto natural, tal como uma pedra ou flor bonita. Velas e incenso são opcionais também. Vista roupas soltas e confortáveis.

Assuma uma posição confortável. Costas eretas e sem tensão. Não se apóie contra a parede ou o encosto da cadeira. Coloque sua mão direita, com a palma para cima, no seu colo, e a mão esquerda, palma para cima, sobre a mão direita, polegares levemente se encostando. Esta posição é chamada o mudra cósmico e cria um ambiente tranqüilo para a mente.

Se você está sentando em uma cadeira, coloque seus pés bem apoiados no chão com os joelhos afastados aproximadamente quinze centímetros um do outro. Se você está sentando em uma almofada (um cobertor dobrado também pode funcionar bem), ajuste a altura da almofada de modo que ambos joelhos apoiem-se com firmeza no chão. O triangulo eqüilátero formado por esta posição proporciona apoio às costas e á coluna.

Deixe seus olhos semi-cerrados, repousando o olhar levemente em um ponto no chão a mais ou menos um metro à sua frente. Isto permitirá que os músculos de seus olhos relaxem enquanto você mantém um estado alerta da mente. Coloque a ponta da língua no palato, atrás dos dentes frontais superiores. Mantenha a boca fechada e respire através do nariz. Concentre-se na respiração. Perceba a inalação e exalação. Enquanto inala, conte um. Enquanto exala, conte dois. Continue até 10, e então repita de um a dez novamente.

Quando pensamentos emergirem, deixe-os vir e passarem. Mantenha sua atenção na contagem. Quando notar que os pensamentos o distraíram e você perdeu a contagem, gentilmente retorne à contagem. Comece do número um novamente. Continue por um mínimo de dois a um máximo de trinta minutos. Repita diariamente – ou pelo menos uma vez por semana.

Acalmando o Lago

Quando falo sobre zazen, gosto de usar a metáfora da lua sobre o lago.

Nossos pensamentos e emoções são como as ondulações que interferem na superfície refletiva do lago, de forma que não conseguimos ver a lua. Claro que a lua está sempre lá, ainda que não possamos vê-la, e também é importante ver as ondulações. Mas nós ainda precisamos ver a lua claramente para saber que ela está lá.

Assim também ocorre na meditação, pois quando deixamos as ondulações de nossos pensamentos e as ondas de nossas emoções se estabilizarem, é como se nós tivéssemos acalmado a superfície do lago e a lua pode aparecer”.

Em: Instruções ao Cozinheiro. Ensinamentos de um Mestre Zen sobre viver uma vida com sentido. Bernard Glassman & Rick Fields. Bell Tower – New York

> Zazen por… Charllote Joko Beck

(…) O ponto central do zazen é este: o que temos de fazer com constância é apenas criar uma discreta transição do mundo vertiginoso que temos dentro de nossas mentes para o momento presente, o preciso aqui e agora. Essa é nossa prática. O que temos de desenvolver é nossa intensidade e nossa capacidade de estar exatamente aqui e agora. Precisamos ser capazes de desenvolver a habilidade de dizer: “Não, não vou nessa vertigem”; de fazer tal escolha. Nossa prática é, de momento a momento, como uma escolha, uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. É sempre uma escolha, a cada momento, entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes e aquilo que de fato existe (…).

(…) Não espere ser nobre, quando praticar o sentar. Ao desistirmos dessa mente vertiginosa, mesmo que por apenas alguns instantes e só sentamo-nos com o que é, essa presença que somos é como um espelho. Vemos tudo. Vemos o que somos: nosso esforço para parecermos bons, para sermos os primeiros, ou para sermos os últimos. Vemos nossa raiva, nossa ansiedade, nossa arrogância e nossa pseudoespiritualidade. A verdadeira espiritualidade é apenas estar com tudo isso. Se na realidade pudermos estar com Buda, com quem somos, então isso se transforma.

Fonte: “Sempre Zen – Como introduzir a Prática do Zen em seu dia a dia”.

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