Arquivo da categoria: Outras

Inscrições ROHATSU SESSHIN

ROHATSU SESSHIN ON-LINE

De 1º a 8 de dezembro
Participação integral ou parcial.
Valor único: R$200,00

INSCREVA-SE AQUI

“De 1º a 8 de dezembro, todos os anos, celebramos o Rohatsu Sesshin – Retiro do Despertar de Sidarta Gautama. Durante sete dias e sete noites nos manteremos em Nobre Silêncio e em Zazen (meditação sentada), como Buda o fez há mais de 2.600 anos. Trata-se do retiro mais longo e mais importante da nossa tradição Soto Zen Shu.

No contexto da Pandemia do Coronavírus estaremos realizando, pela primeira vez, o Rohatsu Sesshin totalmente on-line. Organize-se para praticar conosco. Estaremos unindo vários professores das Sangas de São Paulo, Ribeirão Preto, São Leopoldo e Rio de Janeiro.
Participe e desperte.”

Monja Coen Roshi

SAIBA MAIS:

O que é um sesshin?

Sesshin e a força do grupo

Rohatsu Sesshin, por Monja Kokai

Shobogenzo Zuimonki – Livro 4 Parte 5

Palestras de Eihei Dogen Zenji, registradas por Koun Ejo

Livro 4 – Parte 5

               No segundo ano da Era Katei (1236 d.C.)[1], ao anoitecer do último dia do décimo segundo mês, Mestre Dogen me nomeou [Ejo] para ser o shuso (monge principal)[2] de Koshoji. Depois de um discurso informal[3], Dogen pediu que eu, como shuso, pegasse o hossu[4]  e, pela primeira vez, desse uma palestra. Fui o primeiro shuso de Koshoji. Em seu breve discurso, Mestre Dogen levantou a questão da transmissão do Darma de Buda nesta linhagem.

               “O Primeiro Ancestral[5]  veio do Oeste e ficou no Templo Shorin. Ele sentou-se de frente para a parede, esperando por alguém [a quem pudesse transmitir o Darma] e antevendo o tempo [quando o Darma se espalharia]. Em dezembro de um certo ano, Shinko veio e passou a praticar com ele. O Primeiro Ancestral sabia que ele era um receptáculo do Supremo Veículo[6], então ele o ensinou e o guiou; tanto o dharma quanto o manto foram transmitidos a ele. Seus descendentes se espalharam por todo o país e o Darma verdadeiro prevaleceu até os dias atuais. “Pela primeira vez, nomeei um shuso neste mosteiro. Hoje lhe pedi que pegasse o hossu e desse uma palestra. Não se preocupe com o pequeno número nesta sanga. [Para Ejo] Não se incomode por ser um iniciante. Com Funyo[7] havia apenas seis ou sete pessoas; com Yakusan[8] havia menos de dez. No entanto, todos eles praticavam o Caminho dos budas e ancestrais. A isso chamaram de ‘o florescimento dos mosteiros’.”

               Reflita sobre o fato de alguém ter compreendido o Caminho ao ouvir o som do bambu; que outro teve a Mente clarificada ao vislumbrar flores de pêssego desabrochando[9]. Como poderia ser possível diferenciar árvores de bambu inteligentes das tolas, ou as deludidas das iluminadas? Como poderia haver superficiais ou profundas, sábias ou tolas entre as flores? As flores desabrocham todos os anos, mas nem todas as pessoas alcançam a iluminação ao vê-las. As pedras freqüentemente atingem o bambu, ainda assim nem todos que ouvem o som têm o Caminho clarificado. 

               Apenas como resultado de um longo estudo e da prática contínua, pautado em um esforço diligente no Caminho, é que alguém compreende o Caminho ou clarifica a Mente. Isso não ocorreu porque o som do bambu foi especialmente maravilhoso, nem porque a cor das flores de pêssego foi particularmente profunda. Embora o som do bambu seja maravilhoso, ele não soa por si só; ele ressoa com o auxílio de um pedaço de telha. Embora a cor das flores de pêssego seja linda, elas não desabrocham por si mesmas; elas abrem com a ajuda da brisa da primavera. 

               Praticar o Caminho também é assim. Este Caminho está inerente em cada um de nós; ainda assim, a conquista do Caminho depende da ajuda de co-praticantes. Embora cada pessoa seja brilhante, nossa prática do Caminho ainda precisa do poder de outras pessoas [na sanga]. Portanto, enquanto você unifica sua mente e concentra sua aspiração, pratique e busque o Caminho junto com os outros.

               Uma gema/pedra bruta torna-se uma vasilha quando moldada; um ser humano se torna benevolente e sábio com o refinamento. Que jóia brilha desde a sua criação? Quem é brilhante desde o início? Você deve polir e refinar. Portanto, não se depreciem e não relaxem na prática do Caminho.  Um ancião disse: “Não gaste seu tempo em vão”. Agora, eu lhes pergunto: por acaso o tempo para, embora você o aprecie? Ou ele continua mesmo que você se lamente? Você deve saber que não é o tempo que passa em vão; é a pessoa que o desperdiça. Isso significa que os seres humanos, assim como o tempo, têm que se dedicar à prática do Caminho, em vez de gastar seu tempo em vão. 

               “Assim, unam suas mentes ao estudar e praticar. Não é fácil sustentar o dharma por mim mesmo [por isso pedi ao novo shuso que me ajudasse]. A maneira como os budas e os ancestrais praticaram sempre foi assim. Muitos alcançaram o Caminho seguindo os ensinamentos do Tathagata (Shakyamuni), mas houve quem constatou o Caminho através de Ananda.[10] 

               Shuso, você não deve se depreciar dizendo que você não é um receptáculo  [do Darma]. Dê uma palestra a seus companheiros de prática sobre a história dos três quilos de gergelim de Tozan”.[11] Dogen desceu do assento, o tambor foi tocado novamente e o shuso [I] pegou o hossu. Este foi o primeiro “tomar o hossu” em Koshoji. Eu tinha trinta e nove anos.  

Tradução: Mui Leticia Rothen Sato

Revisão: Rucei Luci Collin

Traduzido da versão em inglês de Shohaku Okumura, publicado por Sotoshu Shumucho. Disponível em https://global.sotozen-net.or.jp/eng/library/leaflet/Zuimonki/pdf/zuimonki.pdf


[1] Em dezembro de 1235, Dogen começou a levantar doações para a construção do sodo (sala dos monges) em Koshoji. A construção foi concluída em outubro de 1236. Este foi o primeiro sodo formal no Japão.

[2] Consulte capítulo 3-5, nota de rodapé 2.

[3]Shosan, literalmente “pequena reunião”. Geralmente, o Shosan era realizado nos aposentos do abade onde ele daria uma palestra enquanto que “jodo” é chamado daisan, a grande reunião realizada no hatto, o salão do darma. No Eihei-koroku Dogen disse: “Shosan é o ensinamento da família dos Budas e ancestrais. No Japão, até mesmo o nome era desconhecido. Desnecessário dizer, o costume por trás do nome nunca havia sido cumprido. Vinte anos se passaram desde que o introduzi e comecei a praticá-lo (no Japão).”  

[4] Hossu é um cajado curto de madeira ou bambu com cabelo enrolado (de vaca, cavalo ou iaque) ou cânhamo empunhado por um sacerdote zen budista (N.T). Hinpotsu em japonês significa literalmente “pegar o espanador”. Na verdade, refere-se a uma palestra proferida pelo monge chefe ou outro monge sênior no lugar do abade. É assim chamada porque a pessoa que dá a palestra toma o  espanador do abade.  

[5] O primeiro patriarca do Zen chinês, Bodhidharma (? –495, 346–495,? – 528 ou? –536), transmitiu o dharma da Índia para a China. De acordo com a lenda, Bodhidharma conheceu Butei de Ryo e foi para Shorinji, onde sentou-se em zazen por nove anos. Durante esse período, Shinko veio e acabou se tornando seu discípulo. Shinko mudou seu nome para Eka. Ele se tornou o segundo ancestral.

[6] Os monges zen chamam a Realidade de “Veículo Supremo” porque ela transcende a discriminação entre Mahayana e Hinayana.

[7] Funyo Zensho (947-1024), mestre zen chinês da escola Rinzai.

[8] Yakusan Igen (751–834), discípulo de Sekito Kisen.

[9] Consulte capítulo 2-26, nota de rodapé 1.

[10] Ananda foi um dos dez grandes discípulos do Buda. Ele foi assistente de Buda por mais de vinte anos e guardou todos os seus sermões de cor. Após a morte de Buda, Ananda recitou os sermões que havia memorizado, os quais, mais tarde, foram compilados em uma coleção de sutras.

[11] Tozan Shusho, discípulo de Unmon Bunen (? –949). Um monge lhe perguntou: “O que é o Buda?” Tozan disse. “Três quilos de gergelim.”

“Zazen é me crucificar”

É um trem noturno

Enquanto dormimos

nos carrega em paz

O mestre Kodo Sawaki frequentemente citava esse poema, dizendo: “Sua respiração e pulsação de seu coração não possuem nenhuma relação com a sua vontade. Seus desejos e contrariedades também só existem enquanto você está acordado”. Quando nos damos conta de que há forças que nos mantém vivos mesmo enquanto dormimos ou cochilamos, percebemos que nossa vida está se desenrolando e se mantendo de formas que vão muito além de nossos pensamentos pequenos e de nossos sentimentos mesquinhos.

O mestre zen Dogen definiu dois tipos de “eu”. O primeiro é aquele egoísta, contido dentro de um saco de pele. A isso ele chamou de “ego”(jiga ou aga). O segundo é o que age distante da nossa vontade pessoal, obedecendo às grandes forças do Cosmo para nos envolver e dar vida. A isso ele chamou de “verdadeiro eu”(jiko). Costumo usar o termo “o outro eu”.

O ideograma de za em zazen significa “sentar”, e seu desenho lembra duas pessoas sobre a terra. Pode-se interpretar isso como uma conversa entre o nosso eu mesquinho e o nosso outro eu, que é Buda. Ou como o nosso outro eu agindo para que o nosso eu mesquinho não faça besteiras, o que é uma visao interessante.

O mestre Sawaki afirmou: “A religião é nada mais do que permitir que Buda cuide de todos os aspectos da nossa vida”. E um de seus maiores discipulos, o mestre Kôshô Uchiyama, disse: “Zazen é me crucificar”. É a mesma coisa. A prática consiste em abandonar o nosso ego até que ele morra – em outras palavras, manter-se feliz e contente até que durma satisfeito -, ao mesmo tempo que despertamos e criamos o nosso outro verdadeiro eu, repleto da vida do Universo, para viver de acordo com esse nosso verdadeiro eu.

E quanto mais esse nosso outro eu cresce e de desenvolve, mais os nossos olhos se aclaram e mais evidente se mostra o nosso ego mesquinho, sujo e irrecuperável. É nisso em que eu acredito. Novamente, a plavra do mestre Sawaki: “O paraíso também é chamado de terra 10 trilhões de léguas a oeste; essa distancia se refere ao trajeto que começa em você e termina em você mesmo”. Isso demonstra uma verdade que cala fundo em nosso coração.

Chamamos de Buda essa Verdade, essa Pulsação da Vida que nos mantém vivos e que age em níveis que transcendem em muito a nossa vão filosofia. E vivemos de acordo com Buda, abandonando totalmente nosso ego, prestando reverencia a essa Verdade e retornando a Ela, deixando nossa vida em Suas mãos e seguindo-A de coração. Esse estilo de vida é o que chamamos de Namu kie, o Refúgio ou Abrigo nas Três Joias, que é se tornar de verdade seguidor de Buda. Acredito que seja esse o espirito do zazen e das recitaçoes de nenbutsu.

15 de julho de 2010, por ocasião do fim do período de treinamento intensivo (ango) de verão.

Gasshô,

Shundo Aoyama

em Posfácio, no livro A Coisa mais Preciosa da Vida