Shobogenzo Zuimonki – Livro 4 Parte 5

Palestras de Eihei Dogen Zenji, registradas por Koun Ejo

Livro 4 – Parte 5

               No segundo ano da Era Katei (1236 d.C.)[1], ao anoitecer do último dia do décimo segundo mês, Mestre Dogen me nomeou [Ejo] para ser o shuso (monge principal)[2] de Koshoji. Depois de um discurso informal[3], Dogen pediu que eu, como shuso, pegasse o hossu[4]  e, pela primeira vez, desse uma palestra. Fui o primeiro shuso de Koshoji. Em seu breve discurso, Mestre Dogen levantou a questão da transmissão do Darma de Buda nesta linhagem.

               “O Primeiro Ancestral[5]  veio do Oeste e ficou no Templo Shorin. Ele sentou-se de frente para a parede, esperando por alguém [a quem pudesse transmitir o Darma] e antevendo o tempo [quando o Darma se espalharia]. Em dezembro de um certo ano, Shinko veio e passou a praticar com ele. O Primeiro Ancestral sabia que ele era um receptáculo do Supremo Veículo[6], então ele o ensinou e o guiou; tanto o dharma quanto o manto foram transmitidos a ele. Seus descendentes se espalharam por todo o país e o Darma verdadeiro prevaleceu até os dias atuais. “Pela primeira vez, nomeei um shuso neste mosteiro. Hoje lhe pedi que pegasse o hossu e desse uma palestra. Não se preocupe com o pequeno número nesta sanga. [Para Ejo] Não se incomode por ser um iniciante. Com Funyo[7] havia apenas seis ou sete pessoas; com Yakusan[8] havia menos de dez. No entanto, todos eles praticavam o Caminho dos budas e ancestrais. A isso chamaram de ‘o florescimento dos mosteiros’.”

               Reflita sobre o fato de alguém ter compreendido o Caminho ao ouvir o som do bambu; que outro teve a Mente clarificada ao vislumbrar flores de pêssego desabrochando[9]. Como poderia ser possível diferenciar árvores de bambu inteligentes das tolas, ou as deludidas das iluminadas? Como poderia haver superficiais ou profundas, sábias ou tolas entre as flores? As flores desabrocham todos os anos, mas nem todas as pessoas alcançam a iluminação ao vê-las. As pedras freqüentemente atingem o bambu, ainda assim nem todos que ouvem o som têm o Caminho clarificado. 

               Apenas como resultado de um longo estudo e da prática contínua, pautado em um esforço diligente no Caminho, é que alguém compreende o Caminho ou clarifica a Mente. Isso não ocorreu porque o som do bambu foi especialmente maravilhoso, nem porque a cor das flores de pêssego foi particularmente profunda. Embora o som do bambu seja maravilhoso, ele não soa por si só; ele ressoa com o auxílio de um pedaço de telha. Embora a cor das flores de pêssego seja linda, elas não desabrocham por si mesmas; elas abrem com a ajuda da brisa da primavera. 

               Praticar o Caminho também é assim. Este Caminho está inerente em cada um de nós; ainda assim, a conquista do Caminho depende da ajuda de co-praticantes. Embora cada pessoa seja brilhante, nossa prática do Caminho ainda precisa do poder de outras pessoas [na sanga]. Portanto, enquanto você unifica sua mente e concentra sua aspiração, pratique e busque o Caminho junto com os outros.

               Uma gema/pedra bruta torna-se uma vasilha quando moldada; um ser humano se torna benevolente e sábio com o refinamento. Que jóia brilha desde a sua criação? Quem é brilhante desde o início? Você deve polir e refinar. Portanto, não se depreciem e não relaxem na prática do Caminho.  Um ancião disse: “Não gaste seu tempo em vão”. Agora, eu lhes pergunto: por acaso o tempo para, embora você o aprecie? Ou ele continua mesmo que você se lamente? Você deve saber que não é o tempo que passa em vão; é a pessoa que o desperdiça. Isso significa que os seres humanos, assim como o tempo, têm que se dedicar à prática do Caminho, em vez de gastar seu tempo em vão. 

               “Assim, unam suas mentes ao estudar e praticar. Não é fácil sustentar o dharma por mim mesmo [por isso pedi ao novo shuso que me ajudasse]. A maneira como os budas e os ancestrais praticaram sempre foi assim. Muitos alcançaram o Caminho seguindo os ensinamentos do Tathagata (Shakyamuni), mas houve quem constatou o Caminho através de Ananda.[10] 

               Shuso, você não deve se depreciar dizendo que você não é um receptáculo  [do Darma]. Dê uma palestra a seus companheiros de prática sobre a história dos três quilos de gergelim de Tozan”.[11] Dogen desceu do assento, o tambor foi tocado novamente e o shuso [I] pegou o hossu. Este foi o primeiro “tomar o hossu” em Koshoji. Eu tinha trinta e nove anos.  

Tradução: Mui Leticia Rothen Sato

Revisão: Rucei Luci Collin

Traduzido da versão em inglês de Shohaku Okumura, publicado por Sotoshu Shumucho. Disponível em https://global.sotozen-net.or.jp/eng/library/leaflet/Zuimonki/pdf/zuimonki.pdf


[1] Em dezembro de 1235, Dogen começou a levantar doações para a construção do sodo (sala dos monges) em Koshoji. A construção foi concluída em outubro de 1236. Este foi o primeiro sodo formal no Japão.

[2] Consulte capítulo 3-5, nota de rodapé 2.

[3]Shosan, literalmente “pequena reunião”. Geralmente, o Shosan era realizado nos aposentos do abade onde ele daria uma palestra enquanto que “jodo” é chamado daisan, a grande reunião realizada no hatto, o salão do darma. No Eihei-koroku Dogen disse: “Shosan é o ensinamento da família dos Budas e ancestrais. No Japão, até mesmo o nome era desconhecido. Desnecessário dizer, o costume por trás do nome nunca havia sido cumprido. Vinte anos se passaram desde que o introduzi e comecei a praticá-lo (no Japão).”  

[4] Hossu é um cajado curto de madeira ou bambu com cabelo enrolado (de vaca, cavalo ou iaque) ou cânhamo empunhado por um sacerdote zen budista (N.T). Hinpotsu em japonês significa literalmente “pegar o espanador”. Na verdade, refere-se a uma palestra proferida pelo monge chefe ou outro monge sênior no lugar do abade. É assim chamada porque a pessoa que dá a palestra toma o  espanador do abade.  

[5] O primeiro patriarca do Zen chinês, Bodhidharma (? –495, 346–495,? – 528 ou? –536), transmitiu o dharma da Índia para a China. De acordo com a lenda, Bodhidharma conheceu Butei de Ryo e foi para Shorinji, onde sentou-se em zazen por nove anos. Durante esse período, Shinko veio e acabou se tornando seu discípulo. Shinko mudou seu nome para Eka. Ele se tornou o segundo ancestral.

[6] Os monges zen chamam a Realidade de “Veículo Supremo” porque ela transcende a discriminação entre Mahayana e Hinayana.

[7] Funyo Zensho (947-1024), mestre zen chinês da escola Rinzai.

[8] Yakusan Igen (751–834), discípulo de Sekito Kisen.

[9] Consulte capítulo 2-26, nota de rodapé 1.

[10] Ananda foi um dos dez grandes discípulos do Buda. Ele foi assistente de Buda por mais de vinte anos e guardou todos os seus sermões de cor. Após a morte de Buda, Ananda recitou os sermões que havia memorizado, os quais, mais tarde, foram compilados em uma coleção de sutras.

[11] Tozan Shusho, discípulo de Unmon Bunen (? –949). Um monge lhe perguntou: “O que é o Buda?” Tozan disse. “Três quilos de gergelim.”