> Zazen por…. Okumura Roshi

Via Sanga Sanshin (orientada por Okumura Roshi, da linhagem de Uchyiama Roshi e Sawaki Roshi)

O estudo do Dharma em Sanshin tem o propósito de compreender a verdadeira natureza de shikantaza (apenas sentar), ou que “zazen não serve para nada”. Essa é a tradução de Okumura Roshi de uma expressão (“além do ganho e além do satori” [mushotoku-mushogo 所得無所 ]) usada com frequência por seu avô do dharma, Kodo Sawaki. Esta frase simples é uma destilação da essência de shikantaza, e todo o nosso estudo do dharma volta para “zazen não serve para nada” de alguma forma. Dogen escreveu sobre por que não há nada a ganhar com a prática sentada de uma variedade de perspectivas, e é um tema que surge regularmente em seus textos. Shikantaza intensivo está no cerne do estilo de prática de Sanshin, então é crucial que investiguemos profundamente o que “apenas sentar” realmente é e por que não serve para nada. Esta é a primeira parte da exploração. 

A busca por significado 

Nossos problemas começam quando seguimos nossa tendência humana natural de buscar um significado em nossas atividades. Normalmente não fazemos nada sem saber o objetivo de uma determinada ação. Perguntamos a nós mesmos qual será o resultado, por que ele é importante, como os outros serão afetados e se há ou não um benefício para nós. Por extensão, procuramos o significado de nossas vidas. 

Okumura Roshi tinha o mesmo tipo de perguntas. Como estudante, ele se questionou a respeito das expectativas da sociedade de que todos iriam bem na escola, conseguiriam bons empregos, ganhariam dinheiro e comprariam coisas impressionantes. Ele questionou o valor da competição por riqueza, poder, fama e luxo. Essa era uma medida realmente útil para distinguir o que era bom do que não era? Ele pesquisou amplamente em uma variedade de disciplinas em busca de respostas, mas “Tudo o que eu li parecia ser a ideia de uma pessoa a partir de suas experiências limitadas em um determinado tempo e sociedade. Eu queria saber o significado do significado”. 

Então ele encontrou os ensinamentos de Sawaki Roshi. “Parar de procurar um significado e simplesmente fazer um zazen bom-para-nada parecia a libertação daquele círculo infinito do  cachorro perseguindo o próprio rabo.”

Sem surpreender, quando chegamos pela primeira vez ao shikantaza, estamos procurando por algo. Existem variadas práticas meditativas ou contemplativas destinadas a melhorar a concentração, aprofundar a conexão com Deus, reduzir a pressão arterial, aumentar a criatividade, controlar a raiva, cultivar poderes espirituais e muitas outras coisas. Dentro da tradição Zen, existem práticas que visam levar a pessoa a uma experiência de satori ou kensho. Podemos ser perdoados por supor, à primeira vista, que shikantaza é também um meio de nos transformarmos de alguma forma e que se a abordarmos como se estivéssemos treinando para uma maratona ou estudando para uma qualificação, obteremos a recompensa que buscamos. 

Mas shikantaza não é nada disso. Em outros tipos de empreendimentos, podemos dizer que manter os olhos no prêmio ou nunca perder de vista o objetivo é uma bela demonstração de compromisso e força. Praticar muito o sentar com uma mente de ganho – em busca de uma experiência de pico ou algum benefício pessoal – é na verdade um obstáculo. Mantém-nos presos ao nosso pensamento conceitual e alimenta nossas idéias sobre o que “nosso” zazen “deveria” ser, embora o zazen não seja a prática de um indivíduo, mas a atividade do universo como um todo. Assumimos a postura, respiramos profundamente, mantemos os olhos abertos e deixamos de pensar. Essas quatro coisas são tudo o que fazemos no zazen, então não há como manter o foco em um objetivo. Temos que deixar ir nossa espera pelos prêmios. 

Isso não quer dizer que não possamos nos perceber ficando mais calmos, mais equilibrados ou com a visão mais clara depois de praticar a postura sentada por algum tempo. No entanto, o zazen não é um método ou terapia projetada simplesmente para melhorar nosso funcionamento diário. Não vai nos transformar em pessoas de quem gostamos mais ou nos dar qualidades que ainda não temos. Kosho Uchiyama, professor de Okumura Roshi, nutria esse tipo de esperança quando começou a praticar com Sawaki Roshi; ele queria ser mais parecido com seu professor carismático, mas descobriu que o zazen não era um meio para esse fim e que estava perfeitamente bem do jeito que estava. “Uma violeta floresce como uma violeta e uma rosa como uma rosa”, concluiu. “Para violetas, não há necessidade de desejar se tornar rosas.”

Fonte:  Part 2:  Zazen is good. Period.”.

Traduzido por Mui Leticia R Sato – Zendo Curitiba