> A parábola de Enyadatta

Por Phillip Kapleau

Na segunda metade desta conferência vou retomar a estória de Enyadatta, que vem de uma sutra Ryogon. É uma parábola excepcionalmente bela. Asseguro-lhes que, se refletirem cuidadosamente sobre ela, muitos pontos obscuros do budismo serão esclarecidos.

Este caso parece ter ocorrido no tempo de Buda. Se é verdadeiro ou legendário, não posso dizer. Enyadatta era uma linda donzela que de nada gostava mais do que de olhar-se num espelho cada manhã. Um dia, quando olhou para o espelho não encontrou nenhuma cabeça nele refletida. Por que não a encontrou naquela determinada manhã, a sutra não relata. De qualquer forma, Enyadatta teve tamanho choque que ficou desvairada, correndo de um lado para outro e perguntando quem teria tirado sua cabeça. “Quem está com minha cabeça?”, gritava ela. Embora todo mundo lhe dissesse: “Não seja tola, sua cabeça está entre seus ombros, onde sempre esteve”, ela se recusava a acreditar. “Não, não está! Não, não está! Alguém deve tê-la tirado!”, gritou ela, continuando sua procura frenética. Finalmente, suas amigas, julgando que estivesse louca, conduziram-na à força para casa e amarraram-na numa coluna, a fim de impedir que se machucasse.

O estar ligado poderia ser comparado ao comprometer-se com o zazen. Com a imobilização do corpo, a mente consegue certa medida de tranquilidade. Embora ainda esteja distraída, como a mente de Enyadatta estava na crença de que não tinha cabeça, entretanto o corpo está agora impedido de desbaratar suas energias.

Aos poucos suas amigas íntimas a persuadiram de que sempre tivera sua cabeça, e gradualmente começou a acreditar um pouco nisto. Seu subconsciente começou a aceitar o fato de que talvez se tivesse enganado pensando que perdera a cabeça.

Enyadatta recuperando a confiança por meio de suas amigas, poderá se equiparar à escuta dos comentários do roshi (teisho).

Inicialmente são difíceis de ser compreendidos, mas se vocês os escutam atentamente, cada palavra mergulhando em seu subconsciente, chega o momento em que começam a pensar: Será isto verdade?…será…Sim, deve ser”.

De repente uma de suas amigas lhe deu um tremendo murro na cabeça, e com isto, na dor e no choque, ela gritou: “Ui!” – “Esta é a sua cabeça! Aí está ela!”, exclamou sua amiga, e imediatamente Enyadatta viu que se enganara ao pensar que havia perdido sua cabeça quando de fato nunca deixara de possuí-la.

Da mesma forma, os golpes no zazen são de um grande valor.

Precisamente na hora certa — se for muito cedo não adianta — receber um golpe físico pela vara Kyosaku ou verbal pelo mestre observador, poderá fazer brotar a autopercepção. Não só o Kyosaku é útil para estimulá-los, mas, quando vocês já alcançaram um estágio decisivo no seu zazen uma pancada forte poderá precipitar sua mente numa consciência de uma verdadeira natureza — em outras palavras, na iluminação.

Quando isso aconteceu a Enyadatta, ela ficou tão exaltada que correu de um lado para outro, exclamando: “Oh! Encontrei-a! Estou afinal com minha cabeça! Estou tão feliz!” É este o rapto do kensho.

Se a experiência é genuína, vocês, de tanta alegria, não poderão dormir duas ou três noites. Todavia, é um estado de semi loucura.

Ficar alguém super feliz porque encontrou a cabeça que sempre teve desde o seu primeiro momento de existência é, no mínimo estranho. Não é menos estranho que alguém se alegre com a descoberta de sua natureza-Essencial, que nunca deixou de ter. O êxtase é bastante genuíno, mas seu estado de espírito não poderá ser chamado de natural, até que tenha aberto plenamente os olhos para esta realidade; “eu me tornei iluminado”. Prestem bem atenção a isto, pois é muitas vezes mal interpretado.

À medida que sua alegria ia diminuindo, Enyadatta se restabelecia de seu estado de semi loucura.

Assim é com o satori. Quando seu delírio de felicidade vai diminuindo, carregando consigo todos os pensamentos de realização, a pessoa se estabelece numa vida verdadeiramente natural e nada há de estranho nisto. Até que chegue a este ponto, porém, é impossível viver em harmonia com o ambiente ou continuar num caminho de prática verdadeiramente espiritual.

Vou agora esclarecer mais especificamente o sentido da primeira parte da estória. Uma vez que a maioria das pessoas é indiferente à iluminação, ignoram as possibilidades de tal experiência. São como Enyadatta quando estava inconsciente de sua cabeça como tal. Esta “cabeça”, naturalmente, corresponde à natureza-Buda, à nossa perfeição inata. Que tenham mesmo uma natureza-Buda, isto nunca ocorre à maioria das pessoas até que ouvem o shujo honrai hotoke naki — “Todos os seres são dotados de uma natureza-Buda desde o mais remoto princípio”. De repente eles exclamam: “Então eu também devo ter uma natureza-Buda! Mas, onde é que está?” Assim como Enyadatta quando sentiu falta da cabeça e começou a correr por todos os lados procurando-a, começam a buscar sua verdadeira natureza.

Começam escutando diversos teisho que parecem contraditórios e confusos. Ouvem que sua natureza-Essencial nada tem de diferente da de Buda — e ainda mais, que a substância do universo é coextensiva com sua própria natureza-Buda — porém, estando suas mentes enubladas pela ilusão, vêem-se em confronto com um mundo de seres individuais. Mas depois de terem conseguido crer firmemente na realidade da natureza-Buda, são levados a descobri-la com toda a força de seu ser. Assim como Enyadatta nunca deixou de ter sua cabeça, também nós nunca nos separamos de nossa natureza-Buda essencial, quer tenhamos ou não sido iluminados. Estamos, porém, inconscientes disto. Somos como Enyadatta quando suas amigas lhe disseram: “Não seja absurda, você nunca deixou de ter sua cabeça. É ilusão pensar de outro modo”.

A descoberta da nossa verdadeira-natureza pode ser comparada à descoberta de Enyadatta de sua cabeça. Mas o que descobrimos? Somente que nunca deixamos de tê-la. Mesmo assim entramos em êxtase, como Enyadatta ao encontrar sua cabeça. Quando o êxtase desaparece, compreendemos que nada adquirimos de extraordinário e, certamente nada de particular. Somente agora tudo é inteiramente natural.

Em “Os três pilares do Zen. Ensinamento. Prática. Iluminação” de Philip Kapleau.