> Shobogenzo Zuimonki (17) – Livro 1 Parte 16

Estudantes do Caminho, não se preocupem com comida e roupas. Apenas mantenham os preceitos de Buda e não se engajem em afazeres mundanos. O Buda disse para usar trapos abandonados como vestimenta e mendigar por comida. Em qual era estas duas coisas se esgotarão? Não se esqueça da rapidez da impermanência nem se perturbe inutilmente por afazeres mundanos. Enquanto sua vida humana, semelhante ao orvalho, durar, pense exclusivamente no Caminho de Buda e não se preocupe com outras coisas.“.

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Dogen instruiu,

Estudantes do Caminho, não se preocupem com comida e roupas. Apenas mantenham os preceitos de Buda e não se engajem em afazeres mundanos. O Buda disse para usar trapos[1] abandonados como vestimenta e mendigar por comida. Em qual era estas duas coisas se esgotarão? Não se esqueça da rapidez da impermanência nem se perturbe inutilmente por afazeres mundanos. Enquanto sua vida humana, semelhante ao orvalho, durar, pense exclusivamente no Caminho de Buda e não se preocupe com outras coisas.

Alguém perguntou: “Embora seja difícil desistir de fama e lucro, na medida em que buscá-los é um grande obstáculo à prática do Caminho, eles devem ser abandonados. Consequentemente, eu os abandonei. Embora roupa e comida sejam coisas menores, elas são grandes questões para os praticantes. Vestir roupas feitas de trapos abandonados e mendigar por comida são práticas de pessoas superiores. Além do mais, este tem sido o costume na Índia. Os monastérios na China têm propriedade permanente[2] pertencente à comunidade, então eles não precisam se preocupar com tais coisas. Entretanto, os templos neste país não têm tais propriedades e a prática de mendicância não foi de modo algum transmitida. O que pessoas inferiores como eu, que não podem sustentar tal prática devem fazer? Se alguém como eu tenta obter esmolas de crentes leigos, ele está cometendo um pecado ao receber doação sem ter virtude. Ganhar a vida como fazendeiro, mercador, guerreiro ou artesão é um modo de vida impróprio para um monge. E, se eu deixar tudo para o destino, permanecerei muito pobre como resultado de um carma inferior. Quando sofro de fome ou estou entorpecido pelo frio, eu estarei em problemas e minha prática será impedida.

Alguém me aconselhou dizendo: ‘Sua forma de praticar é extrema. Você não entende esta época e não reflete sobre sua capacidade. Nossa natureza é inferior e esta é uma era degenerada[3]. Se você continuar a praticar desta forma, isso se tornara causa de retrocesso no Caminho. Busque o apoio de algum benfeitor, cuide de seu corpo ao viver em lugar tranquilo sem ter que se preocupar com comida e roupas e pratique o Caminho pacificamente. Isso não é ganância por propriedade ou pertences. Você deveria praticar depois de ter provido suas necessidades temporais de subsistência’.

Embora eu tenha ouvido seu conselho, eu ainda não acredito nele. Como deveríamos considerar tais coisas?”

Dogen respondeu: “Apenas estude cuidadosamente a conduta de monges Zen, junto com o estilo de vida de budas e ancestrais. Embora os costumes dos três países sejam diferentes, aqueles que verdadeiramente estudam o Caminho nunca praticaram do modo que você descreveu. Apenas não se apegue a afazeres mundanos mas estude o Caminho de uma maneira direta.

O Buda disse: “Não mantenha nada exceto mantos e uma tigela. Dê toda comida extra que tenha recebido pela mendicância para seres vivos famintos”.

Não estoque mesmo o que você tenha ganho, nem corra por aí procurando coisas. Em um texto não Budista é dito que se nós aprendemos o Caminho de manhã deveríamos não nos preocupar de morrer à tarde[4]. Mesmo que possamos morrer de frio ou fome, deveríamos seguir o ensinamento de Buda mesmo que apenas por um dia ou uma hora.

Em dez mil kalpas ou milhões de vidas, quantas vezes nós nascemos e quantas vezes morremos? Este ciclo de vidas é samsara, causado apenas pelo apego cego aos afazeres mundanos. Morrer de fome seguindo os ensinamentos de Buda nesta única vida resulta em paz e alegria eternas  (Nirvana). Além do mais, eu nunca li na coleção dos sutras Budistas sobre um único Buda ou ancestral que tenha transmitido o darma nos três países e que tenha morrido de fome ou frio. Neste mundo, inerentemente cada pessoa recebe uma certa quantidade de comida e roupa como um presente. Não vem pelo fato de corrermos atrás nem para de vir pelo fato de não corrermos atrás. Apenas entregue para o destino e não se preocupe com isso. Se você se abstém de despertar a mente bodai nesta vida, justificando-se com base no fato de esta ser um era degenerada, em qual vida será possível obter o Caminho?

Mesmo que você não seja tão superior como Subhuti[5] ou Mahakasyapa[6], você deveria praticar na sua máxima capacidade. Em um texto não Budista é dito que um homem que ama as mulheres irá amá-las mesmo que elas não sejam tão belas como Mosho (Maoqiang) ou Seishi (Xishi)[7] e que uma pessoa que admira cavalos irá admirá-los mesmo que eles não sejam tão bons como Hito (Fei-tu) ou Rokuji (Lu-er)[8]. Alguém que aprecie o gosto (de comida) irá gostar (do que quer que seja) independente se isto for ou não tão delicioso quanto fígado de dragão ou medula de fênix.  Nós simplesmente devemos usar tanta sabedoria quanto possuímos. Mesmo leigos têm esta atitude. Praticantes Budistas devem ser desta forma.

Além do mais, o Buda ofereceu vinte anos de sua vida para nós vivendo nesta era degenerada. Consequentemente, as ofertas e apoios de homens e seres celestiais aos monastérios neste mundo não cessaram. Embora o Tatagata tivesse fortes poderes e virtudes e fosse capaz de usá-los à vontade, ele passou um período de prática no verão comendo trigo usado para a forragem de cavalos[9]. Como seus discípulos hoje podem se aprimorar a não ser seguindo este exemplo?

Alguém perguntou: “Ao invés de, sem sentido, receber as ofertas de homens ou seres celestiais enquanto quebra os preceitos ou desperdiçar o legado do Tatagata sem despertar a mente bodai, não seria melhor viver como um leigo, se engajando em trabalhos comuns, mantendo-se vivo para continuar a prática do Caminho?”

Dogen respondeu: “Quem disse para quebrar os preceitos ou estar sem a mente bodai? Você tem que se forçar para despertar a mente bodai e praticar o darma de buda. Além do mais, é dito que o legado do Tatagata é igualmente dado sem preocupação com o fato de a pessoa manter ou quebrar os preceitos; independente de a pessoa ser um praticante iniciante ou avançado. Em lugar nenhum está escrito que você tem que retornar para a vida mundana ou parar de praticar, porque você quebrou os preceitos ou lhe falta a mente bodai. Quem tem tal mente bodai desde o início? Despertar o que é difícil de despertar, praticar o que é difícil de praticar…desta maneira, você irá naturalmente progredir no darma de Buda. Cada um de nós tem natureza buda. Não se deprecie sem sentido.

Também, em Monzen (Wen-xuan)[10], está escrito: ‘A prosperidade do país é trazida por um único homem sábio. A via dos antigos morre por causa de um tolo que vem depois’. Isso significa que se um único homem de sabedoria aparece, o país florescerá e se um único tolo aparece, a via dos antigos irá desaparecer.

Considere isso bem.


[1] Funzoe em japonês (Skt., Pamsukola). Na Índia, o kesa (kasaya), os mantos do monges budistas eram feitos de trapos abandonados encontrados em depósitos de lixo, cemitérios e assim por diante. Em Shobogenzo Kesakudoku (As Virtudes do Kasaya), Dogen disse: “Como o caminho imutável dos budas, funzoe (mantos de tecido abandonado são os melhores (para roupas de monges)”.

[2] Nos mosteiros Zen chineses, uma vez que os monges trabalhavam para se sustentar, eles possuíam terras e outras coisas chamadas Jojumotsu. Mais tarde, os mosteiros Zen foram apoiados pelo imperador, o governo ou a nobreza, e recebeu estes coisas deles.

[3] Masse em japonês, é o período de mappo, no qual os ensinamentos do Buda declinam. É o último dos três períodos após a morte do Buda. No decorrer do período do verdadeiro darma (shobo) com duração de 500 (alguns dizem 1.000) anos, os ensinamentos de Buda são praticados de maneira adequada e a iluminação pode ser alcançada. Durante o período do darma de aparência (zoho), com duração de 1.000 (alguns dizem 500) anos, o ensino é praticado, mas a iluminação não é mais possível. Durante o período do último darma decadente (mappo), que durou 10.000 anos, apenas o ensino existe, embora não seja praticado e não haja iluminação. As pessoas acreditavam que o último período começou em 1052 d.C., o que influenciou grandemente o budismo japonês nos períodos Heian e Kamakura.

[4] Esta é uma citação tirada do capítulo 4 de Os Analectos de Confúcio, (Ch., Lunyu, J., Rongo).

[5] Subhuti foi um dos dez grandes discípulos de Buda. Diz-se que ele tinha um compreensão profunda de sunyata (vazio).

[6] Mahakashapa também foi um dos dez grandes discípulos de Buda. De acordo com a tradição Zen, ele recebeu a transmissão do darma de Buda e tornou-se o primeiro ancestral da Índia.

[7] Ambos eram símbolos da beleza Chinesa. Eles viveram no período de Shunju (Chunqiu, Primavera e Outono, 770-476 a.C.).

[8] Hito (Fei-tu, Coelho Voador) e Rokuji (Lu-er, Orelha Verde) eram cavalos famosos.

[9] Um certo rei uma vez convidou o Buda e seus quinhentos discípulos para passarem um período de prática de verão de noventa dias em seu país. O Buda e sua assembléia foram para o país, mas o rei se esqueceu de fazer ofertas diárias de comida, então eles sofreram de desnutrição. Havia um homem que possuía quinhentos cavalos, que ofereceu metade de sua forragem para cavalos ao Buda e seus discípulos. O Buda recebeu a oferta para poder continuar o período de prática. 

[10] Monzen (Wenxuan) é uma antologia da literatura clássica chinesa compilada por volta de 530 d.D. Era popular no Japão como um texto para estudantes de literatura.