> Shobogenzo Zuimonki (24) – Livro 2 Parte 2

(…) Naquela época, não havia vestimentas, comida ou quaisquer outras posses no templo. Embora Eisai pensasse sobre o que fazer, ele estava perdido. Havia um pouco de cobre fino destinado a fazer a auréola para o Yakushi-Buda que estava sendo construído. O abade o pegou, quebrou em pedaços, embrulhou e o deu para o pobre homem, instruindo-o a trocar o cobre por comida para aliviar a fome de sua família.

LIVRO 2

2-2

Dogen instruiu:

Certa ocasião, quando o falecido Sojo (Arcebispo) Eisai[1] estava em Kenninji, um homem pobre chegou e disse: “Minha família é tão carente que não temos nada para comer há muitos dias. Minha esposa e filhos estão prestes a morrer de fome. Por favor, tenha compaixão por nós.”

Naquela época, não havia vestimentas, comida ou quaisquer outras posses no templo. Embora Eisai pensasse sobre o que fazer, ele estava perdido. Havia um pouco de cobre fino destinado a fazer a auréola para o Yakushi-Buda[2] que estava sendo construído. O abade o pegou, quebrou em pedaços, embrulhou e o deu para o pobre homem, instruindo-o a trocar o cobre por comida para aliviar a fome de sua família.

O homem ficou muito satisfeito e partiu.

Os discípulos de Eisai, entretanto, o reprovaram [Eisai], dizendo: “Aquilo é nada menos que a auréola para a estátua de Buda. Você a cedeu ao leigo. Não é um pecado usar propriedade de Buda num uso pessoal?”

O Sojo respondeu: “Sim, é. Ainda assim, pensem na vontade de Buda. O Buda decepou sua carne e membros e os ofereceu aos seres vivos[3]. Mesmo se déssemos o corpo inteiro de Buda às pessoas que estão realmente prestes a morrer de forme, tal ação certamente estaria de acordo com a vontade de Buda.”

Ele continuou: “Mesmo que eu caia no inferno por causa deste pecado, eu acabei de salvar seres vivos que morreriam de fome”.

Alunos de hoje deveriam também considerar a mais profunda sensibilidade deste venerável predecessor. Não se esqueçam disso.

Certa vez, alguns monges na assembleia de Eisai disseram: “As construções de Kenninji estão localizadas muito perto do rio. Certamente chegará o dia em que elas serão destruídas por uma inundação”.

O Sojo respondeu: “Nós não deveríamos nos preocupar com a inevitável destruição desta construção no futuro. Mesmo em Gion-shoja[4]  (o Monastério Jetavana) na Índia, somente os pilares permaneceram. Entretanto, o mérito de haver fundado um monastério nunca se perde. Do mesmo modo, a virtude de praticar o Caminho no agora, mesmo que apenas por um ano ou meio ano, deve ser enorme.”

Agora, quando penso sobre isso, tendo em vista que fundar um monastério era de fato um grande acontecimento em sua vida, seria completamente natural tentar evitar um desastre futuro, e contudo, acompanhando este estado de espírito, Sojo Eisai teve tal atitude no fundo de seu coração. Nós realmente devemos ponderar sobre isso cuidadosamente.


[1] Veja 1-2, nota de rodapé 4.

[2] Yakushi (Mestre da Medicina) é o nome de um buda popular cujo nome completo é Yakushi-Ruriko (Mestre da Medicina da Luz Esmeralda); em sânscrito, Bhaisajya-guruvaidurya-prabha, Buda da Terra da Esmeraldo no Oriente. Como um bodisatva, Yakushi-Ruriko fez doze votos, um dos quais era curar doenças.

[3] No Jataka, uma coleçao de histórias sobre as vidas prévias de Buda, há uma em que o Bodisatva ofereceu seu próprio corpo para um tigre faminto. Muitas fábulas similares são encontradas nesta coleção.

[4] O monastério Jeta Gorve (em sânscrito, Jetavana-Vihara), O primeiro monastério budista doado ao Buda por seu discípulo leigo Sudatta (em japonês, Shudatsu).