Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (20) – Livro 1 Parte 19

“Em cada situação que você enfrenta, apenas considere cuidadosamente; faça tudo, mesmo que traga pouco benefício à pessoa que está diante de você, sem preocupação com o que as pessoas irão pensar de você. Mesmo que você se torne desfraternizado de seus amigos ou se indisponha com eles por dizerem que você fez algo ruim ou impróprio para um monge, isso não é importante. Seria melhor romper com tais pessoas de mente estreita. Mesmo que externamente possa parecer às outras pessoas que você esteja fazendo algo impróprio, a principal preocupação deve ser a de quebrar intimamente com seu apego egocêntrico e jogar fora qualquer desejo por fama.“

1-19

Em uma palestra vespertina Dogen disse:

         “Suponha que alguém venha conversar sobre seus negócios e peça que você escreva uma carta solicitando algo de outra pessoa, ou que peça para ajudá-lo em um processo, etc., mas você recusa este pedido e se exime, com a justificativa de que você não é um homem [do mundo secular][1], que se apartou e que não tem nada a ver com afazeres mundanos, e que não é apropriado para um recluso dizer algo que não seja adequado a uma pessoa leiga. Embora esse possa parecer o modo de um recluso agir, você deveria examinar sua mais profunda motivação. Se você rejeita o pedido porque pensa que você é um monge que deixou o mundo secular e as pessoas poderão pensar mal de você se você disser algo inadequado para um recluso, isso ainda demonstra apego do ego a fama e lucro.

         Em cada situação que você enfrenta, apenas considere cuidadosamente; faça tudo, mesmo que traga pouco benefício à pessoa que está diante de você, sem preocupação com o que as pessoas irão pensar de você. Mesmo que você se torne desfraternizado de seus amigos ou se indisponha com eles por dizerem que você fez algo ruim ou impróprio para um monge, isso não é importante. Seria melhor romper com tais pessoas de mente estreita. Mesmo que externamente possa parecer às outras pessoas que você esteja fazendo algo impróprio, a principal preocupação deve ser a de quebrar intimamente com seu apego egocêntrico e jogar fora qualquer desejo por fama. Um buda ou bodisatva corta até mesmo sua própria carne e membros quando alguém pede sua ajuda. Quão mais, então, você deveria estar disposto a ajudar alguém que pede apenas que você escreva uma carta? Se você rejeita este pedido, preocupado com sua reputação, você está demonstrando profundo apego ao seu ego. Embora outros possam pensar que você não é um homem sagrado e que você diga coisas inapropriadas, se você jogar fora sua preocupação por fama e trouxer mesmo que um pequeno benefício aos outros, você estará em harmonia com o verdadeiro Caminho. Nós encontramos vários exemplos de sábios antigos que parecem ter tido esta atitude. Também considero isso verdade. É uma coisa fácil ajudar um pouco escrevendo uma carta quando seus apoiadores ou amigos pedirem para falar algo que seja um pouco inesperado.”

         Ejo respondeu: “Isso é realmente verdadeiro. Certamente está correto dizer aos outros o que é bom e benéfico para eles. Mas, e no caso de alguém querer tomar a propriedade de outra pessoa por meios maléficos, ou tentar caluniar outra pessoa? Ainda assim devemos transmitir tais mensagens?”

         Dogen respondeu: “Não cabe a nós decidirmos o que é sensato ou não. Devemos explicar à pessoa que estamos enviando a carta que alguém nos pediu para enviar, e dizer a ela para lidar com a questão sensatamente. A pessoa que recebe a carta e tem que lidar com o problema deve decidir o que é certo ou errado. Também é errado pedir à pessoa para fazer algo inconcebível sobre assuntos que estão fora de nossa área de atuação.

         E, embora pareça errado, se você tiver um amigo que respeita você e por quem você sente que não poderia ir contra, tanto para o bem quanto para o mal, e ele pede seu apoio para, através de você, fazer algo errado e inaceitável, ouça seu pedido uma vez e em sua carta escreva que você foi requisitado inoportunamente e que a questão deveria ser tratada com sensatez. Se você trata cada situação desta forma, ninguém irá guardar rancor. Você deve levar em consideração coisas como essa de forma muito meticulosa, em cada encontro ou situação.  A preocupação principal é deixar de lado o desejo por fama ou apego ao ego qualquer que seja a situação.”


[1] A palavra que Dogen usa é hinin, que literalmente significa “não humano”. No Japão antigo, os monges eram, algumas vezes, chamados assim porque abandonavam o mundo secular. Na época de Dogen, as pessoas que deixavam os templos degenerados eram chamados hinin, yosutebito (aquele que abandona o mundo), ou tonseisha (o que escapa do mundo). Eles praticavam de vários modos e eventualmente formaram o assim chamado “Novo Budismo” do periodo Kamakura. Aqui Dogen critica alguns daqueles que eram indiferentes em relação a ajudar outros usando como desculpa o fato de serem eremitas.

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (19) – Livro 1 Parte 18

“Faça coisas boas em segredo enquanto as pessoas não estiverem vendo, e se você cometer um erro ou fizer algo ruim, confesse e se arrependa. Quando você age desta maneira, boas ações que você tenha feito em segredo terão recompensa, e ações errôneas serão reveladas e haverá arrependimento para que a punição possa se dissipar“.

1-18

Em uma palestra vespertina, Dogen disse,

A maioria das pessoas no mundo quer se vangloriar de suas boas ações e acobertar suas más ações. Uma vez que esta estrutura mental vai contra as mentes das deidades invisíveis[1], suas boas ações permanecem sem recompensa, e suas más ações realizadas em segredo resultam em punição.  Consequentemente, elas concluem que não há recompensa para boas ações, e pouco mérito no buda-darma. Esta é uma falsa visão. Por certo devemos reexaminá-la. Faça coisas boas em segredo enquanto as pessoas não estiverem vendo, e se você cometer um erro ou fizer algo ruim, confesse e se arrependa. Quando você age desta maneira, boas ações que você tenha feito em segredo terão recompensa, e ações errôneas serão reveladas e haverá arrependimento para que a punição possa se dissipar. Portanto, benefícios naturalmente virão no presente e você terá certeza sobre o resultado futuro.

Uma vez, um certo leigo veio e perguntou: “Atualmente, embora as pessoas leigas façam ofertas aos monges e tomem refúgio no buda-darma, muitos infortúnios ocorrem; por esta razão, maus pensamentos surgiram e as pessoas pensam que não deveriam mais ter fé nos Três Tesouros. O que você pensa sobre isso? ”.

 Dogen respondeu: “A culpa não é dos monges nem do buda-darma e sim das próprias pessoas leigas. A razão é a seguinte. Por exemplo, eles reverenciam e fazem oferendas aos monges que observam os preceitos e comem de acordo com os regramentos (uma refeição antes do meio-dia) quando os outros estão olhando, mas negam oferendas a monges indecorosos que quebram os preceitos, bebem álcool e comem carne, julgando-os desprezíveis. Esta mente discriminatória e parcial vai totalmente contra o espirito de Buda. Por causa disso, sua fé e reverência são em vão e não há recompensa. Em várias partes dos textos de preceitos, há advertências contra esta estrutura mental. Você deveria fazer oferendas a qualquer monge independentemente de ele ter ou não qualquer virtude. Em especial, nunca julgue a virtude interior deles com base em sua aparência externa. Embora monges nesta era degenerada pareçam de tal modo estranhos em sua aparência externa, há piores mentes e ações. Portanto, sem discriminar entre bons e maus monges, respeite todos os discípulos de Buda, faça oferendas e se abrigue em um espírito de igualdade. Então você certamente estará de acordo com o espirito de Buda, e os benefícios serão vastos.

Do mesmo modo, considere as quatro frases, “ação despercebida, resposta despercebida; ação percebida, resposta percebida; (ação despercebida, resposta percebida; ação percebida, resposta despercebida) ”. Há também o princípio do karma e seu efeito nos três períodos de tempo; o karma retornando na vida presente, na próxima vida ou em alguma vida posterior.[2] Estude estes princípios atentamente”. 


[1] Deidades invisíveis tais como Deva-Brahma, Indra, os reis-dragões, Yama, etc. Originalmente, estas deidades são emprestadas do Hinduismo e de outras religiões. Budistas vieram a considera-las deidades protetoras do buda-darma.

[2] No Shobogenzo Sanjigo (O Karma dos três períodos de Tempo), Dogen comentou sobre este princípio do karma e seus efeitos: “Ao aprender e praticar o Caminho dos budas e ancestrais, desde o princípio, deveríamos estudar e clarificar este princípio do karma e seus efeitos nos três períodos de tempo. De outro modo, cairemos em falsas visões. Não apenas isso, nós também cairemos nos reinos do mal e sofreremos por um longo tempo.”