Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (22) – Livro 1 Parte 21

“(…) mesmo que [algumas pessoas] levem adiante práticas árduas e dolorosas sem se apegar a suas vidas corpóreas, se suas mentes ainda não tiverem entrado no Caminho de Buda e se elas decidirem não agir contra sua própria vontade mesmo que tais ações sejam o Caminho de Buda, elas ainda não abandonaram suas mentes.”

1-21

Dogen instruiu:

Alunos do Caminho, vocês devem ser bem cuidadosos em vários níveis ao abrirem mão de sentimentos mundanos. Abrir mão do mundo, abrir mão de sua família e abrir mão de seu corpo e mente. Considerem bem isso. Mesmo entre aqueles que se retiram do mundo e vivem isolados nas montanhas ou florestas, há alguns que temem que suas famílias, as quais têm continuado por muitas gerações, cessarão de existir, e ficam ansiosos por seus familiares ou parentes.

Embora algumas pessoas tenham deixado seus lares e abandonado suas famílias ou propriedades, elas ainda não abandonaram seus corpos se consideram que não poderiam fazer nada fisicamente doloroso e se evitam praticar algo que possa causar enfermidade, mesmo sabendo que isso é o Caminho de Buda.

Além do mais, mesmo que elas levem adiante práticas árduas e dolorosas sem se apegar a suas vidas corpóreas, se suas mentes ainda não tiverem entrado no Caminho de Buda e se elas decidirem não agir contra sua própria vontade mesmo que tais ações sejam o Caminho de Buda, elas ainda não abandonaram suas mentes.

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (21) – Livro 1 Parte 20

“Você deveria considerar as coisas apenas pelo bem do florescimento do darma e pelo benefício dos seres vivos, todo o tempo e em qualquer situação. Fale depois de refletir cuidadosamente; aja depois de pensar com atenção; não aja precipitadamente. Pondere sobre o que é razoável em qualquer situação que você encontre. Nossa vida muda momento a momento, ela flui rapidamente dia após dia. Tudo é impermanente e muda de maneira rápida. Esta é a realidade diante de nossos olhos. Você não precisa esperar pelo ensinamento dos mestres ou sutras para enxergar isso. Em cada momento, não esteja contando que o amanhã chegará. Pense apenas neste dia e neste momento. Tendo em vista que o futuro é bastante duvidoso, e que você não pode prever o que acontecerá, você deveria decidir seguir o Caminho de Buda, apenas por hoje, enquanto você está vivo. Seguir o Caminho de Buda é abrir mão de sua vida física e agir de modo a permitir que o darma floresça e que traga benefícios aos seres vivos.”

1-20

Em uma palestra vespertina, Dogen disse:

“Hoje em dia, quase todas as pessoas, tanto leigas quanto monges, querem evidenciar aos outros quando elas fazem algo bom, e ocultar quando fazem algo ruim. Por causa disso, elas perdem a correlação entre seu eu interior e seu eu exterior. Você deve cuidadosamente buscar fazer com que a parte de dentro corresponda à parte de fora, arrepender-se das falhas e esconder sua real virtude. Não adorne sua aparência exterior. Ofereça coisas boas aos outros e aceite quando lhe oferecerem coisas ruins. ”

Alguém perguntou: “Certamente, devemos manter uma atitude de esconder nossa verdadeira virtude e não adornar nossa aparência. Ainda assim, para budas e bodisatvas, é essencial ter grande compaixão e beneficiar os seres vivos. Se monges ou leigos ignorantes encontram falhas, eles se tornarão culpados por caluniar o sacerdócio. Mesmo que eles não entendam a verdadeira virtude interior, se eles virem monges de boa aparência, os respeitarem e fizerem oferendas a eles, deve haver algum mérito que ocasione felicidade. O que devemos pensar a respeito disso? ”

Dogen respondeu: “Embora você não adorne sua aparência exterior, é irracional se tornar autoindulgente. Se você executa más ações em frente a pessoas leigas sob o pretexto de esconder sua verdadeira virtude, isso sem dúvida é uma terrível violação dos preceitos.

“Embora alguns desejem meramente obter fama como pessoas de mente bodai, e não queiram que suas faltas sejam conhecidas pelos outros, os seres celestiais, as deidades guardiãs, e os três tesouros, estão secretamente os observando. Aqui o que está sendo recriminado é uma atitude de não sentir nenhuma vergonha perante seres invisíveis, mas cobiçar a estima de pessoas mundanas. Você deveria considerar as coisas apenas pelo bem do florescimento do darma e pelo benefício dos seres vivos, todo o tempo e em qualquer situação. Fale depois de refletir cuidadosamente; aja depois de pensar com atenção; não aja precipitadamente. Pondere sobre o que é razoável em qualquer situação que você encontre. Nossa vida muda momento a momento, ela flui rapidamente dia após dia. Tudo é impermanente e muda de maneira rápida. Esta é a realidade diante de nossos olhos. Você não precisa esperar pelo ensinamento dos mestres ou sutras para enxergar isso. Em cada momento, não esteja contando que o amanhã chegará. Pense apenas neste dia e neste momento. Tendo em vista que o futuro é bastante duvidoso, e que você não pode prever o que acontecerá, você deveria decidir seguir o Caminho de Buda, apenas por hoje, enquanto você está vivo. Seguir o Caminho de Buda é abrir mão de sua vida física e agir de modo a permitir que o darma floresça e que traga benefícios aos seres vivos”.

Alguém perguntou: “De acordo com os ensinamentos de Buda, deveríamos praticar a mendicância por comida? ”

Dogen respondeu: “Sim, deveríamos”. Ainda assim temos que levar em consideração os costumes e as condições de cada país. Qualquer que seja a situação, deveríamos escolher o que é melhor para o benefício dos seres vivos a longo prazo, e para o progresso de nossa própria prática. No que se refere a mendicância, uma vez que as estradas deste país são de terra, se caminharmos por aí usando os mantos Budistas, eles ficarão enlameados. Da mesma forma, uma vez que as pessoas são pobres, talvez seja impossível mendigar da mesma forma como na Índia, ou seja, de casa em casa ao longo da estrada sem se preocupar com o fato de a pessoa ser pobre ou rica. [Se nos apegarmos a tal modo], nossa prática pode acabar regredir e seremos incapazes de funcionar com magnanimidade pelo benefício dos seres vivos. Apenas se continuarmos praticando humildemente o Caminho de Buda seguindo os costumes do país as pessoas de todas as classes irão nos apoiar fazendo ofertas por conta própria e irão praticar por si mesmas e para que o benefício dos outros seja realizado.

 O que é o melhor pelo bem do Caminho de Buda e para o benefício dos outros deve ser considerado em cada situação. Esqueça o lucro pessoal e não se preocupe com sua reputação.”

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (20) – Livro 1 Parte 19

“Em cada situação que você enfrenta, apenas considere cuidadosamente; faça tudo, mesmo que traga pouco benefício à pessoa que está diante de você, sem preocupação com o que as pessoas irão pensar de você. Mesmo que você se torne desfraternizado de seus amigos ou se indisponha com eles por dizerem que você fez algo ruim ou impróprio para um monge, isso não é importante. Seria melhor romper com tais pessoas de mente estreita. Mesmo que externamente possa parecer às outras pessoas que você esteja fazendo algo impróprio, a principal preocupação deve ser a de quebrar intimamente com seu apego egocêntrico e jogar fora qualquer desejo por fama.“

1-19

Em uma palestra vespertina Dogen disse:

         “Suponha que alguém venha conversar sobre seus negócios e peça que você escreva uma carta solicitando algo de outra pessoa, ou que peça para ajudá-lo em um processo, etc., mas você recusa este pedido e se exime, com a justificativa de que você não é um homem [do mundo secular][1], que se apartou e que não tem nada a ver com afazeres mundanos, e que não é apropriado para um recluso dizer algo que não seja adequado a uma pessoa leiga. Embora esse possa parecer o modo de um recluso agir, você deveria examinar sua mais profunda motivação. Se você rejeita o pedido porque pensa que você é um monge que deixou o mundo secular e as pessoas poderão pensar mal de você se você disser algo inadequado para um recluso, isso ainda demonstra apego do ego a fama e lucro.

         Em cada situação que você enfrenta, apenas considere cuidadosamente; faça tudo, mesmo que traga pouco benefício à pessoa que está diante de você, sem preocupação com o que as pessoas irão pensar de você. Mesmo que você se torne desfraternizado de seus amigos ou se indisponha com eles por dizerem que você fez algo ruim ou impróprio para um monge, isso não é importante. Seria melhor romper com tais pessoas de mente estreita. Mesmo que externamente possa parecer às outras pessoas que você esteja fazendo algo impróprio, a principal preocupação deve ser a de quebrar intimamente com seu apego egocêntrico e jogar fora qualquer desejo por fama. Um buda ou bodisatva corta até mesmo sua própria carne e membros quando alguém pede sua ajuda. Quão mais, então, você deveria estar disposto a ajudar alguém que pede apenas que você escreva uma carta? Se você rejeita este pedido, preocupado com sua reputação, você está demonstrando profundo apego ao seu ego. Embora outros possam pensar que você não é um homem sagrado e que você diga coisas inapropriadas, se você jogar fora sua preocupação por fama e trouxer mesmo que um pequeno benefício aos outros, você estará em harmonia com o verdadeiro Caminho. Nós encontramos vários exemplos de sábios antigos que parecem ter tido esta atitude. Também considero isso verdade. É uma coisa fácil ajudar um pouco escrevendo uma carta quando seus apoiadores ou amigos pedirem para falar algo que seja um pouco inesperado.”

         Ejo respondeu: “Isso é realmente verdadeiro. Certamente está correto dizer aos outros o que é bom e benéfico para eles. Mas, e no caso de alguém querer tomar a propriedade de outra pessoa por meios maléficos, ou tentar caluniar outra pessoa? Ainda assim devemos transmitir tais mensagens?”

         Dogen respondeu: “Não cabe a nós decidirmos o que é sensato ou não. Devemos explicar à pessoa que estamos enviando a carta que alguém nos pediu para enviar, e dizer a ela para lidar com a questão sensatamente. A pessoa que recebe a carta e tem que lidar com o problema deve decidir o que é certo ou errado. Também é errado pedir à pessoa para fazer algo inconcebível sobre assuntos que estão fora de nossa área de atuação.

         E, embora pareça errado, se você tiver um amigo que respeita você e por quem você sente que não poderia ir contra, tanto para o bem quanto para o mal, e ele pede seu apoio para, através de você, fazer algo errado e inaceitável, ouça seu pedido uma vez e em sua carta escreva que você foi requisitado inoportunamente e que a questão deveria ser tratada com sensatez. Se você trata cada situação desta forma, ninguém irá guardar rancor. Você deve levar em consideração coisas como essa de forma muito meticulosa, em cada encontro ou situação.  A preocupação principal é deixar de lado o desejo por fama ou apego ao ego qualquer que seja a situação.”


[1] A palavra que Dogen usa é hinin, que literalmente significa “não humano”. No Japão antigo, os monges eram, algumas vezes, chamados assim porque abandonavam o mundo secular. Na época de Dogen, as pessoas que deixavam os templos degenerados eram chamados hinin, yosutebito (aquele que abandona o mundo), ou tonseisha (o que escapa do mundo). Eles praticavam de vários modos e eventualmente formaram o assim chamado “Novo Budismo” do periodo Kamakura. Aqui Dogen critica alguns daqueles que eram indiferentes em relação a ajudar outros usando como desculpa o fato de serem eremitas.