O Sagrado está à nossa volta

Por Monja Coen

O Sagrado está à nossa volta. Ele não está apenas nos altares fechados, mas habita as trevas e a claridade, os mares e as montanhas, renovando energia.

Por que alimentar a raiva se podemos alimentar o amor?

Por que revidar o golpe se podemos amparar a mão e evitar a dor?

O que se passa e o que não passa?

O que fica atravessado — e o que atravessa o irado?

Hoje, a ira é até coisa boa.

Fiquei irado. Música irada. Show irado.

Será que diríamos — Buda irado?

Há nas tradições budistas algumas representações de entidades iradas.

Parecem furiosas. Amedrontadoras.

Nas entradas dos grandes templos há gigantes musculosos, que com um dos pés esmagam seres humanos, nas mãos carregam espadas e cordas.

Trata-se dos guardiões dos portais de entrada.

Para que lá não adentrem os fracos, os medrosos, os covardes, os maldosos.

Para que lá não adentrem os irados, os criminosos. Que não adentrem as discriminações, as discórdias, as mutilações, a fome, a miséria, as pestes, as doenças do corpo e as doenças do espírito.

Que no portal deixem as raivas, as fúrias, as vinganças, as matanças.

Entrem desarmados, abertos, suaves, humildes e gentis.

Porque lá dentro, no mais recôndito local sagrado, habita um ser de luz.

De luz tão pura e simples e clara que tudo inunda de beleza e alegria.

Esse local é nosso.

Direito de nascença.

Herança humana de gerações e gerações.

Todos e todas podemos chegar — porque é de lá que partimos, é de onde vimos e onde estamos e para onde vamos.

A luz infinita banha tudo e todos.

Entretanto, quando nosso ser desconhece a pureza, se sente impuro.

Sentindo-se impuro, fica inseguro.

Inseguro ataca, fere, rouba, mata, degola, destrói, guerreia, separa, discrimina, ofende, grita, recrimina, se separa.

Precisa de força, de relembrar, de reconhecer que é vida, que é luz, que está interconectado sempre ao sagrado.

E esse sagrado não está apenas no recôndito altar fechado. Mas habita o mundo — que não é imundo.

Habita as trevas e a claridade.

Habita os mares e as montanhas.

Sua voz está na chuva, nas cachoeiras, nos riachos e no rodar dos carros, das motos, das vozes, do pranto, do riso.

Sem dentro nem fora.

Explode e implode a cada instante.

Renova nossaa energia, sai fora da ira e ri juntamente com a criança que habita em cada um de nós.

Crescer dói.

Virar adolescente, adulto, idoso e morrer glorioso por ter vivido e revivido cada instante, na certeza de saber que venceu o medo, venceu a fraqueza, conquistou a si mesmo e assim completou sua obra.

Da luz, na luz para a luz infinita. Namu Amida Butsu (honra suprema ao Buda da Luz Infinita — Amithaba).

Mãos em prece.

Artigo no Jornal O Globo (30/04/2015)

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