> Shobogenzo Zuimonki (3) – Livro 1 Parte 2

Praticantes do Caminho certamente devem manter as regras de Hyakujo. A forma de manter as regras é receber e observar os preceitos e praticar zazen, etc. O significado de recitar o Sutra dos Preceitos dia e noite e observar os preceitos decididamente nada mais é do que praticar shikantaza, seguindo as atividades dos antigos mestres. Quando sentamos zazen, qual preceito não é observado, qual mérito não é efetivado? Os modos de prática, levados adiante pelos antigos mestres, têm um significado profundo. Sem se prender a preferencias pessoais, deveríamos agir em conformidade com a assembleia e praticar de acordo com estes modos”.

Palavras chave: PRECEITOS; VERDADEIRA PRÁTICA; PRÁTICA PRINCIPAL; REGRAS MONÁSTICAS; SHIKANTAZA; ZAZEN

LIVRO 1

1-2

Dogen disse também,

[Você] deveria manter os preceitos e as regras alimentares[1] (uma refeição por dia antes do meio dia, etc.). Ainda assim, é errado insistir sobre eles como sendo essenciais, estabelecê-los como uma prática e esperar ser capaz de obter o Caminho por observá-los.  Nós os seguimos apenas porque são as atividades dos monges Zen[2] e o estilo de vida das crianças de Buda. Embora mantê-los seja algo bom, não deveríamos tomá-los como a prática principal.          

Entretanto, com isso não quero dizer que você deveria quebrar os preceitos e tornar-se autoindulgente. Apegar-se a tal atitude é uma perspectiva maléfica e não aquela de um praticante budista. Seguimos os preceitos e regras simplesmente porque formam o padrão para um budista e são a tradição dos monastérios Zen. Durante minha estadia em monastérios chineses, não conheci ninguém que os tomasse como a preocupação principal.

Para a verdadeira obtenção do Caminho, devotar todo o esforço apenas ao zazen tem sido transmitido entre os budas e ancestrais[3]. Por essa razão, eu ensinei um colega estudante, Gogenbo, discípulo do Mestre Zen Eisai[4], a abandonar sua fidelidade estrita à manutenção dos preceitos e à recitação do Sutra de Preceitos[5] dia e noite.

Ejo perguntou: “Quando praticamos e aprendemos o Caminho em um monastério Zen deveríamos manter as regras puras elaboradas pelo Mestre Zen Hyakujo (Baizhang)[6], ou não? No início das Regras (Hyakujo-Shingi), diz-se que receber e manter os preceitos é pré-requisito. Nesta tradição, o Preceito Fundamental também tem sido passado adiante. Na transmissão oral e face a face desta linhagem, os alunos recebem os preceitos transmitidos do Oeste (Índia). Esses são os Preceitos do Bodisatva. Também, está dito no Sutra dos Preceitos, que as pessoas devem recitar o Sutra dia e noite. Por que você tem que interromper esta prática?

Dogen respondeu: “Você está certo. Praticantes do Caminho certamente devem manter as regras de Hyakujo. A forma de manter as regras é receber e observar os preceitos e praticar zazen, etc. O significado de recitar o Sutra dos Preceitos dia e noite e observar os preceitos decididamente[7] nada mais é do que praticar shikantaza, seguindo as atividades dos antigos mestres. Quando sentamos zazen, qual preceito não é observado, qual mérito não é efetivado? Os modos de prática, levados adiante pelos antigos mestres, têm um significado profundo. Sem se prender a preferencias pessoais, deveríamos agir em conformidade com a assembleia e praticar de acordo com estes modos.

NOTAS


[1]Durante o período Kamakura no qual Dogen viveu, havia alguns que negligenciavam os preceitos e regras e outros que enfatizavam sua observação. Como representantes do primeiro grupo temos os Budistas Terra Pura, especialmente Shinran; exemplo do último grupo foi Eisai. Parece que Dogen buscou o caminho do meio, que é manter os preceitos sem se apegar a eles, sem expectativa de alguma recompensa advindos de sua observação. Dogen enfatizava apenas mantê-los e praticar sem as contaminações dos sentimentos humanos.

[2]Noso, em japonês, literalmente significa um monge que usa um manto de retalhos remendados. O manto de retalhos se refere ao kesa (kesaya em sânscrito) feito de trapos descartados. Os monges cortavam em pedaços esses trapos descartados e os costuravam em uma peça única. Uma vez que os monges Zen usavam mantos remendados, eles foram chamados de “monges do manto remendado”. Dogen também usava a palavra “nossu” com o mesmo sentido.  

[3]Em Shobogenzo Shohojisso Dogen escreveu: “A manifestação dos Budas e dos ancestrais é a manifestação da realidade máxima. Então, ser budas ou ancestrais é ser apenas como-é. A fim de sermos tal-como-é, temos que aprender e praticar a tradição dos Budas e ancestrais”.

[4]Aqui Dogen chamou-o Yojo Sojo, outro nome para o Mestre Zen Eisai (1141-1215). Sojo é o título do primeiro escalão na hierarquia Budista. Originalmente, Eisai era um monge Tendai. Quando visitou a China pela segunda vez e lá permaneceu por cinco anos, ele estudou o Zen Rinzai e o introduziu no Japão. Ele fundou Kenninji, local em que Dogen mais tarde praticou o Zen sob a supervisão de Myozen, um dos discípulos de Eisai. Dogen respeitava muito Eisai e no Zuimonki elogiou seus feitos. Há controvérsias entre pesquisadores sobre ele ter ou não efetivamente se encontrado com Eisai.

[5]Referência ao Bonmokyo (Brahmajala sutra), traduzido por Kumarajiva. Este sutra apresenta os preceitos mahayana para bodisatvas, chamados de “Preceitos do Bodisatva” ou “Preceitos Fundamentais”, que consistem em dez preceitos maiores e quarenta e oito menores. Estudiosos da atualidade  acreditam que este sutra tenha sido escrito na China.

[6] Shingi, em japonês (Ch. Qinggui): regras que os estudantes deviam observar ao praticarem em monastérios Zen. O primeiro shingi foi compilado por Hyakujo Ekai (Baizhang Huihai). Por isso Hyakujo (720-814) é tido como o fundador dos monastérios Zen. O Hyakujo-shingi já não existe. No Zennen-shingi (Chanyuan-qinggui), entretanto, o primeiro capitulo trata do recebimento dos preceitos e o segundo capitulo trata sobre mantê-los. No primeiro capitulo temos o seguinte: “Ao aprender o Zen e buscar o Caminho, os preceitos são de importância primordial. Se você não se afastar dos maus feitos e se proteger do que é errado, como é possível ser um buda ou um ancestral?”.

[7]No capítulo sobre o trigésimo quarto preceito menor de Bonmokyo, está escrito que os preceitos devem ser mantidos e recitados dia e noite.