> Shobogenzo Zuimonki (2) – Livro 1 Parte 1

“Uma vez que ser uma criança Buda é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente, devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza, que é a essência da vida neste sorin (monastério) hoje. Repense sobre isso profundamente”

Palavras chave: RELÍQUIAS DE BUDA; ADORAÇÃO A IMAGENS; VERDADEIRA PRÁTICA; ESSÊNCIA DOS ENSINAMENTOS DE BUDA; SHIKANTAZA; ZAZEN

LIVRO 1

1-1

Um dia Dogen disse,

No Zoku-kosoden (Biografias Continuadas de Monges Eminentes)[1], há uma estória sobre um monge na assembleia de um certo mestre Zen. O monge adorava uma imagem de ouro de Buda, bem como as relíquias de Buda[2]. Mesmo no dormitório[3], ele continuamente queimava incenso e se prostrava perante elas, honrando e fazendo oferendas.

Um dia, o mestre disse ao monge: “A imagem e as relíquias de Buda, que você adora, acabarão sendo prejudiciais a você”.

O monge não estava convencido.

O mestre continuou: “Isso é obra do demônio Papiyas[4]. Jogue-as fora imediatamente”.

Quando o monge estava saindo raivoso, o mestre gritou por detrás dele: “Abra a caixa e olhe dentro dela!”

 Embora enfurecido, o monge abriu a caixa; deitada dentro dela ele encontrou uma cobra venenosa enrolada.

Considerando essa estória, as imagens e relíquias de Buda deveriam ser reverenciadas, uma vez que são a forma e os ossos deixados pelo Tatagata[5]; entretanto, é uma falsa visão[6]pensar que você será capaz de alcançar iluminação meramente através de sua adoração a elas. Tal visão fará com que você seja possuído pelo demônio e pela cobra venenosa.

 Tendo em vista que o mérito dos ensinamentos de Buda não muda, a reverência a imagens e relíquias por certo trará bênçãos aos seres humanos e celestiais[7] tanto quanto prestar reverencias ao Buda vivo. De modo geral, é verdade que se você reverenciar e fizer ofertas ao mundo dos Três Tesouros[8], suas falhas desaparecerão e você ganhará mérito; o karma que leva você aos reinos maléficos[9] será removido e você renascerá nos reinos dos seres humanos e celestiais. Entretanto, é uma visão equivocada esperar obter iluminação do darma desta maneira.

Uma vez que ser uma criança Buda[10] é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente[11], devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza[12], que é a essência da vida neste sorin (monastério)[13] hoje. Repense sobre isso profundamente.

NOTAS

[1] O Zoku-kosoden (Xu-gaosengzhuan) foi compilado por Nanzan Dosen (Nanshan Daoxuan, 596-667), fundador da Escola Nanzan-ritsu. Esta coleção de trinta volumes inclui as biografias dos monges da dinastia Liang (502-557) até o inicio da dinastia Tang (618-907). 

[2] Skt., sarira. Depois que Xaquiamuni morreu, suas relíquias foram divididas em oito porções e preservadas nas stupas erigidas por seus alunos leigos nos vários distritos na Índia. Desde então, as relíquias de Buda têm sido objeto de adoração por pessoas leigas.

[3]Shuryo, em japonês, é uma sala de estudo, para se tomar chá ou para descanso nos monastérios Zen. Kannon Bodisatva está preservada no shuryo.

[4] Temma-hajin, em japonês. Temma significa um demônio celestial, rei do céu Paranirmitavasavartin (takejizai-ten) e é assim chamado porque causa entraves para aqueles que seguem o Caminho Budista. Hajun (Papiyas, em sânscrito) é o nome do demônio.

[5]Nyorai, em japonês, um dos epítetos do Buda. Literalmente, Nyorai significa “que assim veio” ou “que assim foi”, popularmente interpretado como “aquele que veio (foi) do assim como é”.  

[6] Uma visão incorreta que vai contra o darma ou que impede as pessoas de verem a realidade tal como ela é, ou a qual negligencia o princípio de causa e efeito.

[7] Seres humanos e seres celestiais ainda estão no reino do samsara. O termo original japonês para “uma benção” é fukubun, que significa as causas que ocasionam a felicidade nos mundos humano e celestial. Em contraposição a fukubun está dobun, a causa para o Caminho que transcende o samsara, ou seja, o mundo humano e celestial.

[8] Os Três Tesouros no Budismo são: 1) o buda, aquele que está desperto para a realidade e a ensina, 2) o darma, a realidade e o ensinamento que aponta para a realidade e 3) a sanga, a comunidade de pessoas que seguem o ensinamento. O mundo dos Três Tesouros é bastante diferente do reino do samsara baseado em delusões ou em desejos.

[9]O samsara é categorizado em seis reinos: inferno, o reino dos espíritos insaciáveis, animais, demônios asura, humanos e seres celestiais. Os três primeiros são chamados de reinos maléficos enquanto os outros três são chamados de bons reinos. Algumas vezes, os primeiros quatro são chamados de reinos maléficos e os últimos dois são chamados de bons reinos.   

[10] Seres humanos tornam-se crianças de Buda ao receber os preceitos de Buda por meio da ordenação.

[11] No Shobogenzo Sanjushichihon-bodaibunpo Dogen disse: “O grande professor Xaquiamuni abandonou a sucessão a seu pai na posição de rei não porque ela fosse indigna, mas porque ele iria suceder na posição de buda, a qual era imcomparavelmente preciosa. A posição de Buda é a posição de um monge sem teto. Esta é a posição reverenciada por todos os seres humanos e celestiais. Esta é a posição de suprema consciência (annutara-samyak-sambodhi).

[12]Literalmente, significa “apenas sentar”. No Bendowa Dogen, citando seu professor, escreveu: “De acordo com a inequívoca tradição herdada, esse buda-darma, que tem sido singular e diretamente transmitido, é supremo acima de qualquer comparação. A partir do momento em que você começa a praticar com um professor, queimar incenso, curvar-se, nenbutsu, tanto quanto as práticas de recitação ou leitura dos sutras, são desnecessárias. Simplesmente pratique o zazen (shikantaza), deixando cair corpo e mente”. Shikantaza é zazen quando praticado sem esperar nenhuma recompensa, mesmo iluminação. É apenas ser você mesmo, bem aqui, neste exato momento.

[13]Literalmente, sorin significa uma floresta na qual vários tipos de árvores estão vivendo juntas. Em um monastério, todos os praticantes com suas diferentes personalidades, capacidades e experiências de vida vivem juntos com mente bodai unificada; portanto monastérios Zen são chamados de sorin.