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> Shobogenzo Zuimonki (28) – Livro 2 Parte 6

Quando pessoas que se reúnem para estudar são capazes de ver apenas a forma [das coisas] e se apegam a seus egos, certamente nem uma dentre elas irá despertar a mente bodai. Mesmo se mil ou dez mil pessoas apegadas ao lucro e à autoindulgência, apenas com desejo de posse, se reunissem, isso seria pior que não houvesse ninguém reunido.”

LIVRO 2

2-6

Em uma palestra vespertina, Dogen disse:

            O falecido Sojo Eisai frequentemente advertia: “Monges, não pensem que eu lhes dou as roupas, os alimentos e outras provisões que vocês usam. Elas são todas oferecidas pelos vários seres celestiais. Atuo apenas como o distribuidor. Do mesmo modo, cada um de vocês está plenamente dotado do suprimento vitalício de suas necessidades. Não saia por aí correndo atrás delas. Não pensem que eu alimento vocês ou que vocês têm que ser gratos a mim.”

Creio que essas são as mais admiráveis palavras.

            Igualmente, na grande China Song, quando a assembleia era dirigida pelo Mestre Zen Wanshi (Hongzhi)[1], o Monastério Tendo tinha mantimentos suficientes para mil pessoas. Portanto, setecentas pessoas dentro do sodo[2] e trezentas pessoas fora do sodo podiam ser alimentadas. Entretanto, graças à excelência do mestre, muitos monges reuniam-se como nuvens, vindos de todo o país. Havia mil pessoas dentro do sodo e quinhentas ou seiscentas pessoas fora.

            Um dos administradores comentou com Wanshi: “Os mantimentos do templo são suficientes para apenas mil pessoas. Não temos comida suficiente para todos que estão aqui. Por favor, leve isso em consideração e mande embora os monges excedentes.”

            Wanshi respondeu: “Cada um deles tem sua própria boca. Não é da sua conta. Não se preocupe com isso.”

            Acredito que a todos tenha sido concedida uma certa quantidade de comida e vestimenta desde o nascimento. Não é a partir de nossa preocupação com tais coisas que as recebemos, nem deixaremos de recebe-las caso não nos preocupemos. Até mesmo os leigos confiam ao destino que se encarregue de tais assuntos; estando mais preocupados com lealdade e piedade filial. Quanto aos monges que saem de casa, quão mais despreocupados devem estar com trivialidades [além da prática]. Temos a fortuna dada a nós por Xaquiamuni; temos também a comida e roupas oferecidas pelas deidades. Sobretudo, temos a cota natural da vida que nos foi concedida quando nascemos. Sem ir atrás e nem se preocupar com isso, temos a certeza de receber tanto quanto precisamos. Mesmo que corramos atrás e conquistemos uma grande fortuna, o que acontecerá com ela quando a impermanência subitamente aparecer?  Portanto, estudantes não devem se preocupar com questões extras. Basta que pratiquem o Caminho incondicionalmente.

            Além disso, alguém disse: “Estamos vivendo no último período (do darma)[3] e o nosso país fica distante da terra de Buda. O darma de buda só poderá florescer aqui e seus benefícios se espalharem amplamente se vivermos de maneira descontraída em um monastério silencioso, sem nos preocuparmos se receberemos comida e roupas dos apoiadores leigos, e praticarmos o caminho de Buda apenas depois de termos sido suficientemente providos.” Agora, quando penso nisso, não acho que seja assim.

            Quando pessoas que se reúnem para estudar são capazes de ver apenas a forma [das coisas] e se apegam a seus egos, certamente nem uma dentre elas irá despertar a mente bodai. Mesmo se mil ou dez mil pessoas apegadas ao lucro e à autoindulgência, apenas com desejo de posse, se reunissem, isso seria pior que não houvesse ninguém reunido. Porque, neste caso, apenas o carma que causa a queda nos reinos maléficos do samsara (inferno, o reino dos espíritos insaciáveis e animais) seria naturalmente acumulado e não haveria nenhuma aspiração [de praticar] o darma de Buda. Se nos mantivermos puros e pobres e praticarmos o Caminho enquanto enfrentamos dificuldades mendigando por alimento, comendo sementes ou frutas silvestres, e suportando a fome, mesmo que apenas uma única pessoa ouça sobre nós e venha praticar, esta será uma pessoa com a verdadeira mente bodai. Acredito que é desta forma que o darma de buda pode verdadeiramente florescer. Não ter [discípulos] por causa da dificuldade e pura pobreza ou ter muitas pessoas reunidas por causa do alimento e roupas abundantes enquanto falta o darma de buda acaba sendo a mesma coisa. 

Dogen também disse:

            Hoje em dia, a maioria das pessoas erroneamente pensa que construir imagens de buda e estupas auxilia para que o darma de buda floresça. Embora possamos erguer templos enormes adornados com joias polidas e ouro, não podemos obter o Caminho por estas atividades. Isso é nada mais do que mérito para os leigos que usam sua riqueza para entrar no mundo do Buda e permitir que as pessoas façam o bem. Embora eles possam obter um grande resultado de uma causa pequena, para os monges estar envolvidos em tais coisas não tem nada a ver com o florescimento do darma de buda. Aprender, mesmo que uma simples frase do portal do darma (ensinamento), ou praticar zazen, mesmo que por um curto período em que se vive em uma cabana de palha ou debaixo de uma árvore mostra o verdadeiro florescimento do darma de buda.

            No momento, estou solicitando doações e trabalhando tanto quanto possível para construir um sodo[4]. Ainda assim, não creio que isso necessariamente contribua para o florescimento do darma de buda. Apenas porque há algumas pessoas estudando o Caminho bem agora, e porque estou passando meus dias despreocupadamente, prefiro me engajar nestas atividades que permanecer ocioso. Espero que isso permita que pessoas deludidas se conectem com o darma de buda. Ademais, estou trabalhando neste projeto pelo bem de fundar um dojo para a prática de zazen por pessoas que estudam o Caminho nesta era. Não terei arrependimentos mesmo se aquilo que desejei e iniciei não se realize. Não me importo mesmo se apenas um simples pilar for erguido, contanto que as pessoas em gerações futuras considerem que alguém tinha a aspiração de executar tal projeto.


[1] Wanshi Shogaku (Hongzhi Zhengjue, 1097–1157) foi contemporâneo de Daie Soko (Dahui Zonggao, 1089–1163), que defendeu a prática de koan da Escola Rinzai e criticou a Soto Zen, chamando-a de mokusho-jazen (um zen do mal da iluminação silenciosa). Mais tarde, Wanshi escreveu o Mokushomei, no qual usou a expressão positivamente e esclareceu a essência do mokusho-zen (zen de iluminação silenciosa). Dogen chamou isso de shikantaza. Ele respeitava Wanshi profundamente e o elogiava em seus escritos, chamando-o de Wanshi-kobutsu (Wanshi, o Velho Buda).

[2] Nos mosteiros Zen há pessoas que ficam dentro do sodo e se concentram na prática, enquanto outros cuidam das várias coisas necessárias para apoiar a prática. Eles se revezam a cada período de prática; um período vivendo dentro, no próximo período como apoio.

[3] Veja 1-16, nota de rodapé 3.

[4] Na época, Dogen estava trabalhando na arrecadação de fundos para construir um sodo ou Juundo (segundo sodo).

> Shobogenzo Zuimonki (29) – Livro 2 Parte 7

Se alguém aspira praticar o darma de Buda, virá e o estudará mesmo se tiver que cruzar montanhas, rios e oceanos. Se lhe faltar tal convicção, não há certeza de que irá aceitá-lo, mesmo que eu vá até lá e exorte-lhes (a praticar).

LIVRO 2

2-7

         Certa vez, alguém encorajou Dogen a ir até Kanto[1] para ajudar no florescimento do  Darma de Buda.

         Dogen se recusou. “Se alguém aspira praticar o darma de Buda, virá e o estudará mesmo se tiver que cruzar montanhas, rios e oceanos. Se lhe faltar tal convicção, não há certeza de que irá aceitá-lo, mesmo que eu vá até lá e exorte-lhes (a praticar). Devo enganar as pessoas meramente visando apoio material? Isso não seria apenas ganância por riqueza? Considerando que eu obteria tão somente cansaço, não sinto necessidade alguma de ir.”


[1] Kanto se refere à parte oriental do Japão, neste caso Kamakura, onde o Shogunato (governo) estava localizado. Naquela época, os samurais que assumiram o poder político na corte em Kyoto aceitavam o Zen Budismo. Muitos Mestres do Zen Chinês vieram da China; por exemplo, Rankei Doryu, Mugaku Sogen, etc, e um número de templos Zen foram fundados lá. A pessoa estava sugerindo que Dogen fosse lá para obter apoio do governo Shoguntato. Mais tarde, entretanto, depois que Dogen se mudou para Eijeiji, ele visitou Kamakura e ficou lá por um semestre.

> Shobogenzo Zuimonki (2) – Livro 1 Parte 1

“Uma vez que ser uma criança Buda é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente, devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza, que é a essência da vida neste sorin (monastério) hoje. Repense sobre isso profundamente”

Palavras chave: RELÍQUIAS DE BUDA; ADORAÇÃO A IMAGENS; VERDADEIRA PRÁTICA; ESSÊNCIA DOS ENSINAMENTOS DE BUDA; SHIKANTAZA; ZAZEN

LIVRO 1

1-1

Um dia Dogen disse,

No Zoku-kosoden (Biografias Continuadas de Monges Eminentes)[1], há uma estória sobre um monge na assembleia de um certo mestre Zen. O monge adorava uma imagem de ouro de Buda, bem como as relíquias de Buda[2]. Mesmo no dormitório[3], ele continuamente queimava incenso e se prostrava perante elas, honrando e fazendo oferendas.

Um dia, o mestre disse ao monge: “A imagem e as relíquias de Buda, que você adora, acabarão sendo prejudiciais a você”.

O monge não estava convencido.

O mestre continuou: “Isso é obra do demônio Papiyas[4]. Jogue-as fora imediatamente”.

Quando o monge estava saindo raivoso, o mestre gritou por detrás dele: “Abra a caixa e olhe dentro dela!”

 Embora enfurecido, o monge abriu a caixa; deitada dentro dela ele encontrou uma cobra venenosa enrolada.

Considerando essa estória, as imagens e relíquias de Buda deveriam ser reverenciadas, uma vez que são a forma e os ossos deixados pelo Tatagata[5]; entretanto, é uma falsa visão[6]pensar que você será capaz de alcançar iluminação meramente através de sua adoração a elas. Tal visão fará com que você seja possuído pelo demônio e pela cobra venenosa.

 Tendo em vista que o mérito dos ensinamentos de Buda não muda, a reverência a imagens e relíquias por certo trará bênçãos aos seres humanos e celestiais[7] tanto quanto prestar reverencias ao Buda vivo. De modo geral, é verdade que se você reverenciar e fizer ofertas ao mundo dos Três Tesouros[8], suas falhas desaparecerão e você ganhará mérito; o karma que leva você aos reinos maléficos[9] será removido e você renascerá nos reinos dos seres humanos e celestiais. Entretanto, é uma visão equivocada esperar obter iluminação do darma desta maneira.

Uma vez que ser uma criança Buda[10] é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente[11], devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza[12], que é a essência da vida neste sorin (monastério)[13] hoje. Repense sobre isso profundamente.

NOTAS

[1] O Zoku-kosoden (Xu-gaosengzhuan) foi compilado por Nanzan Dosen (Nanshan Daoxuan, 596-667), fundador da Escola Nanzan-ritsu. Esta coleção de trinta volumes inclui as biografias dos monges da dinastia Liang (502-557) até o inicio da dinastia Tang (618-907). 

[2] Skt., sarira. Depois que Xaquiamuni morreu, suas relíquias foram divididas em oito porções e preservadas nas stupas erigidas por seus alunos leigos nos vários distritos na Índia. Desde então, as relíquias de Buda têm sido objeto de adoração por pessoas leigas.

[3]Shuryo, em japonês, é uma sala de estudo, para se tomar chá ou para descanso nos monastérios Zen. Kannon Bodisatva está preservada no shuryo.

[4] Temma-hajin, em japonês. Temma significa um demônio celestial, rei do céu Paranirmitavasavartin (takejizai-ten) e é assim chamado porque causa entraves para aqueles que seguem o Caminho Budista. Hajun (Papiyas, em sânscrito) é o nome do demônio.

[5]Nyorai, em japonês, um dos epítetos do Buda. Literalmente, Nyorai significa “que assim veio” ou “que assim foi”, popularmente interpretado como “aquele que veio (foi) do assim como é”.  

[6] Uma visão incorreta que vai contra o darma ou que impede as pessoas de verem a realidade tal como ela é, ou a qual negligencia o princípio de causa e efeito.

[7] Seres humanos e seres celestiais ainda estão no reino do samsara. O termo original japonês para “uma benção” é fukubun, que significa as causas que ocasionam a felicidade nos mundos humano e celestial. Em contraposição a fukubun está dobun, a causa para o Caminho que transcende o samsara, ou seja, o mundo humano e celestial.

[8] Os Três Tesouros no Budismo são: 1) o buda, aquele que está desperto para a realidade e a ensina, 2) o darma, a realidade e o ensinamento que aponta para a realidade e 3) a sanga, a comunidade de pessoas que seguem o ensinamento. O mundo dos Três Tesouros é bastante diferente do reino do samsara baseado em delusões ou em desejos.

[9]O samsara é categorizado em seis reinos: inferno, o reino dos espíritos insaciáveis, animais, demônios asura, humanos e seres celestiais. Os três primeiros são chamados de reinos maléficos enquanto os outros três são chamados de bons reinos. Algumas vezes, os primeiros quatro são chamados de reinos maléficos e os últimos dois são chamados de bons reinos.   

[10] Seres humanos tornam-se crianças de Buda ao receber os preceitos de Buda por meio da ordenação.

[11] No Shobogenzo Sanjushichihon-bodaibunpo Dogen disse: “O grande professor Xaquiamuni abandonou a sucessão a seu pai na posição de rei não porque ela fosse indigna, mas porque ele iria suceder na posição de buda, a qual era imcomparavelmente preciosa. A posição de Buda é a posição de um monge sem teto. Esta é a posição reverenciada por todos os seres humanos e celestiais. Esta é a posição de suprema consciência (annutara-samyak-sambodhi).

[12]Literalmente, significa “apenas sentar”. No Bendowa Dogen, citando seu professor, escreveu: “De acordo com a inequívoca tradição herdada, esse buda-darma, que tem sido singular e diretamente transmitido, é supremo acima de qualquer comparação. A partir do momento em que você começa a praticar com um professor, queimar incenso, curvar-se, nenbutsu, tanto quanto as práticas de recitação ou leitura dos sutras, são desnecessárias. Simplesmente pratique o zazen (shikantaza), deixando cair corpo e mente”. Shikantaza é zazen quando praticado sem esperar nenhuma recompensa, mesmo iluminação. É apenas ser você mesmo, bem aqui, neste exato momento.

[13]Literalmente, sorin significa uma floresta na qual vários tipos de árvores estão vivendo juntas. Em um monastério, todos os praticantes com suas diferentes personalidades, capacidades e experiências de vida vivem juntos com mente bodai unificada; portanto monastérios Zen são chamados de sorin.