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> Zazen por…Yasutani Roshi

(via Philip Kapleau)

“(…) podemos agora considerar com mais detalhes as razões pelas quais os mestres sempre enfatizaram as costas eretas e a clássica postura de lótus. Sabe-se bem que as costas curvadas privam a mente de sua tensão e ela logo é invadida por pensamentos e imagens aleatórias; e que as costas retas fortalecem a concentração, diminuindo a incidência de pensamentos errantes e, portanto, acelerando o samadhi.

Inversamente, quando a mente fica livre de idéias, as costas tendem a endireitar-se sem esforço consciente. Por causa da coluna encurvada e da consequente multiplicação de pensamentos, a respiração harmoniosa muitas vezes é substituída por uma respiração rápida e entrecortada, dependendo da natureza dos pensamentos. Isso logo se reflete em tensões nervosas e musculares. Nessas palestras Yasutani Roshi também salienta como as costas encurvadas afetam o vigor e clareza da mente, levando ao entorpecimento e ao tédio.

Esta coluna ereta e a paralela ordenação da mente são mais fáceis de manter por um longo período se as pernas estão no postura de lótus completa ou meia lótus e a atenção concentrada na região logo abaixo do umbigo.

Além disso, uma vez que o corpo é o aspecto material da mente e a mente o aspecto imaterial do corpo, reunir as mãos e braços e os pés e pernas em uma unidade em um ponto central onde as mãos unidas repousam nos calcanhares, com as pernas entrelaçadas, como na postura de lótus completa, facilita a unificação da mente.

Finalmente, embora de forma imperceptível, a postura do lótus cria uma sensação de enraizamento na terra junto com um sentimento de unidade que tudo abrange, eliminando a sensação de interior ou exterior. Isso é verdade, no entanto, apenas quando esta posição pode ser assumida e mantida sem desconforto.

Por todas essas razões, o Zen, como a personificação dos ensinamentos e da prática fundamentais de Buda, ao longo de sua longa história tem seguido o método de sentar-se de Buda como a maneira mais direta e prática de conseguir o vazio da mente e finalmente, a iluminação.

Isso não significa, no entanto, que o zazen não possa ser praticado ou o satori atingido a menos que a pessoa se sente na postura de lótus total ou meio-lótus. Zazen pode, de fato, ser eficaz mesmo em uma cadeira ou banco ou ajoelhado, desde que as costas estejam retas.

Um último recurso que garante o sucesso na busca pela iluminação não é uma postura particular, mas um intenso anseio pela verdade por ela mesma, o que por si só leva uma pessoa a se sentar corretamente em qualquer posiçao e a executar todas as suas tarefas da vida cotidiana com devoção e plena consciência. Mas o zazen sempre foi considerado como fundamental para a disciplina Zen simplesmente porque séculos de experiência demonstram que é a maneira mais fácil de acalmar a mente e levá-la a um ponto preciso para ser usada como um instrumento de descoberta do Eu.

Na longa história do Zen, milhares e milhares alcançaram a iluminação através do zazen, enquanto são raras as experiências genuínas de iluminação sem ele. Se até mesmo o Buda e Bodhidharma, como Dogen nos lembra, precisaram sentar-se, nenhum aspirante poderá certamente prescindir do zazen.

O kensho (ou satori) é apenas a primeira intuiçao da Verdade, e quer seja esta apenas um vislumbre ou uma visão nítida e profunda, poderá ser sempre ampliada por meio do zazen. Além disso, é bom lembrar que, a menos que seja reforçada pelo joriki (o poder particular desenvolvido por meio do zazen), a visão da Unidade alcançado na iluminação, especialmente se tiver sido fraca no inicio, com o tempo se tornará obscurecida finalmente se transformará em uma memória agradável ao invés de conservar-se como realidade sempre presente,  modelando nossa vida diária.

O que não devemos perder de vista, no entanto, é que zazen é mais do que apenas um meio para a iluminação ou uma técnica para sustenta-la e amplia-la, mas é a atualização de nossa verdadeira natureza. Portanto, tem um valor absoluto. Yasutani Roshi enfatiza este ponto em suas palestras, bem como em suas entrevistas com dez ocidentais.

Não poderá haver dúvida de que, para a maioria dos ocidentais, que parecem ser por natureza mais ativos e inquietos do que os asiáticos, sentar-se perfeitamente imóvel no zazen, mesmo em uma cadeira, é física e mentalmente penoso. A sua relutancia em suportar tanta dor e desconforto mesmo por curtos períodos do tempo, sem dúvida, decorre de uma convicção profunda de que não é apenas sem sentido, mas tambem masoquista aceitar a dor deliberadamente quando existem maneiras de evitá-la ou mitigá-la. Sem surpresa, portanto, temos a tentativa por parte de alguns comentaristas, obviamente sem prática no Zen, para mostrar que sentar não é indispensável para a disciplina zen.

(…) Sem o zazen, seja o da modalidade imóvel seja o da modalidade em movimento, não podemos falar de treinamento do discípulo ou da prática Zen. O koan Nangaku e todos os outros apontam para a mente-Buda com que somos dotados, mas não ensinam como perceber a realidade desta mente. A compreensão desta verdade mais sublime exige dedicação e apoio exterior, o que significa a prática pura e fiel de zazen.

A tentativa de abandonar o zazen como não essencial e sem tanta importancia é, no fundo, nada mais do que uma racionalização de uma relutancia em se esforçar em prol da verdade, com a implicação óbvia de que, de fato, não existe um desejo real pela verdade. Em seu Shobogenzo, Dogen questiona aqueles que se identificam com os mais elevados ideais de Buda ainda assim, evitam o esforço necessário para colocá-los em prática:

“O sublime Caminho do Buda e dos Ancestrais envolve as mais intensas formas de esforço, que continuam incessantemente em ciclos desde o primeiro alvorecer da verdade religiosa, através do teste da disciplina e da prática, até a iluminação e ao Nirvana. O esforço é mantido, prosseguindo sem interrupção de ciclo em ciclo. Este esforço contínuo não é algo que os homens da mundo naturalmente amam ou desejam, mas é o último de todos os refúgios. Apenas através do esforço de todos os Budas no passado, presente e futuro é que os Budas do passado, presente e futuro se tornam um realidade. . . . Por este esforço, o estado Buda se realiza, e aqueles quem não fazem esforço quando o esforço é possível são aqueles que odeiam Buda, odeiam servir a Buda e odeiam o esforço; eles não querem viver e morrer com Buda, eles não o querem como mestre e companheiro”.(…)

SOBRE O LIVRO “OS TRÊS PILARES DO ZEN”, de Philip Kapleau (retirado de http://www.nossacasa.net/shunya/os-tres-pilares-do-zen/)

Obra capital de Roshi Philip Kapleau, fundador e diretor espiritual de Zen Center de Rochester, EEUU, que viveu treze anos em mosteiros, sob a orientação dos maiores mestres do zen japonês.

OS TRES PILARES DO ZEN é um texto fundamental e indispensável a quantos aspiram sua liberação e realização através do zen — esta nova arte de viver — via fascinante que conduz à paz, fonte de saúde e silêncio interior, em meio ao conturbado mundo de hoje.


PREFACIO DO ORGANIZADOR

Apresentado em poucas palavras, o Zen é uma religião com um método simples de treinamento corpo-mente, cuja finalidade é o satori, isto é, a auto-realização. Do princípio ao fim deste volume tentei transmitir o caráter essencialmente religioso e o espírito do Zen-sim, seus rituais e símbolos, seus atrativos para o coração e não menos para a mente — pois, como caminho budista de liberação, o Zen é muito seguramente uma religião. Fundamentada nos mais altos ensinamentos de Buda, foi trazida da Índia para a China, onde os métodos e técnicas que são característicos do Zen se desenvolveram, através dos séculos, foram sendo aperfeiçoados no Japão. O Zen-budismo é portanto a consumação das experiências espirituais de três grandes civilizações asiáticas. Hoje no Japão esta tradição ainda permanece muito viva; nos templos Zen, nos mosteiros e nos lares, homens e mulheres de todas as categorias sociais encontram-se ativamente engajadas no zazen, a principal disciplina do Zen.

Em seu nível mais profundo, como acontece em todas as demais grandes religiões, transcende seus ensinamentos e práticas, embora, ao mesmo tempo, não exista Zen independentemente destas mesmas práticas. A tentativa no Ocidente de isolar o Zen no vácuo do intelecto, cortado de sua genuína disciplina que é sua “raison d’être”, gerou um pseudo-Zen que é pouco mais do que uma cócega mental para divertir os intelectuais e uma brincadeira dos beatniks.

A melhor forma de corrigir esta distorção, parece-me, seria compilar um livro apresentando a autêntica doutrina e práticas do Zen, colhidas dos próprios lábios dos mestres pois quem conhece os métodos melhor do que eles? — assim como mostrá-los vivenciados pelas mentes e corpos de homens e mulheres de hoje. Assim fiz, principalmente através do mestre contemporâneo Soto, Yasutani-roshi; de um mestre Rinzai do século XIV, Bassui-zenji; e dos casos de iluminação de japoneses e americanos seguidores do Zen. As conferências introdutórias de Yasutani-roshi sobre a prática do Zen. sua palestra (teisho) sobre o koan-Mu, e suas instruções particulares (dokusan) para dez de seus discípulos ocidentais, formam um conjunto que inclui a totalidade da estrutura do treinamento Zen na sua seqüência tradicional. Faltando o acesso a um roshi de confiança, mas desejando alguém, mesmo assim, disciplinar-se pelo Zen, encontrará neste material somente um manual de instrução pessoal.

Tanto as disciplinas Soto como a Rinzai, creio, são aqui apresentadas — pela primeira vez em língua européia — como corpo integral do ensinamento Zen, e esta experiência não é acadêmica, mas bem vivida. Por enquanto o Ocidente conhece pouco o Soto. Os intérpretes mais conhecidos do Zen no Ocidente, entusiasmados com o Rinzai, deram pouca atenção aos métodos e doutrinas do Dogen-zenji, o pai do Zen Soto japonês e, na opinião de muitos, a mais fecunda mente que o budismo japonês produziu. Não é por isso, surpreendente que um grande número de shikan-taza ocidentais, orientados pelo Zen, o coração da disciplina de meditação de Dogen, seja quase um enigma. Neste volume, os objetivos e métodos da shikan-taza, assim os do koan zazen, o sustentáculo principal da seita Rinzai, são expostos com toda a autoridade por Yasutani-roshi, que utiliza ambos no seu próprio sistema de ensino.

Nas introduções apresentei o plano de fundo e o material suplementar que julguei oportuno para ajudar o leitor a compreender a matéria de cada parte, mas resisti à tentação de analisar ou interpretar os ensinamentos do mestre. Tal coisa só encorajaria o leitor a reinterpretar minhas interpretações e, querendo ou não, ele se encontraria tragado pela areia movediça da especulação e da auto-glorificação, das quais um dia, se praticasse com seriedade o Zen, teria penosamente de se livrar. Pois, exatamente por este motivo, a “traficância de idéia” sempre foi desencorajada pelos mestres Zen.

Este livro deve imensamente a muita gente. Em primeiro lugar e sobretudo, deve enormes obrigações ao mestre Zen Yasutani, cujos ensinamentos preenchem mais de metade do livro e que graciosamente permitiu estivessem ao alcance de um público mais amplo. Meus colaboradores e eu mesmo, todos discípulos seus, estamos profundamente gratos por seus conselhos cheios de sabedoria e o espírito magnânimo com que nos inspirou do princípio ao fim deste livro.

Devo agradecimentos especiais à Dra. Carmen Blaker, da Universidade de Cambridge. Suas traduções simultâneas de muitas conferências de Yasutani-roshi sobre a prática do Zen foram por mim incorporadas às traduções que aparecem neste livro. Além disto, tomei a liberdade de adotar sem alteração, diversos parágrafos de suas próprias traduções de partes deste mesmo material, que foi publicado na revista budista inglesa The Middle Way, uma vez que sua forma de expressão era tão apropriada que eu mal poderia esperar melhorá-la.

Sou extremamente grato a Dr. Huston Smith, professor de Filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachnsetts e autor do The Religion ofMan, por seus conselhos valiosos e encorajamentos na primeira fase do manuscrito e por seu prefácio.

Reconheço agradecido a ajuda de Brigitte D’Ortschy, uma amiga dharma. Sua leitura atenta de todo o manuscrito deu origem a muitas e valiosas sugestões.

Meredith Weatherby e Ralph Friedrich, ambos do John Weatherhill, mc., em Tóquio, foram editores muito compreensivos durante toda a preparação deste livro e lhes sou grató por seu auxílio.

A gratidão a minha esposa, deLancey, não é menor. Em todas as fases da redação ela me encorajou e trabalhou comigo. Na verdade, durante muitos anos estes trabalhos constituíram sua prática mais importante do zazen. Também lhe devo os desenhos das posturas do zazen.

As dez figuras da criação do boi da VIII parte foram usadas com a gentil permissão do artista Gyokusei Jikihara. É ele um pintor contemporâneo altamente considerado em Kyoto e um discípulo leigo de Shibayama-roshi, o antigo abade do Mosteiro Nanzen, sob cuja orientação treinou no Zen durante muitos anos.

Devo uma menção especial aos nomes de meus dois colaboradores nas traduções, Kyozo Yamada e Akira Kubota. O Sr. Yamada disciplinou-se no Zen durante vinte anos. o sucessor Dharma de Yasutani-roshi e freqüentemente o substitui. Há muito tempo concluiu os seiscentos koans dados por Yasutani-roshi e recebeu dele o inka Trabalhamos juntos nestas traduções: o sermão de Bassui sobre a mente-una e as cartas, partes das cartas de Iwasaki, os dez versos da criação do Boi, as citações de Dogen e de outros antigos mestres, e o extrato do Shobogenzo de Dogen. Sem os seus sábios conselhos e generosa assistência, minha tarefa teria sido muitíssimo mais difícil, se não impossível, e lhe sou imensamente grato.

Akira Kubota, meu segundo colaborador, treinou sob a orientação de Yasutani-roshi uns quinze anos, e é dos seus principais discípulos. Juntos traduzimos as conferências sobre o koan Mu, partes das cartas de Lwasaki e o quarto e sexto relatos na parte das experiências de iluminação. Reconheço o quanto lhe devo por seu trabalho tão consciencioso.

Em nossas traduções empenhamo-nos em evitar os perigos, seja por um lado, de uma livre e imaginosa interpretação, seja por outro lado de uma versão. exata e literal. Se nos tivéssemos rendido àquela primeira tentação, alcançaríamos uma elegância de estilo que agora nos falta, mas seria à custa daquele decidido vigor e da repetição intencional que é forma característica do ensino Zen. Por outro lado, se nos tivéssemos escravizado à letra dos textos, teríamos inevitavelmente feito violência a seu espírito e obscurecido assim seu sentido interior mais profundo.

Nossas traduções são interpretativas no sentido de que toda tradução implica a constante escolha de uma das diversas alternativas de expressão que o tradutor julga convir melhor ao sentido do original. Numa tradução comum, dependerá da aptidão lingüística e da familiaridade do tradutor com o assunto que suas escolhas sejam ou não adequadas. No entanto, os textos do Zen se situam numa categoria especial. Desde que são invariavelmente sóbrios e expressivos e os ideogramas em que são redigidos susceptíveis de várias interpretações, uma referência chave freqüentemente traz consigo todo um espectro de idéias, e fazer a seleção do verdadeiro sentido para um contexto particular, exige do tradutor algo mais do que acuidade filológica ou extenso conhecimento acadêmico do Zen. No nosso ponto de vista, exige-se nada menos do que o treinamento do Zen e a experiência da iluminação, sem a qual o tradutor estará quase certo de prejudicar a clareza e mutilar o vigor do original em aspectos importantes.

Por esse motivo não será inoportuno salientar aqui o fato de que cada um dos tradutores treinou por muito tempo o Zen sob a orientação de um ou mais mestres reconhecidos, e de certa forma abriu os olhos da Mente.

Desde que o presente livro se dirige ao leitor em geral, mais do que a especialistas em Zen-budismo, dispensei os sinais diacríticos, que podem ser enfadonhos para quem não conhece o japonês, o chinês e o sânscrito. Mesmo correndo o risco de alguma imprecisão, dispensei, sempre que possível, o uso dos grifos, para não cortar o sentido das frases. No corpo do livro segui o costume japonês de escrever os nomes dos mestres chineses do Zen e outros termos chineses de acordo com sua pronúncia japonesa. Assim como falamos de Zen ao invés de Ch‘an budismo, mas nas notas do vocabulário, na parte final indiquei em parênteses a pronúncia chinesa aceita no uso comum. Solicitamos aos estudiosos chineses que se exasperam com tal método, que se lembrem de que o Zen-budismo está no Japão há quase mil anos e por isso faz legitimamente parte da vida e da cultura japonesa. Dificilmente teria sobrevivido por tanto tempo e sido impacto tão forte para os japoneses, se não tivessem abandonado a pronúncia chinesa estrangeira e para eles incômoda.

Ao escrever os nomes dos mestres japoneses aderi ao costume japonês tradicional de empregar o principal nome budista em primeiro lugar. Entretanto, quando se trata do japonês moderno, seja nome de mestres ou de leigos, adotei o estilo ocidental que usa, naturalmente, o inverso, uma vez que eles mesmos escrevem assim seus nomes em inglês. Quando vem o título imediatamente depois do nome (como em Yasutani-roshi ou Dogen-zenji), por causa da euforia, escrevi o nome e o título de acordo com o estilo tradicional japonês, como está aqui indicado.

Os nomes técnicos Zen e termos budistas especiais não definidos no texto são explicados na X parte, notas sobre o vocabulário Zen.

Ainda que a organização do livro seja o método natural do ensinamento, prática e iluminação, cada parte é completa em si mesma e poderá ser lida ao acaso, de acordo com o gosto do leitor.

Todas as notas, no livro inteiro, são minhas.

Philip Kapleau
Kamakura, 8 de dezembro de 1964.


> “Pratique e busque o Caminho com os outros”

“Reflita sobre o fato de alguém ter compreendido o Caminho ao ouvir o som do bambu; que outro teve a Mente clarificada ao vislumbrar flores de pêssego desabrochando. Como poderia ser possível diferenciar árvores de bambu inteligentes das tolas, ou as deludidas das iluminadas? Como poderia haver superficiais ou profundas, sábias ou tolas entre as flores? As flores desabrocham todos os anos, mas nem todas as pessoas alcançam a iluminação ao vê-las. As pedras freqüentemente atingem o bambu, ainda assim nem todos que ouvem o som têm o Caminho clarificado.

Apenas como resultado de um longo estudo e da prática contínua, pautado em um esforço diligente no Caminho, é que alguém compreende o Caminho ou clarifica a Mente. Isso não ocorreu porque o som do bambu foi especialmente maravilhoso, nem porque a cor das flores de pêssego foi particularmente profunda. Embora o som do bambu seja maravilhoso, ele não soa por si só; ele ressoa com o auxílio de um pedaço de telha. Embora a cor das flores de pêssego seja linda, elas não desabrocham por si mesmas; elas abrem com a ajuda da brisa da primavera.

Praticar o Caminho também é assim. Este Caminho está inerente em cada um de nós; ainda assim, a conquista do Caminho depende da ajuda de co-praticantes. Embora cada pessoa seja brilhante, nossa prática do Caminho ainda precisa do poder de outras pessoas [na sanga]. Portanto, enquanto você unifica sua mente e concentra sua aspiração, pratique e busque o Caminho junto com os outros”.

Mestre Dogen

 

Acesse o texto completo : Livro 4 – Parte 5 de SHOBOGENZO ZUIMONKI. Palestras de Eihei Dogen Zenji, registradas por Koun Ejo (tradução: Mui Leticia Rothen Sato/Revisão: Rucei Luci Collin). 

 

 

> Zazen é bom para nada

ZAZEN É BOM PARA NADA

Shohaku Okumura

APENAS SENTAR

O que meu professor me ensinou foi que zazen, também chamado Zen Budismo, é uma tradição iniciada no Japão pelo Mestre Zen Dogen (Dogen Zenji), e chamamos essa tradição de Soto Zen.

O ponto principal dos ensinamentos de Dogen era “apenas sentar”. Normalmente acreditamos que a prática meditativa serve para se alcançar algum tipo de iluminação ou despertar. Mas Dogen disse que devemos apenas sentar, sem qualquer expectativa, mesmo de iluminação.

Porque se praticarmos com o propósito de alcançar iluminação, isso é desejo. Desejo ou desejo egocêntrico está ainda presente nessa busca pela verdade. Assim, desde o início devemos apenas, na expressão de Dogen, nos atirar no Caminho sem expectativa de qualquer recompensa. Isso é o que, de acordo com os ensinamentos de Dogen, se chama “apenas sentar” ou Shikantaza.

O professor do meu professor, Sawaki Kodo Roshi, disse que o Zazen, essa meditação sentada, é boa para nada. Eu sempre digo “isso é bom para nada” e é isso o que recomendo às pessoas, mas é realmente difícil encorajar as pessoas a praticarem dessa forma porque isso é bom para nada.

SEM EXPECTATIVA

‘Zazen sem expectativa’ ou sem a mente que visa ganhar algo ou ‘Zazen bom para nada’ é um tipo de koan. Mesmo eu, quando iniciei a prática, tinha alguma expectativa. Eu penso que quase sempre temos expectativa porque começamos a praticar quando temos algum problema, alguma dificuldade ou alguma questão. Assim, temos a expectativa de ao menos encontrar alguma resposta às minhas questões ou alguma saída para o problema que tenho, que estou enfrentando. Sem expectativa ou objetivo não podemos iniciar a prática. Aqui há uma espécie de conflito. Normalmente, chamamos isso de uma “mente à procura do caminho”. Sem essa mente, que na nomenclatura budista é chamada de bodhicitta – a mente que busca o despertar ou que busca encontrar, descobrir a verdade – não podemos começar a praticar. Por outro lado, o ensinamento é que não devemos nem mesmo esperar pela resposta. Então aqui há um conflito.

Quando continuamos a praticar, isso se torna uma questão realmente séria e algumas vezes temos que encarar um impasse. No fundo do meu coração eu penso que praticar ‘zazen bom para nada’ é a prática mais autentica na tradição Budista. É por isso que eu estou bem. É por isso que minha vida é plena de significado.

Um dia eu me vi sentado sozinho, não como um praticante em uma sanga, não como um monge budista exercendo um tipo de ocupação social. Sentei por mim mesmo e encontrei uma profunda paz ali. Isso significa que eu não preciso ser um ‘bom menino’. Eu posso apenas sentar. E descobri que isso é realmente ‘zazen é bom para nada’. Mas antes disso eu entendi intelectualmente ‘zazen é bom para nada’ como uma filosofia budista. Mas por conta do que senti, minha vida vai bem, plena de significado.

Quando não pude continuar daquela forma, senti que minha vida não tinha valor. Descobri que isso é uma base. Devemos praticar sem o desejo de ser “um bom garoto”, não apenas no sentido secular e mundano, mas mesmo como budista. Me tornei livre do meu desejo de ser um bom budista.

Finalmente, pela primeira vez descobri o real significado de ‘zazen é bom para nada’ ou do praticar sem expectativa ou sem uma mente que visa um ganho. Então, apenas estar lá com este corpo e mente.

SOMOS PARTE DISSO

Quando nos sentamos, nós não ouvimos nada realmente. Não prestamos nenhuma atenção. Mesmo se os pássaros estiverem cantando, e nós estivermos sentados, se eu ouço o canto e penso ‘são pássaros’ isso não é mais zazen. Mesmo quando faço isso, há uma separação entre a pessoa sentada e o som.

Há um Koan interessante no Zen e Mestre Dogen gosta dele. Um professor pergunta a um aluno, mostrando, apontando para o sino dos ventos: o vento faz algum som? Ou é o sino que faz algum som? Então o estudante disse: minha mente faz o som. Nem o vento nem o sino. Mas a minha mente faz o som. Isso significa que quando o vento bate no sino, cria uma vibração. E a vibração do ar alcançou meu ouvido e se tornou som. Então, antes de a vibração alcançar meu ouvido, não há nenhum som. O som está apenas dentro de nossa mente. Acho que é por isso que o estudante disse ‘minha mente faz o som’. Mas Dogen disse que isso não é verdade. Porque mesmo que minha mente esteja funcionando, se o vento não soprar, se o sino dos ventos não se mover e o ar não vibrar, então não há som. Todos eles estão criando o som. Esse universo inteiro está fazendo o som. Então não há o sujeito correspondente à razão e não há objeto ou som que é ouvido. É isso o que Dogen chama de “Função Total”. Somos parte disso. Não há aquela pessoa que está ouvindo, não há som que vem até mim; mas esse universo como um todo está produzindo aquele som por meio dessa pessoa. E essa pessoa é apenas uma pequenina parte disso.