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> Shobogenzo Zuimonki (43) – Livro 2 Parte 21

“(…) os monges não deveriam fazer alarde sobre encontrar refeições agradáveis, ao invés disso, deveriam comer o que estivesse disponível. Quando fosse uma boa comida, deveriam come-la tal como ela é, e se fosse pobre, deveriam come-la sem aversão.

LIVRO 2

2-21

Em uma tarde, Dogen instruiu:

            Em um monastério Zen na China, algumas vezes eles peneiram o trigo e o arroz, etc, jogando fora os grãos ruins e mantendo os bons para serem cozidos. Um certo mestre Zen advertiu em um verso: “Mesmo que vocês dividam minha cabeça em sete pedaços, não peneirem o arroz.”  O que ele quis dizer era que os monges não deveriam fazer alarde sobre encontrar refeições agradáveis, ao invés disso, deveriam comer o que estivesse disponível. Quando fosse uma boa comida, deveriam come-la tal como ela é, e se fosse pobre, deveriam come-la sem aversão. Livre-se de sua fome e sustente sua vida com as leais doações dos benfeitores ou apenas com a comida pura pertencente ao templo e devote sua vida à prática do Caminho. Não escolha entre bom ou mau com base em seu paladar. Agora cada um de vocês em minha assembleia deveria ter tal atitude.

> Shobogenzo Zuimonki (42) – Livro 2 Parte 20

Estamos vivos apenas agora. Apenas se aprendermos o darma de buda, desejando seriamente obter a iluminação, é que seremos capazes de fazê-lo antes de morrer.

LIVRO 2

2-20

Um dia, Dogen instruiu:

A distinção entre ser brilhante ou tolo se aplica apenas quando uma aspiração rigorosa ainda não despertou. Quando uma pessoa cai de um cavalo, vários pensamentos surgem antes que ela atinja o chão. Quando algo sério ocorre, a ponto de danificar o próprio corpo ou colocar a vida de alguém em risco, ninguém vai deixar de colocar toda sua inteligência para trabalhar. Em tais ocasiões, seja brilhante ou tolo, todos irão pensar e tentar encontrar a melhor forma de agir.

Portanto, se você acha que vai morrer hoje ou amanhã, ou se você acha que está enfrentando uma situação terrível, encoraje sua aspiração e você não falhará em atingir a iluminação. Uma pessoa que pareça superficialmente tola, mas que tenha uma sincera aspiração obterá a iluminação mais rápido do que aquela que for inteligente em um sentido mundano. Embora ele não conseguisse recitar nem mesmo um único verso, Cudapanthaka[1], um dos discípulos de Buda, alcançou a iluminação durante um período de prática de verão porque ele tinha uma séria aspiração.

Estamos vivos apenas agora. Apenas se aprendermos o darma de buda, desejando seriamente obter a iluminação, é que seremos capazes de fazê-lo antes de morrer.


[1] Cudapanthaka (J. Shurihandoku) foi um dos discípulos de Buda. Ele era tolo e incapaz de memorizar até mesmo um verso em quatro meses. Buda deu a ele o trabalho de limpar as sandálias dos monges e isso permitiu que ele obtivesse a iluminação.

> Shobogenzo Zuimonki (41) – Livro 2 Parte 19

Nossa maneira de prestar o débito de gratidão não deveria estar restrita a uma pessoa em particular. Considerando que temos débitos de gratidão para com todos os seres vivos tanto quanto para com nossos próprios pais e mães, devemos transmitir todos os méritos de nossas boas ações para todo o mundo do darma. Se os limitamos especificamente para nossos próprios pais nesta vida, vamos contra o Caminho da não intenção.

LIVRO 2

2-19

Durante uma palestra vespertina, Ejo perguntou:

“Devemos levar adiante a obrigação de prestar reconhecimento aos nossos pais e mães?”[1]

Dogen respondeu: “piedade filial é o mais importante. Entretanto, há uma diferença na forma como pessoas leigas e monges fazem isso. Leigos seguem os ensinamentos do Kokyo[2]etc. e servem seus pais na vida e na morte. Todas as pessoas no mundo sabem disso. Monges abandonam seu débito de gratidão e entram no reino da não-intenção (mui)[3]. Nossa maneira de prestar o débito de gratidão não deveria estar restrita a uma pessoa em particular. Considerando que temos débitos de gratidão para com todos os seres vivos tanto quanto para com nossos próprios pais e mães, devemos transmitir todos os méritos de nossas boas ações para todo o mundo do darma. Se os limitamos especificamente para nossos próprios pais nesta vida, vamos contra o Caminho da não intenção.

Em nossa prática diária e estudo periódico, seguir o Caminho de Buda continuamente é a única verdadeira maneira de realizar nossa piedade filial.

Pessoas leigas fazem serviços memorias e oferendas durante o chuin[4] (os quarenta e nove dias depois da morte de uma pessoa).

Como monges Zen, devemos conhecer a profundidade do real débito de gratidão para com nossos pais. Devemos enxergar tal débito como sendo igual à gratidão que temos para com o restante dos seres vivos. Escolher um dia em particular para praticar algo bom e transmitir o mérito para uma pessoa especial não parece de acordo com a compaixão de Buda. A passagem sobre os dias de aniversário da morte do pai e parentes de alguém no Sutra dos Preceitos[5]  se refere aos leigos.

Nos monastérios na China os monges fazem cerimonias nos aniversários da morte do seu mestre, mas não nos aniversários da morte de seus pais.


[1] Do japonês Hoon. Ho significa retribuir. On significa gentileza, favor, graça. Hoon pode ser traduzido como “retribuir uma gentileza” ou, como neste caso, pagar uma dívida de gratidão. A piedade filial era um dos conceitos mais importantes no pensamento confucionista na China, Coréia e Japão.

[2] Kokyo (Escritura sobre a piedade filial) é um dos clássicos mais importantes da Confucionismo. Neste texto, Confúcio insistia que a piedade filial é o fundamento de todas as virtudes e moralidade social.

[3] Mui não significa inativo. Significa agir livremente, como peixes nadando na água ou pássaros voando no céu sem deixar rastros.

[4] Estado intermediário entre a morte e a próxima vida. Diz-se que uma pessoa morta permanece neste estado suspenso por sete semanas.

[5] Diz o Bonmo-kyo (Brahmajala-sutra): “No dia do aniversário da morte de seu pai, mãe ou irmãos, convide um sacerdote para dar uma palestra sobre o sutra dos preceitos do bodisatva …”.