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Zazen Yôjinki: a quê estar atento em zazen

Por Mestre Keizan Jokin Zenji

Zazen significa clarificar a mente e descansar tranquilamente na sua natureza presente. Isto é chamado “revelar a si mesmo” e “manifestar a base verdadeira”.

Corpo e mente abandonados, sem apego a formas como sentar ou deitar. Sem pensar no bem, sem pensar no mal, transcendendo o comum e o sagrado. Além de todos os conceitos sobre ilusão e iluminação, passando através das barreiras entre seres comuns e Budas.

Sem fazer nada, deixe de lado todas as preocupações, desapegando-se de tudo.

Não fabrique coisa alguma a partir dos seis sentidos.

Quem é este? Seu nome nunca foi conhecido. Não pode ser considerado corpo, não pode ser considerado mente. Tentando pensar sobre isto, o pensamento se esvai. Tentando falar sobre, palavras somem.

Como um bobo, como um tolo. Tão alto como uma montanha, tão profundo como o oceano. Não mostra seu pico mais elevado nem suas invisíveis profundezas.

Brilha sem pensar.

A fonte é clara em explicação silenciosa.

Ocupando o céu e a terra, o seu próprio corpo se manifesta completo e só — uma pessoa de incomensurável grandeza, como quem tenha completamente morrido, cujos olhos não se embaçam por nada, cujos pés não são suportados por nada.

Onde há alguma poeira? Qual é a barreira? Água pura nunca teve frente nem costas, espaço nunca terá dentro ou fora. Clara como cristal e naturalmente brilhante antes da forma e do vazio se separarem — objetos e a mente em si não têm espaço para existirem.

Sempre esteve conosco, mas nunca teve um nome. O terceiro Ancestral Fundador, um grande mestre, temporariamente o chamou “mente”. O Venerável Nagyaharajuna provisoriamente o chamou “corpo”. Essência e forma iluminadas, manifesta nos corpos de todos os Budas, é simbolizada pela lua cheia: nada falta, nada excede.

Esta mente é em si mesma Iluminação.

Sua luz brilha através do passado e se irradia até o presente.

Nagyaharajuna usou este símbolo sutil para o samádi de todos os

Budas. Mas a mente é sem sinais, sem dualidade, embora formas possam diferir em aparência.

Apenas mente, apenas corpo. Não é questão de igualdade ou diferença. A mente se transforma em corpo e, quando o corpo surge, parecem separados. Quando uma onda se move, dez mil ondas a seguem. No momento em que a discriminação mental surge, milhões de coisas vêm à tona.

Isto quer dizer que os quatro elementos básicos e os cinco agregados (Skandas) eventualmente se combinam e os quatro membros e cinco sentidos aparecem. E assim por diante, em relação às 36 partes do corpo e 12 relações causais da interdependência. Quando a fabricação mental surge, desenvolve continuidade, mas ainda existe apenas devido ao agrupamento de miríades de fenômenos.

A mente é como a água do oceano e o corpo como as ondas. Não há ondas sem água e não há água sem ondas. Água e onda não são separadas, movimento e quietude não são diferentes. Diz-se: “o ser verdadeiro indo e vindo, vivendo e morrendo, é o corpo indestrutível dos quatro elementos e dos cinco agregados (skandas)”.

Zazen é penetrar diretamente no oceano da Natureza-Buda(1), e manifestar o corpo de Buda. A mente pura e clara é autenticada no momento presente e a luz verdadeira brilha em toda parte. O oceano não aumenta nem diminui e as ondas nunca cessam.

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Assim, os Budas aparecem no mundo apenas com o propósito de fazer com que as pessoas realizem a sabedoria e a visão da iluminação.

Sempre tiveram uma arte impecável e sutil, chamada Zazen — apenas sentar na prática pura e tranquila do “Samádi Que Se Auto Completa” (Jijiyu Zanmai – em jap.), penetrando o “Rei dos Samádis” (Oo Zanmai – em jap.). Se alguém mesmo por uma só vez penetrar esse samádi, despertará e realizará que este é o portão principal do Caminho dos Budas.

Aqueles que querem clarificar o solo da mente devem abandonar a mistura de conhecimentos confusos, interpretações, ideias de comum e sagrado, cortar todos os sentimentos delusivos e manifestar a mente verdadeira e real. As nuvens de ilusão se dispersam e a mente-lua brilha.

Buda disse: “Aprender e pensar são como estar fora da porta. Zazen é voltar ao lar para se sentar em tranquilidade”. Como isto é verdadeiro! Aprendendo e pensando, os pontos de vista não param e a mente fica atolada. Por isto é estar do lado de fora. Em zazen, tudo se tranquiliza e ainda assim penetra toda parte. É como voltar ao lar e se sentar em paz.

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As aflições dos cinco obstáculos (ganância e sensualidade, raiva e ódio, loucura e delusão, adormecimento, excitação e arrependimento) todos vêm da ignorância. Ignorância significa não compreender a si mesmo. Zazen é compreender a si mesmo. Mesmo que tenha se libertado dos cinco obstáculos, se não eliminar a ignorância, você não é um Buda Ancestral. Se quiser eliminar a ignorância, para discernir o caminho, zazen é a chave essencial.

Um antigo disse: “Quando a confusão cessa, a tranquilidade vem, a sabedoria surge. E quando a sabedoria surge, a realidade pode ser vista”. Se você quer dar fim à ilusão, deve deixar de pensar no bem e no mal e deve abandonar toda atividade. A mente sem pensar e o corpo sem fazer nada são o ponto essencial.

Apegos delusivos terminam e a ilusão desaparece. Quando a ilusão desaparece, a essência é revelada e você sempre a compreende. Não é quietude, não é atividade.

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Evite todas as artes e artesanatos, prescrições médicas e augúrios, assim como canções, música e dança, disputas, conversas fúteis, fama e fortuna, honra e lucro. Poesia e canções podem ajudar a clarificar a mente, mas não seja pego por elas. Abandonar caligrafia e escrita é o precedente superior das pessoas do Caminho, a melhor maneira de harmonizar a mente.

Não se apegue nem a roupas finas nem a trapos velhos. Roupas finas instigam ganância e o medo de roubo. Assim se tornam um obstáculo. Recusá-las é considerado excelente desde os tempos antigos. Mesmo que você tenha roupas finas, não se preocupe com elas. Se alguém as roubar, não vá correndo atrás do ladrão.

Roupas velhas, limpas e remendadas devem ser usadas, mas se você não se livrar da sujeira poderá ficar doente ou com frio. Isto também pode se tornar um obstáculo. Embora não devamos ficar ansiosos por nossas vidas, se roupas, comida e sono não forem suficientes, são chamados de “três insuficiências” e são causas de regressão.

Coisas vivas, coisas duras e coisas estragadas (comida impura) não devem ser ingeridas. Com a barriga se mexendo e fazendo barulhos, com desconforto e calor no corpo e na mente, haverá dificuldade em sentar.

Não se deve indulgir no apego a comidas finas, não apenas pelo possível desconforto que podem causar a corpo e mente, mas para evitar a ganância. Devemos comer apenas o suficiente para mantermos nossa vida. Não se preocupe tanto com o sabor. Se fizer zazen com a barriga cheia, poderá até ficar doente.

Após as refeições, tanto grandes quanto pequenas, não se sente (em zazen) imediatamente. Ao contrário, espere um pouco antes de fazer zazen. Geralmente monges mendicantes devem ser moderados ao comer. Isto significa limitar suas porções — comer dois terços e deixar um terço.

Todos os medicamentos tradicionais, como o gergelim e o inhame selvagem, podem ser ingeridos. Esta é a técnica fundamental para harmonizar corpo-mente.

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Quando sentado em zazen, não se encoste ou apoie em nenhuma parede, encosto, suporte para meditação ou telas. Também não se sente em locais de muito vento ou locais altos de grande exposição ao sol e ventanias. Estas podem ser causas de doenças. Quando em zazen, seu corpo pode parecer às vezes quente ou frio, confortável ou desconfortável, às vezes duro, às vezes solto, às vezes pesado, às vezes leve, às vezes perfeitamente acordado. Tudo devido à respiração não estar regulada. Esta deve ser regulada.

Esta é a maneira de regular a respiração: abra sua boca, percebendo como está a respiração — longa ou curta. Naturalmente ela se harmonizará. Siga a respiração por alguns momentos. Quando a sensação de estar consciente surgir, a respiração está regulada. Depois disso, deixe-a seguir normalmente pelas narinas.

A mente pode parecer afundar ou boiar. Às vezes parece esperta, outras vezes estúpida. Às vezes você poderá ver através das paredes, fora da sala, outras vezes poderá ver através de seu corpo, ou ver formas de Budas e Bodisatvas. Às vezes compreende escrituras ou tratados. Coisas como estas são doenças causadas pela desarmonia entre a consciência e a respiração.

Quando estas coisas acontecerem, sente-se com a atenção repousando em seu colo. Se a mente afundar em torpor, coloque sua atenção entre os olhos, onde começa o cabelo (cerca de oito centímetros acima do centro de suas sobrancelhas). Se sua mente estiver distraída, pulando de um pensamento a outro, foque a atenção na ponta do nariz ou na parte baixa do abdômen (quatro centímetros abaixo do umbigo – tanden, em japonês).

Em geral, ao sentar coloque a mente na palma de sua mão esquerda. Se sentar por muito tempo, mesmo sem forçar a mente a se acalmar, ela naturalmente não ficará espalhada por toda parte.

Agora, em relação aos ensinamentos antigos, embora sejam lições para iluminar a mente, não os leia, escreva ou ouça em excesso. Fazê-lo em demasia pode perturbar e dispersar a mente, chegando inclusive a provocar doenças.

Não faça zazen onde há incêndios, enchentes, bandidos, nem próximo do mar, nem perto de bares, casas de prostituição ou locais onde viúvas, virgens ou jovens estejam cantando. Não fique perto de reis, oficiais importantes, pessoas poderosas ou pessoas cheias de luxúria ou desejosas de nome e fama, contadores de histórias ou daqueles que gostam de discutir à toa.

Sobre os serviços budistas para as massas e projetos de grandes construções, embora sejam coisas boas, quem apenas se concentra em zazen não deve se envolver com elas.

Não se apegue a pregar ou ensinar, pois as distrações e pensamentos dispersivos vêm daí. Não sinta prazer em multidões nem procure discípulos. Não estude nem pratique muitas coisas.

Não se sente em lugares extremamente claros ou escuros, extremamente frios ou quentes, entre biscateiros ou onde morem pessoas que procuram prazeres fáceis. Você pode permanecer em um mosteiro onde haja um verdadeiro mestre, nas profundezas das montanhas ou nos refúgios dos vales.

A margem de águas claras e montanhas verdes são os locais ideais para se praticar kinhin. Perto dos riachos, sob as árvores, são os locais para clarificar a mente. Observe a impermanência, nunca a esqueça — faça surgir a vontade de alcançar a iluminação.

Sente-se sobre algo grosso para ficar confortável. O local de prática deve estar limpo. Sempre queime incenso e ofereça flores. Os bons espíritos que guardam o verdadeiro ensinamento, assim como os Budas e Bodisatvas, o protegerão. Se colocar a imagem de um Buda, Bodisatva ou de um Venerável, nenhum espírito maligno ou demônio o apanhará.

Viva sempre em grande compaixão e dedique o poder infinito do zazen a todos os seres.

Não se torne orgulhoso, presunçoso ou arrogante da sua compreensão do Darma — estas são qualidades de pessoas comuns, pessoas de fora do Caminho. Lembre-se do voto de terminar com o sofrimento, o voto de realizar a iluminação. Apenas sentar, sem fazer nada, é a técnica essencial de penetrar o Zen.

Sempre lave os olhos e os pés antes do zazen. Com o corpo e a mente à vontade e o comportamento harmonioso, abandone sentimentos mundanos e não se apegue a sensações sublimes sobre o Caminho.

Embora não se deva ser avaro com os ensinamentos, não fale a menos que lhe perguntem. Então espere por três pedidos e responda se houver um quarto pedido verdadeiro. De dez coisas que possa dizer, deixe nove sem falar. Mofo crescendo em volta da boca, como um leque no inverno, como um sino ao vento, sem questionar de que direção o vento vem — estas são características das pessoas do Caminho.

Apenas vá pelo princípio do ensinamento, sem selecionar as pessoas. Vá pelo Caminho e não se congratule — este é o ponto mais importante a relembrar.

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Zazen não se baseia em ensinamento, prática e realização. Ao contrário, ensinamento, prática e realização estão todos contidos em zazen. Avaliar a realização baseando-se em alguma noção de iluminação não é a essência do zazen. Praticar baseando-se em aplicar esforço não é a essência do zazen. Ensinamento baseado em libertar-se do mal e cultivar o bem não é a essência do zazen.

No Zen há ensinamentos, mas não o ensinamento comum. Zen é apontar diretamente, expressar o Caminho, falar com todo o corpo.

Tais palavras não são sentenças nem frases. Onde os pontos de vista terminam e os conceitos são exauridos, a palavra única permeia as dez direções sem perturbar nem mesmo um fio de cabelo. Este é o verdadeiro Ensinamento dos Budas Ancestrais.
Embora falemos de “prática”, não é uma prática a ser feita. Isto quer dizer: o corpo não a faz, a boca não recita, a mente não fica pensando e pensando, os seis sentidos são deixados à sua própria claridade e não são perturbados.

Não são os dezesseis estágios de prática dos ouvintes do Darma (sravakas). Não é a prática da compreensão da corrente de doze elos da origem dependente dos que praticam sozinhos, isolados (pratyekabudas) (2). Também não são as seis perfeições, os seis paramitas, nem as inúmeras práticas dos Bodisatvas.

É sem esforço, sem luta, e por isso chamado de Acordar ou Iluminar.

É apenas descansar no “Samádi que Se Auto Completa” (Jijiyu Zanmai – em japonês), alegremente percorrendo as quatro práticas de paz e de bênçãos dos bodisatvas.

Esta é a inconcebível e profunda prática dos Budas Ancestrais.

Embora falemos de “realização”, esta não se apega a si mesma como sendo “realização”. É a prática do Samádi Supremo (Oo Zanmai – em japonês) conhecido como não nascido, não obstruído.

Espontaneamente surge a Compreensão Superior. É o portal de claridade suprema que se abre na realização do Tathagatha (3), nasce da prática do grande bem estar. Vai além do sagrado e do profano, além da delusão e da sabedoria. Esta é a iluminação suprema (Anokutara Sammyaku Sambodai). Esta é a nossa própria natureza.

Zazen também não se preocupa com disciplina, concentração ou sabedoria, mas contém os três.

Disciplina e preceitos são para prevenir o erro e fazer cessar o mal.

Em zazen, vemos tudo de maneira não dualista, deixando de lado todos os desdobramentos. Sem preocupação se o caminho é budista ou mundano, esquecendo-se dos sentimentos sobre o Caminho e dos sentimentos mundanos, sem afirmar nem negar, sem bom nem mau — o que poderia obstruir? Esta é a disciplina sem forma da mente.

Concentração significa contemplação sem divisões. Zazen é abandonar corpo e mente, transcendendo compreensão e confusão.

Imutável, imperturbável, sem agir, sem delusão, como um tolo, como um bobo. Como uma montanha, como um oceano. Sem traços nem de movimento nem de imobilidade — concentrado sem nenhum sinal de concentração. Porque não possui objeto de concentração é chamado de grande concentração.

Sabedoria é geralmente compreendida como sendo o claro discernimento. Em zazen, todo conhecimento desaparece por si só. A mente e a consciência discriminatória são completamente esquecidas.

O olho de sabedoria através do corpo todo não tem diferenciação, mas vê claramente a essência do estado de Buda. Desde o princípio livre de confusão, corta todos os conceitos. Sua luminosidade abrangente e clara permeia tudo. Esta é a sabedoria sem nenhum sinal de sabedoria e por isto mesmo é chamada de Grande Sabedoria.

Os ensinamentos que os Budas expuseram durante todas suas vidas são apenas: disciplina (moralidade, preceitos – “kai” em jap.), concentração (meditação, prática –”jo” em jap.) e sabedoria (mente- Buda – “e” em japonês). Neste zazen não há preceito que não seja mantido, não há concentração que não seja cultivada, não há sabedoria que não seja realizada. Conquistar os demônios da confusão, obter o Caminho, girar a Roda do Darma e retornar ao “sem marcas”, tudo depende deste poder. Poderes sobrenaturais e suas funções inconcebíveis, emanar luz e expor os ensinamentos — tudo está presente neste zazen. Penetrar Zen é zazen.

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Para zazen, primeiro escolha um local quieto e coloque um forro grosso no chão. Não permita que vento, fumaça, chuva ou orvalho entrem. Mantenha um espaço adequado para sentar e colocar os joelhos. No entanto, em tempos antigos havia quem usasse diamantes ou rochas como almofadas. O local não deve ser nem muito claro durante o dia nem muito escuro à noite. Deve ser quente no inverno e fresco no verão. Esta é a técnica.

Abandone mente, intelecto e consciência. Pare de relembrar, pensar e observar. Não espere se tornar um Buda, não se preocupe com certo e errado. Dê valor ao tempo, como se estivesse salvando sua cabeça do fogo.

Buda sentou-se com a coluna reta, Bodidarma virado para a parede, com a mente em foco, sem nenhuma preocupação. Sekito (Shishuang em chinês) era como uma árvore morta. Tendo Nyojo advertia contra dormir em zazen e ensinava: “Você pode alcançar a realização apenas se sentando, sem necessidade de queimar incenso, fazer reverências, relembrar o nome dos Budas, fazer cerimônias de arrependimento, ler escrituras ou fazer rituais de recitação”.

Ao sentar-se , deve-se sempre usar uma okesa, exceto durante a primeira e última parte da noite, quando a programação diária não é válida. Não seja descuidada (o).

O zafu (almofada) não deve sustentar a coxa inteira, mas apenas da metade até a base da espinha. É assim que os Budas e Ancestrais se sentaram. Você pode se sentar em meio lótus ou lótus completo.

A maneira de sentar em lótus completo é colocar o pé direito na coxa esquerda e o pé esquerdo na coxa direita. Afrouxe suas roupas, mas deixe-as bem arrumadas. Em seguida, ponha sua mão direita sobre o pé esquerdo e a mão esquerda sobre a mão direita, com os polegares se tocando levemente, próximos do corpo, na altura do umbigo. Sente-se bem ereto, sem pender para a direita ou a esquerda, para frente ou para trás. As orelhas com os ombros e o nariz com o umbigo devem estar alinhados. A língua é colocada no céu da boca. Respira-se pelas narinas. A boca deve estar fechada e os olhos abertos, embora não completamente. Tendo equilibrado seu corpo desta forma, respire profundamente pela boca algumas vezes. Em seguida, ainda sentado, balance o tronco sete ou oito vezes, passando de movimentos largos para movimentos menores. Então, sente-se reto e alerta.

Agora pense não pensar. Como pensar assim? Indo além do pensamento. Essa é a essência do zazen. Atravesse diretamente os obstáculos e penetre a intimidade do Grande Despertar.

Quando quiser se levantar, primeiramente ponha as mãos sobre os joelhos, mova seu corpo sete ou oito vezes, indo de movimentos pequenos a movimentos mais largos. Expire profundamente pela boca, coloque as mãos no chão e se levante lentamente.

Ande vagarosamente, circulando da esquerda para a direita.

Se torpor ou adormecimento o vencerem quando sentado, mova seu corpo ou abra mais os olhos. Você também pode colocar a atenção entre as sobrancelhas, na linha do cabelo. Se mesmo assim ficar adormecido, esfregue seus olhos e corpo. Se mesmo assim não acordar, levante-se e ande, sempre caminhando em círculos em sentido horário. Depois de haver andado uns cem passos, seu adormecimento deverá ter desaparecido.

A maneira de andar (o Kinhin) é dar meio passo com cada respiração. Andar como se não estivesse andando, em silêncio e imóvel.

Se não acordar após andar, pode lavar os olhos ou refrescar a testa, ou recitar o prefácio dos preceitos do bodisatva ou qualquer outra coisa. Apenas encontre uma maneira de não adormecer.

Você deve observar que o assunto de vida-morte é de suprema importância, e a impermanência, rápida. O que está fazendo dormindo, quando seu olho do Caminho ainda não está completamente claro?

Se torpor e adormecimento vierem repetidamente, você deve rezar: “Meus hábitos são profundos e por isto estou envolvido por adormecimento. Quando meu torpor se dispersará? Rogo aos Budas Ancestrais que tenham compaixão e removam minha escuridão e miséria”.

Se sua mente estiver dispersa, fixe na ponta de seu nariz ou no baixo abdômen (tanden). Conte as inspirações e expirações. Se a distração ainda assim não cessar, traga um dizer à mente e mantenha este dizer em sua mente para acordá-la. Por exemplo: “O que é como é?”, “O cachorro tem a Natureza-Buda? Mu!”, “Quando nenhum pensamento surge, onde está a aflição? No Monte Sumeru” (4), “Qual o sentido de Bodidarma vir do oeste? O cipreste no jardim”. Kôans como estes são apropriados.

Se ainda assim ficar com a mente dispersa, sente-se e focalize o ponto onde a respiração termina e os olhos se fecham para sempre. Ou ainda, onde o embrião ainda não foi concebido e nenhum pensamento é produzido. Quando o vazio duplo de sujeito e objetos subitamente aparecer, a mente dispersa certamente descansará.

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Ao sair da imobilidade, faça suas atividades sem hesitar. Este momento é o kôan.

Quando prática e realização são sem complexidade, então o momento presente é o kôan. Aquilo que existe antes de qualquer sinal aparecer, do outro lado da destruição do tempo, a atividade de todos os Budas Ancestrais é apenas isto.

Você deve apenas descansar, cessar, ficar tranquilo, passar miríades de anos em um só instante. Torne-se cinzas frias, uma árvore morta, um pote de incenso em um templo antigo, um pedaço de seda branco.

Esse é o meu desejo mais profundo.

Notas:

1. Natureza Buda – O potencial para realizar iluminação, inato em todas as coisas. Literalmente, natureza iluminada.

2. Ensinamentos dos sravakas e pratyebuddhas. Sravakas são pessoas que se esforçam para se tornarem aracãs (arhat), isto é, alcançarem a iluminação para si mesmos, sem se preocuparem em salvar os outros. Pratyekabuddhas são pessoas que alcançam a iluminação por meio de estudos independentes, sem a orientação de um mestre. Eles também não se preocupam em salvar os outros.

3. Um dos epítetos de Buda, literalmente “Aquele que Vem e que Vai do Assim como É” – a realidade absoluta que transcende a multiplicidade de formas do mundo dos fenômenos.

4. O Monte Sumeru é considerado o topo do mundo.

Fonte: https://www.zendobrasil.org.br/sermon/zazen-yojinki-a-que-estar-atento-em-zazen-mestre-keizan-jokin-1264-1325/

> Zazen por…Yasutani Roshi

(via Philip Kapleau)

“(…) podemos agora considerar com mais detalhes as razões pelas quais os mestres sempre enfatizaram as costas eretas e a clássica postura de lótus. Sabe-se bem que as costas curvadas privam a mente de sua tensão e ela logo é invadida por pensamentos e imagens aleatórias; e que as costas retas fortalecem a concentração, diminuindo a incidência de pensamentos errantes e, portanto, acelerando o samadhi.

Inversamente, quando a mente fica livre de idéias, as costas tendem a endireitar-se sem esforço consciente. Por causa da coluna encurvada e da consequente multiplicação de pensamentos, a respiração harmoniosa muitas vezes é substituída por uma respiração rápida e entrecortada, dependendo da natureza dos pensamentos. Isso logo se reflete em tensões nervosas e musculares. Nessas palestras Yasutani Roshi também salienta como as costas encurvadas afetam o vigor e clareza da mente, levando ao entorpecimento e ao tédio.

Esta coluna ereta e a paralela ordenação da mente são mais fáceis de manter por um longo período se as pernas estão no postura de lótus completa ou meia lótus e a atenção concentrada na região logo abaixo do umbigo.

Além disso, uma vez que o corpo é o aspecto material da mente e a mente o aspecto imaterial do corpo, reunir as mãos e braços e os pés e pernas em uma unidade em um ponto central onde as mãos unidas repousam nos calcanhares, com as pernas entrelaçadas, como na postura de lótus completa, facilita a unificação da mente.

Finalmente, embora de forma imperceptível, a postura do lótus cria uma sensação de enraizamento na terra junto com um sentimento de unidade que tudo abrange, eliminando a sensação de interior ou exterior. Isso é verdade, no entanto, apenas quando esta posição pode ser assumida e mantida sem desconforto.

Por todas essas razões, o Zen, como a personificação dos ensinamentos e da prática fundamentais de Buda, ao longo de sua longa história tem seguido o método de sentar-se de Buda como a maneira mais direta e prática de conseguir o vazio da mente e finalmente, a iluminação.

Isso não significa, no entanto, que o zazen não possa ser praticado ou o satori atingido a menos que a pessoa se sente na postura de lótus total ou meio-lótus. Zazen pode, de fato, ser eficaz mesmo em uma cadeira ou banco ou ajoelhado, desde que as costas estejam retas.

Um último recurso que garante o sucesso na busca pela iluminação não é uma postura particular, mas um intenso anseio pela verdade por ela mesma, o que por si só leva uma pessoa a se sentar corretamente em qualquer posiçao e a executar todas as suas tarefas da vida cotidiana com devoção e plena consciência. Mas o zazen sempre foi considerado como fundamental para a disciplina Zen simplesmente porque séculos de experiência demonstram que é a maneira mais fácil de acalmar a mente e levá-la a um ponto preciso para ser usada como um instrumento de descoberta do Eu.

Na longa história do Zen, milhares e milhares alcançaram a iluminação através do zazen, enquanto são raras as experiências genuínas de iluminação sem ele. Se até mesmo o Buda e Bodhidharma, como Dogen nos lembra, precisaram sentar-se, nenhum aspirante poderá certamente prescindir do zazen.

O kensho (ou satori) é apenas a primeira intuiçao da Verdade, e quer seja esta apenas um vislumbre ou uma visão nítida e profunda, poderá ser sempre ampliada por meio do zazen. Além disso, é bom lembrar que, a menos que seja reforçada pelo joriki (o poder particular desenvolvido por meio do zazen), a visão da Unidade alcançado na iluminação, especialmente se tiver sido fraca no inicio, com o tempo se tornará obscurecida finalmente se transformará em uma memória agradável ao invés de conservar-se como realidade sempre presente,  modelando nossa vida diária.

O que não devemos perder de vista, no entanto, é que zazen é mais do que apenas um meio para a iluminação ou uma técnica para sustenta-la e amplia-la, mas é a atualização de nossa verdadeira natureza. Portanto, tem um valor absoluto. Yasutani Roshi enfatiza este ponto em suas palestras, bem como em suas entrevistas com dez ocidentais.

Não poderá haver dúvida de que, para a maioria dos ocidentais, que parecem ser por natureza mais ativos e inquietos do que os asiáticos, sentar-se perfeitamente imóvel no zazen, mesmo em uma cadeira, é física e mentalmente penoso. A sua relutancia em suportar tanta dor e desconforto mesmo por curtos períodos do tempo, sem dúvida, decorre de uma convicção profunda de que não é apenas sem sentido, mas tambem masoquista aceitar a dor deliberadamente quando existem maneiras de evitá-la ou mitigá-la. Sem surpresa, portanto, temos a tentativa por parte de alguns comentaristas, obviamente sem prática no Zen, para mostrar que sentar não é indispensável para a disciplina zen.

(…) Sem o zazen, seja o da modalidade imóvel seja o da modalidade em movimento, não podemos falar de treinamento do discípulo ou da prática Zen. O koan Nangaku e todos os outros apontam para a mente-Buda com que somos dotados, mas não ensinam como perceber a realidade desta mente. A compreensão desta verdade mais sublime exige dedicação e apoio exterior, o que significa a prática pura e fiel de zazen.

A tentativa de abandonar o zazen como não essencial e sem tanta importancia é, no fundo, nada mais do que uma racionalização de uma relutancia em se esforçar em prol da verdade, com a implicação óbvia de que, de fato, não existe um desejo real pela verdade. Em seu Shobogenzo, Dogen questiona aqueles que se identificam com os mais elevados ideais de Buda ainda assim, evitam o esforço necessário para colocá-los em prática:

“O sublime Caminho do Buda e dos Ancestrais envolve as mais intensas formas de esforço, que continuam incessantemente em ciclos desde o primeiro alvorecer da verdade religiosa, através do teste da disciplina e da prática, até a iluminação e ao Nirvana. O esforço é mantido, prosseguindo sem interrupção de ciclo em ciclo. Este esforço contínuo não é algo que os homens da mundo naturalmente amam ou desejam, mas é o último de todos os refúgios. Apenas através do esforço de todos os Budas no passado, presente e futuro é que os Budas do passado, presente e futuro se tornam um realidade. . . . Por este esforço, o estado Buda se realiza, e aqueles quem não fazem esforço quando o esforço é possível são aqueles que odeiam Buda, odeiam servir a Buda e odeiam o esforço; eles não querem viver e morrer com Buda, eles não o querem como mestre e companheiro”.(…)

SOBRE O LIVRO “OS TRÊS PILARES DO ZEN”, de Philip Kapleau (retirado de http://www.nossacasa.net/shunya/os-tres-pilares-do-zen/)

Obra capital de Roshi Philip Kapleau, fundador e diretor espiritual de Zen Center de Rochester, EEUU, que viveu treze anos em mosteiros, sob a orientação dos maiores mestres do zen japonês.

OS TRES PILARES DO ZEN é um texto fundamental e indispensável a quantos aspiram sua liberação e realização através do zen — esta nova arte de viver — via fascinante que conduz à paz, fonte de saúde e silêncio interior, em meio ao conturbado mundo de hoje.


PREFACIO DO ORGANIZADOR

Apresentado em poucas palavras, o Zen é uma religião com um método simples de treinamento corpo-mente, cuja finalidade é o satori, isto é, a auto-realização. Do princípio ao fim deste volume tentei transmitir o caráter essencialmente religioso e o espírito do Zen-sim, seus rituais e símbolos, seus atrativos para o coração e não menos para a mente — pois, como caminho budista de liberação, o Zen é muito seguramente uma religião. Fundamentada nos mais altos ensinamentos de Buda, foi trazida da Índia para a China, onde os métodos e técnicas que são característicos do Zen se desenvolveram, através dos séculos, foram sendo aperfeiçoados no Japão. O Zen-budismo é portanto a consumação das experiências espirituais de três grandes civilizações asiáticas. Hoje no Japão esta tradição ainda permanece muito viva; nos templos Zen, nos mosteiros e nos lares, homens e mulheres de todas as categorias sociais encontram-se ativamente engajadas no zazen, a principal disciplina do Zen.

Em seu nível mais profundo, como acontece em todas as demais grandes religiões, transcende seus ensinamentos e práticas, embora, ao mesmo tempo, não exista Zen independentemente destas mesmas práticas. A tentativa no Ocidente de isolar o Zen no vácuo do intelecto, cortado de sua genuína disciplina que é sua “raison d’être”, gerou um pseudo-Zen que é pouco mais do que uma cócega mental para divertir os intelectuais e uma brincadeira dos beatniks.

A melhor forma de corrigir esta distorção, parece-me, seria compilar um livro apresentando a autêntica doutrina e práticas do Zen, colhidas dos próprios lábios dos mestres pois quem conhece os métodos melhor do que eles? — assim como mostrá-los vivenciados pelas mentes e corpos de homens e mulheres de hoje. Assim fiz, principalmente através do mestre contemporâneo Soto, Yasutani-roshi; de um mestre Rinzai do século XIV, Bassui-zenji; e dos casos de iluminação de japoneses e americanos seguidores do Zen. As conferências introdutórias de Yasutani-roshi sobre a prática do Zen. sua palestra (teisho) sobre o koan-Mu, e suas instruções particulares (dokusan) para dez de seus discípulos ocidentais, formam um conjunto que inclui a totalidade da estrutura do treinamento Zen na sua seqüência tradicional. Faltando o acesso a um roshi de confiança, mas desejando alguém, mesmo assim, disciplinar-se pelo Zen, encontrará neste material somente um manual de instrução pessoal.

Tanto as disciplinas Soto como a Rinzai, creio, são aqui apresentadas — pela primeira vez em língua européia — como corpo integral do ensinamento Zen, e esta experiência não é acadêmica, mas bem vivida. Por enquanto o Ocidente conhece pouco o Soto. Os intérpretes mais conhecidos do Zen no Ocidente, entusiasmados com o Rinzai, deram pouca atenção aos métodos e doutrinas do Dogen-zenji, o pai do Zen Soto japonês e, na opinião de muitos, a mais fecunda mente que o budismo japonês produziu. Não é por isso, surpreendente que um grande número de shikan-taza ocidentais, orientados pelo Zen, o coração da disciplina de meditação de Dogen, seja quase um enigma. Neste volume, os objetivos e métodos da shikan-taza, assim os do koan zazen, o sustentáculo principal da seita Rinzai, são expostos com toda a autoridade por Yasutani-roshi, que utiliza ambos no seu próprio sistema de ensino.

Nas introduções apresentei o plano de fundo e o material suplementar que julguei oportuno para ajudar o leitor a compreender a matéria de cada parte, mas resisti à tentação de analisar ou interpretar os ensinamentos do mestre. Tal coisa só encorajaria o leitor a reinterpretar minhas interpretações e, querendo ou não, ele se encontraria tragado pela areia movediça da especulação e da auto-glorificação, das quais um dia, se praticasse com seriedade o Zen, teria penosamente de se livrar. Pois, exatamente por este motivo, a “traficância de idéia” sempre foi desencorajada pelos mestres Zen.

Este livro deve imensamente a muita gente. Em primeiro lugar e sobretudo, deve enormes obrigações ao mestre Zen Yasutani, cujos ensinamentos preenchem mais de metade do livro e que graciosamente permitiu estivessem ao alcance de um público mais amplo. Meus colaboradores e eu mesmo, todos discípulos seus, estamos profundamente gratos por seus conselhos cheios de sabedoria e o espírito magnânimo com que nos inspirou do princípio ao fim deste livro.

Devo agradecimentos especiais à Dra. Carmen Blaker, da Universidade de Cambridge. Suas traduções simultâneas de muitas conferências de Yasutani-roshi sobre a prática do Zen foram por mim incorporadas às traduções que aparecem neste livro. Além disto, tomei a liberdade de adotar sem alteração, diversos parágrafos de suas próprias traduções de partes deste mesmo material, que foi publicado na revista budista inglesa The Middle Way, uma vez que sua forma de expressão era tão apropriada que eu mal poderia esperar melhorá-la.

Sou extremamente grato a Dr. Huston Smith, professor de Filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachnsetts e autor do The Religion ofMan, por seus conselhos valiosos e encorajamentos na primeira fase do manuscrito e por seu prefácio.

Reconheço agradecido a ajuda de Brigitte D’Ortschy, uma amiga dharma. Sua leitura atenta de todo o manuscrito deu origem a muitas e valiosas sugestões.

Meredith Weatherby e Ralph Friedrich, ambos do John Weatherhill, mc., em Tóquio, foram editores muito compreensivos durante toda a preparação deste livro e lhes sou grató por seu auxílio.

A gratidão a minha esposa, deLancey, não é menor. Em todas as fases da redação ela me encorajou e trabalhou comigo. Na verdade, durante muitos anos estes trabalhos constituíram sua prática mais importante do zazen. Também lhe devo os desenhos das posturas do zazen.

As dez figuras da criação do boi da VIII parte foram usadas com a gentil permissão do artista Gyokusei Jikihara. É ele um pintor contemporâneo altamente considerado em Kyoto e um discípulo leigo de Shibayama-roshi, o antigo abade do Mosteiro Nanzen, sob cuja orientação treinou no Zen durante muitos anos.

Devo uma menção especial aos nomes de meus dois colaboradores nas traduções, Kyozo Yamada e Akira Kubota. O Sr. Yamada disciplinou-se no Zen durante vinte anos. o sucessor Dharma de Yasutani-roshi e freqüentemente o substitui. Há muito tempo concluiu os seiscentos koans dados por Yasutani-roshi e recebeu dele o inka Trabalhamos juntos nestas traduções: o sermão de Bassui sobre a mente-una e as cartas, partes das cartas de Iwasaki, os dez versos da criação do Boi, as citações de Dogen e de outros antigos mestres, e o extrato do Shobogenzo de Dogen. Sem os seus sábios conselhos e generosa assistência, minha tarefa teria sido muitíssimo mais difícil, se não impossível, e lhe sou imensamente grato.

Akira Kubota, meu segundo colaborador, treinou sob a orientação de Yasutani-roshi uns quinze anos, e é dos seus principais discípulos. Juntos traduzimos as conferências sobre o koan Mu, partes das cartas de Lwasaki e o quarto e sexto relatos na parte das experiências de iluminação. Reconheço o quanto lhe devo por seu trabalho tão consciencioso.

Em nossas traduções empenhamo-nos em evitar os perigos, seja por um lado, de uma livre e imaginosa interpretação, seja por outro lado de uma versão. exata e literal. Se nos tivéssemos rendido àquela primeira tentação, alcançaríamos uma elegância de estilo que agora nos falta, mas seria à custa daquele decidido vigor e da repetição intencional que é forma característica do ensino Zen. Por outro lado, se nos tivéssemos escravizado à letra dos textos, teríamos inevitavelmente feito violência a seu espírito e obscurecido assim seu sentido interior mais profundo.

Nossas traduções são interpretativas no sentido de que toda tradução implica a constante escolha de uma das diversas alternativas de expressão que o tradutor julga convir melhor ao sentido do original. Numa tradução comum, dependerá da aptidão lingüística e da familiaridade do tradutor com o assunto que suas escolhas sejam ou não adequadas. No entanto, os textos do Zen se situam numa categoria especial. Desde que são invariavelmente sóbrios e expressivos e os ideogramas em que são redigidos susceptíveis de várias interpretações, uma referência chave freqüentemente traz consigo todo um espectro de idéias, e fazer a seleção do verdadeiro sentido para um contexto particular, exige do tradutor algo mais do que acuidade filológica ou extenso conhecimento acadêmico do Zen. No nosso ponto de vista, exige-se nada menos do que o treinamento do Zen e a experiência da iluminação, sem a qual o tradutor estará quase certo de prejudicar a clareza e mutilar o vigor do original em aspectos importantes.

Por esse motivo não será inoportuno salientar aqui o fato de que cada um dos tradutores treinou por muito tempo o Zen sob a orientação de um ou mais mestres reconhecidos, e de certa forma abriu os olhos da Mente.

Desde que o presente livro se dirige ao leitor em geral, mais do que a especialistas em Zen-budismo, dispensei os sinais diacríticos, que podem ser enfadonhos para quem não conhece o japonês, o chinês e o sânscrito. Mesmo correndo o risco de alguma imprecisão, dispensei, sempre que possível, o uso dos grifos, para não cortar o sentido das frases. No corpo do livro segui o costume japonês de escrever os nomes dos mestres chineses do Zen e outros termos chineses de acordo com sua pronúncia japonesa. Assim como falamos de Zen ao invés de Ch‘an budismo, mas nas notas do vocabulário, na parte final indiquei em parênteses a pronúncia chinesa aceita no uso comum. Solicitamos aos estudiosos chineses que se exasperam com tal método, que se lembrem de que o Zen-budismo está no Japão há quase mil anos e por isso faz legitimamente parte da vida e da cultura japonesa. Dificilmente teria sobrevivido por tanto tempo e sido impacto tão forte para os japoneses, se não tivessem abandonado a pronúncia chinesa estrangeira e para eles incômoda.

Ao escrever os nomes dos mestres japoneses aderi ao costume japonês tradicional de empregar o principal nome budista em primeiro lugar. Entretanto, quando se trata do japonês moderno, seja nome de mestres ou de leigos, adotei o estilo ocidental que usa, naturalmente, o inverso, uma vez que eles mesmos escrevem assim seus nomes em inglês. Quando vem o título imediatamente depois do nome (como em Yasutani-roshi ou Dogen-zenji), por causa da euforia, escrevi o nome e o título de acordo com o estilo tradicional japonês, como está aqui indicado.

Os nomes técnicos Zen e termos budistas especiais não definidos no texto são explicados na X parte, notas sobre o vocabulário Zen.

Ainda que a organização do livro seja o método natural do ensinamento, prática e iluminação, cada parte é completa em si mesma e poderá ser lida ao acaso, de acordo com o gosto do leitor.

Todas as notas, no livro inteiro, são minhas.

Philip Kapleau
Kamakura, 8 de dezembro de 1964.


> Shobogenzo Zuimonki (2) – Livro 1 Parte 1

“Uma vez que ser uma criança Buda é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente, devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza, que é a essência da vida neste sorin (monastério) hoje. Repense sobre isso profundamente”

Palavras chave: RELÍQUIAS DE BUDA; ADORAÇÃO A IMAGENS; VERDADEIRA PRÁTICA; ESSÊNCIA DOS ENSINAMENTOS DE BUDA; SHIKANTAZA; ZAZEN

LIVRO 1

1-1

Um dia Dogen disse,

No Zoku-kosoden (Biografias Continuadas de Monges Eminentes)[1], há uma estória sobre um monge na assembleia de um certo mestre Zen. O monge adorava uma imagem de ouro de Buda, bem como as relíquias de Buda[2]. Mesmo no dormitório[3], ele continuamente queimava incenso e se prostrava perante elas, honrando e fazendo oferendas.

Um dia, o mestre disse ao monge: “A imagem e as relíquias de Buda, que você adora, acabarão sendo prejudiciais a você”.

O monge não estava convencido.

O mestre continuou: “Isso é obra do demônio Papiyas[4]. Jogue-as fora imediatamente”.

Quando o monge estava saindo raivoso, o mestre gritou por detrás dele: “Abra a caixa e olhe dentro dela!”

 Embora enfurecido, o monge abriu a caixa; deitada dentro dela ele encontrou uma cobra venenosa enrolada.

Considerando essa estória, as imagens e relíquias de Buda deveriam ser reverenciadas, uma vez que são a forma e os ossos deixados pelo Tatagata[5]; entretanto, é uma falsa visão[6]pensar que você será capaz de alcançar iluminação meramente através de sua adoração a elas. Tal visão fará com que você seja possuído pelo demônio e pela cobra venenosa.

 Tendo em vista que o mérito dos ensinamentos de Buda não muda, a reverência a imagens e relíquias por certo trará bênçãos aos seres humanos e celestiais[7] tanto quanto prestar reverencias ao Buda vivo. De modo geral, é verdade que se você reverenciar e fizer ofertas ao mundo dos Três Tesouros[8], suas falhas desaparecerão e você ganhará mérito; o karma que leva você aos reinos maléficos[9] será removido e você renascerá nos reinos dos seres humanos e celestiais. Entretanto, é uma visão equivocada esperar obter iluminação do darma desta maneira.

Uma vez que ser uma criança Buda[10] é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente[11], devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza[12], que é a essência da vida neste sorin (monastério)[13] hoje. Repense sobre isso profundamente.

NOTAS

[1] O Zoku-kosoden (Xu-gaosengzhuan) foi compilado por Nanzan Dosen (Nanshan Daoxuan, 596-667), fundador da Escola Nanzan-ritsu. Esta coleção de trinta volumes inclui as biografias dos monges da dinastia Liang (502-557) até o inicio da dinastia Tang (618-907). 

[2] Skt., sarira. Depois que Xaquiamuni morreu, suas relíquias foram divididas em oito porções e preservadas nas stupas erigidas por seus alunos leigos nos vários distritos na Índia. Desde então, as relíquias de Buda têm sido objeto de adoração por pessoas leigas.

[3]Shuryo, em japonês, é uma sala de estudo, para se tomar chá ou para descanso nos monastérios Zen. Kannon Bodisatva está preservada no shuryo.

[4] Temma-hajin, em japonês. Temma significa um demônio celestial, rei do céu Paranirmitavasavartin (takejizai-ten) e é assim chamado porque causa entraves para aqueles que seguem o Caminho Budista. Hajun (Papiyas, em sânscrito) é o nome do demônio.

[5]Nyorai, em japonês, um dos epítetos do Buda. Literalmente, Nyorai significa “que assim veio” ou “que assim foi”, popularmente interpretado como “aquele que veio (foi) do assim como é”.  

[6] Uma visão incorreta que vai contra o darma ou que impede as pessoas de verem a realidade tal como ela é, ou a qual negligencia o princípio de causa e efeito.

[7] Seres humanos e seres celestiais ainda estão no reino do samsara. O termo original japonês para “uma benção” é fukubun, que significa as causas que ocasionam a felicidade nos mundos humano e celestial. Em contraposição a fukubun está dobun, a causa para o Caminho que transcende o samsara, ou seja, o mundo humano e celestial.

[8] Os Três Tesouros no Budismo são: 1) o buda, aquele que está desperto para a realidade e a ensina, 2) o darma, a realidade e o ensinamento que aponta para a realidade e 3) a sanga, a comunidade de pessoas que seguem o ensinamento. O mundo dos Três Tesouros é bastante diferente do reino do samsara baseado em delusões ou em desejos.

[9]O samsara é categorizado em seis reinos: inferno, o reino dos espíritos insaciáveis, animais, demônios asura, humanos e seres celestiais. Os três primeiros são chamados de reinos maléficos enquanto os outros três são chamados de bons reinos. Algumas vezes, os primeiros quatro são chamados de reinos maléficos e os últimos dois são chamados de bons reinos.   

[10] Seres humanos tornam-se crianças de Buda ao receber os preceitos de Buda por meio da ordenação.

[11] No Shobogenzo Sanjushichihon-bodaibunpo Dogen disse: “O grande professor Xaquiamuni abandonou a sucessão a seu pai na posição de rei não porque ela fosse indigna, mas porque ele iria suceder na posição de buda, a qual era imcomparavelmente preciosa. A posição de Buda é a posição de um monge sem teto. Esta é a posição reverenciada por todos os seres humanos e celestiais. Esta é a posição de suprema consciência (annutara-samyak-sambodhi).

[12]Literalmente, significa “apenas sentar”. No Bendowa Dogen, citando seu professor, escreveu: “De acordo com a inequívoca tradição herdada, esse buda-darma, que tem sido singular e diretamente transmitido, é supremo acima de qualquer comparação. A partir do momento em que você começa a praticar com um professor, queimar incenso, curvar-se, nenbutsu, tanto quanto as práticas de recitação ou leitura dos sutras, são desnecessárias. Simplesmente pratique o zazen (shikantaza), deixando cair corpo e mente”. Shikantaza é zazen quando praticado sem esperar nenhuma recompensa, mesmo iluminação. É apenas ser você mesmo, bem aqui, neste exato momento.

[13]Literalmente, sorin significa uma floresta na qual vários tipos de árvores estão vivendo juntas. Em um monastério, todos os praticantes com suas diferentes personalidades, capacidades e experiências de vida vivem juntos com mente bodai unificada; portanto monastérios Zen são chamados de sorin.