> Shobogenzo Zuimonki (7) – Livro 1 Parte 6

A ação de Buda e a ação criminal são separadas, ainda assim ambas ocorrem em uma ação“.

Palavras chave: PRECEITOS; VIOLAÇÃO DOS PRECEITOS; ARREPENDIMENTO; MESTRE EISAI; NANSEN E O GATO

LIVRO 1

1-6

Uma vez Ejo perguntou,

“Qual o significado de não ser cego para causa e efeito?”[1]

Dogen respondeu: “Não mover causa e efeito”

Ejo perguntou: “Como então poderemos ser liberados?”

Dogen disse: “Causa e efeito são autoevidentes.”[2]

Ejo seguiu indagando: “Então, é a causa que acarreta o efeito ou o efeito que gera a causa?”

Disse Dogen: “Se assim é em todo caso, o que dizer de Nansen[3]  ter matado o gato? Quando seus alunos não puderam dizer nada, Nansen imediatamente matou o gato. Mais tarde, quando Joshu (Zhaozhou) ouviu sobre o incidente, colocou sua sandália de palha sobre a cabeça e saiu. Isso foi uma ação excelente”.

Dogen acrescentou: “Se eu fosse Nansen, teria dito – ‘Se vocês não podem falar, matarei o gato; mesmo que falem, irei matá-lo. Quem lutaria por um gato? Quem pode salvar o gato? Em nome dos alunos, eu teria dito, eu teria dito – ‘Nós não somos capazes de falar, Mestre. Vá em frente e mate o gato!’ Ou, eu teria dito por eles – ‘Mestre, você só sabe como cortá-lo (o gato) em dois com um golpe, entretanto, você não sabe como cortá-lo em um com um golpe”.

Ejo perguntou: “Como você o corta em um com um golpe?”

Dogen disse: “O próprio gato”; e acrescentou, “Se eu fosse Nansen, quando os alunos não puderam responder, eu teria libertado o gato dizendo que os alunos já haviam falado. Um mestre antigo disse, ‘Quando a grande função se manifesta a si mesma, não existem regras fixas”[4].

Dogen também disse: “Esta ação de Nansen, ou seja, de cortar o gato, é a manifestação da grande-função do darma de Buda. Esta é uma palavra-chave.[5] Se ela não fosse uma palavra-chave, não poderia ser dito que montanhas, rios e a grande Terra são a pura e clara Mente[6]. Ou não poderia ser dito que a Mente em si é o Buda. Ao ouvir esta palavra-chave, veja o próprio gato como nada além do corpo-Buda. Ao ouvirem esta palavra, os alunos devem imediatamente entrar em iluminação.

Dogen prosseguiu: “Esta ação, ou seja, de cortar o gato, não é nada mais do que uma ação de Buda”.

Ejo perguntou: “Como devemos chamá-la?”

Dogen respondeu: “Chame-a de cortar o gato”

Ejo perguntou: “Isso é um crime ou não?”

Dogen disse: “Sim, é um crime”.

Ejo inquiriu: “Como poderemos nos liberar dela?”

Dogen disse: “A ação de Buda e a ação criminal são separadas, ainda assim ambas ocorrem em uma ação”.

Ejo perguntou: “É isso o que os Preceitos Pratimoksa[7] significam (emancipação caso a caso)?”

Dogen disse: “Sim, é isso. Embora esteja tudo bem, é melhor não usar tal método.”

Ejo perguntou: “O termo ‘violação dos preceitos” se refere aos crimes cometidos depois de ter recebido os preceitos? Ou os crimes cometidos antes de receber os preceitos também são chamados ‘violação dos preceitos’?

Dogen respondeu: “Violação dos preceitos se aplica apenas para àqueles crimes cometidos depois de os preceitos terem sido recebidos. Crimes cometidos antes de os preceitos terem sido recebidos são chamados apenas de crimes ou ações más. Eles não devem ser chamados de ‘violação dos preceitos’”.

Ejo comentou: ‘Dentre os quarenta e oito preceitos menores[8], há um que afirma que crimes cometidos antes de receber os preceitos são chamados violações.”

Dogen respondeu: “Isso não é verdade. O que isso significa é que uma pessoa prestes a receber os preceitos deve se arrepender[9] de ações más cometidas no passado. De acordo com os dez preceitos maiores ou os quarenta e oito preceitos menores, tais ações más são chamadas violações. Os crimes cometidos antes não são chamados ‘violação dos preceitos”.

Ejo colocou essa questão: “No Sutra dos Preceitos, diz-se que quando uma pessoa recebe os preceitos deve se arrepender das maldades cometidas até então. O mestre tem que ensinar os preceitos maiores e menores e fazer com que os alunos os recitem. Entretanto, na próxima seção do sutra, diz-se que você não deveria pregar sobre os preceitos a pessoas que ainda não os tenha recebido. Como devemos resolver esta contradição?”

Dogen respondeu: “Receber os preceitos e recitar os preceitos são coisas diferentes. Recitar o Sutra dos Preceitos pelo bem do arrependimento não é nada mais do que ler os sutras. Portanto, uma pessoa que não tenha ainda recebido os preceitos também recita o Sutra dos Preceitos. Não pode ser errado explicar o Sutra dos Preceitos a ela. O que a última parte do sutra diz é que você não deveria pregar os preceitos a pessoas que ainda não os tenha recebido pelo propósito de obter lucro. Você certamente deveria ensinar os preceitos de modo a que as pessoas se arrependam de suas ações más”.

Ejo perguntou: “Embora se diga que a uma pessoa que cometeu os sete crimes graves[10] não é permitido receber os preceitos, a última parte do sutra diz que também devem se arrepender dos sete graves crimes. O que isso significa?

Dogen respondeu: “Eles certamente devem se arrepender. O significado desta passagem ‘A eles não é permitido receber os preceitos’ tem o propósito de inibir o cometimento dos sete-crimes-graves. A antiga sentença significa que mesmo que alguém viole os preceitos, será puro quando receber novamente os preceitos. Quando a pessoa se arrepende, ela é pura. É diferente de uma pessoa que não tenha ainda recebido os preceitos”.

Ejo perguntou: “Se a alguém que cometeu algum dos sete crimes graves é permitido se arrepender, ele pode receber os preceitos novamente?”

Dogen respondeu: “Sim. O falecido Mestre Eisai insistiu nisso. Uma vez que a uma pessoa que tenha cometido um dos sete crimes graves seja permitido se arrepender, ela também tem a permissão de receber os preceitos. O professor deveria permitir que uma pessoa que tenha se arrependido receba os preceitos, mesmo alguém que tenha cometido os sete crimes graves. Mesmo que o próprio professor viole os preceitos ao fazer isso, como um bodisatva, com o objetivo de salvar aquela pessoa, ele tem que permitir que ela os receba”.


[1]Esta é uma citação tirada de uma estória sobre Hyakujo Ekai (Baizhang Huihai) e um velho senhor (8º. caso do Shoyoroku; 2º. caso do Mumonkan). Sempre que Hyakujo dava palestras, havia um velho sempre presente. Quando os monges iam embora depois da palestra, ele também ia. Um dia, o velho não foi embora. Hyakujo perguntou a ele: “Quem está de pé à minha frente?” O velho disse: “No tempo de Kashapa-Buda no passado distante, eu estava vivendo nesta montanha. Uma vez um aluno me perguntou se uma pessoa com grande prática cairia na causalidade ou não. Eu respondi a ele: ‘Não, (tal pessoa) não cairia em causalidade’. Por causa daquela resposta eu me tornei uma raposa selvagem por quinhentas vidas. Eu imploro que você, por favor, me dê uma palavra-chave.” Hyakujo respondeu: “(Tal pessoa) não é cega para a causalidade”. Dogen fez seu próprio comentário sobre esta estória no Shobogenzo Daishugyo (A Grande Prática) e no Shobogenzo Jinshin-inga (Ter profunda Fé em Causa e Efeito).

[2]Na versão Choenji-bon, nesta passagem lê-se: “Causa e efeito são auto-evidentes e ocorrem simultaneamente”, tornando mais natural a conexão entre esta sentença e a próxima.  

[3]Referência à estória de Nansen Fugan (Nanquan Puyuan, 749-834) e seus discípulos (9º. caso de Shoyoroku; 14º. caso do Mumonkan). Um dia, os monges das alas ocidental e oriental no monastério de Nansen discutiam a respeito de um gato. Vendo aquilo, Nansen pegou o gato e disse: “Se alguém puder falar, não matarei o gato”. Ninguém na assembleia falou. Nansen cortou o gato em dois. Mais tarde, Nansen relatou o incidente a Joshu (Zhaozhou Congshen, 778-895) e perguntou o que ele achava sobre isso. Joshu pegou sua sandália, colocou-a na cabeça e saiu. Nansen disse: “Se você estivesse aqui, teria salvo o gato”.

[4]Esta expressão é encontrada no terceiro caso do Hekiganroku (The Blue Cliff Records).

[5]Uma poderosa palavra ou frase que vira de cabeça para baixo a base da pessoa que a ouve.

[6]Neste Shobogenzo Sokushinzebutsu Dogen cita de um velho mestre: “Como é a mente excelente, pura e brilhante? Montanhas, rios e a grande Terra, o sol, a lua e as estrelas”. E Dogen disse: “Deveria ser claramente entendido que a Mente é montanhas, rios e a grande Terra, o sol, a lua e as estrelas”.

[7]No Yukyogyo (O Sutra do Último Discurso), o Buda disse: “Monges, depois de minha morte, respeitem e sigam o pratimoksa. Se o fizerem, serão como uma pessoa a quem foi dada uma luz na escuridão, ou como o pobre que adquiriu um  grande tesouro”.

[8]Veja 1-2, nota de rodapé 5.

[9]Nos encontros de fusatsu (Sânsc., uposata), tanto quanto no momento de receber os preceitos na ordenação, uma pessoa arrepende-se de todos os erros cometidos no passado. O verso seguinte de arrependimento é dito durante a recitação de sutra. “Todo Carma prejudicial alguma vez cometido por mim, desde tempos imemoriáveis devido à minha ganância, raiva e ignorância sem limites, nascido de meu corpo, boca e mente agora, de tudo eu me arrependo.”

[10]Os sete graves crimes são: machucar o corpo de Buda, matar o próprio pai, matar a própria mãe, matar o professor do qual se recebeu a ordenação, matar o professor com quem se estuda, causar desunião na sanga, matar um sábio (arhat).