> Shobogenzo Zuimonki (15) – Livro 1 Parte 14

Se tentarmos aprender muitas coisas sobre o sublime e ilimitado darma de Buda, não alcançaremos nem mesmo uma única coisa. Mesmo que nos devotemos a apenas uma coisa, por conta de nossa capacidade e natureza inferiores, será difícil esclarecer o darma de Buda completamente em uma vida. Alunos, concentrem-se em uma coisa“.

Palavras chave: VERDADEIRA PRATICA; PRATICA PRINCIPAL; ZAZEN; DILIGENCIA

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Em uma palestra vespertina, Dogen disse:

Mesmo pessoas no mundo laico devem se concentrar em uma coisa e aprendê-la tão completamente a ponto de serem capazes de praticá-la perante os outros, ao invés de aprender muitas coisas ao mesmo tempo, sem realmente dominar nenhuma delas.

Isso é ainda mais verdadeiro para o darma de Buda, que transcende o mundo laico, e não tem sido aprendido nem praticado desde o início imemoriável. Ainda não estamos familiarizados com ele. Do mesmo modo, nossa capacidade é limitada. Se tentarmos aprender muitas coisas sobre o sublime e ilimitado darma de Buda, não alcançaremos nem mesmo uma única coisa. Mesmo que nos devotemos a apenas uma coisa, por conta de nossa capacidade e natureza inferiores, será difícil esclarecer o darma de Buda completamente em uma vida. Alunos, concentrem-se em uma coisa.

Ejo perguntou: “Se é assim, qual coisa ou qual prática deveríamos escolher para nos devotarmos entre as várias maneiras de se praticar o darma de Buda?

Dogen respondeu: “Depende do caráter ou da capacidade da pessoa; entretanto, até agora, é o zazen que tem sido passado adiante e priorizado/enfatizado nas comunidades dos ancestrais. Esta prática é adequada a todas as pessoas e pode ser praticada por aqueles com capacidade superior, medíocre ou inferior. Quando eu estava na China, na assembleia de meu antigo professor Tendo Nyojo, eu sentei zazen dia e noite após ter ouvido esta verdade. Quando estava extremamente quente ou frio, os monges de lá paravam de sentar por um tempo porque ficavam com medo de adoecer. Naquele momento, pensei comigo mesmo: ‘Pode ser que eu fique doente e morra. Ainda assim, devo apenas praticar zazen. Qual a utilidade de me apegar a este corpo? Como posso me abster da prática quando não estou doente? Morrer de alguma doença por causa da prática está em concordância com meu desejo original. Antes de mais nada, sou afortunado por ser capaz de praticar e morrer em uma assembleia sob a orientação de um bom professor na grande China e ser enterrado por pessoas grandiosas em um autêntico funeral budista. Se fosse para eu morrer no Japão, seria impossível ter um serviço funeral realizado por tais pessoas de acordo com rituais budistas. Se eu fosse morrer durante a prática antes de realizar iluminação, eu nasceria novamente na família de Buda por ter estabelecido esta relação. É sem sentido viver muito tempo sem praticar. É inútil. Além do mais, mesmo se eu desejasse manter meu corpo seguro e saudável, eu poderia me afogar no oceano ou encontrar uma morte acidental; quão lastimável seria!’[1]

Com tal determinação, continuamente sentei ereto dia e noite. Ainda assim, nunca fiquei doente. Agora, cada um de vocês deveria praticar exclusiva e sinceramente. Dez entre dez de vocês irão obter o Caminho. Meu antigo mestre Tendo nos encorajava desta forma.”


[1] Logo depois de Dogen conhecer Tendo Nyojo, seu professor japonês Myozen, que foi para a China com ele, morreu na enfermaria do monastério. Do mesmo modo, a viagem entre China e Japão foi muito perigosa. Então, não havia nenhum exagero na resolução de Dogen.