> Resenha do livro: “Sem Buda eu não poderia ser um cristão”

Em tempos de intolerância religiosa e sectarismo crescentes, vale a pena parar para ouvir os ensinamentos do teólogo cristão norte americano Paul Knitter, no seu belíssimo livro “Without Buddha I Could not be a Christian” (“Sem Buda eu não poderia ser um cristão”).

Durante a maior parte de sua vida adulta, ele se debateu em meio a suas crenças cristãs, em sua incessante tentativa de conectar o que ele havia aprendido sobre Deus, Jesus, céu e inferno com tudo o que estava confrontando, sentindo e aprendendo como um ser humano responsável e inteligente. Mais e mais, como ele afirma, se via – um Cristão Católico por toda vida e um teólogo de profissão – tendo que se questionar sobre o que ele realmente acreditava ou podia acreditar. Foi seu contato com o Budismo que o permitiu entender e viver suas crenças cristãs de forma a manter sua integridade intelectual e confrontar-se com as contradições do mundo sem medo ou necessidade de enrijecer-se ou esconder-se atrás de dogmas impenetráveis.

Dentre vários, um dos elementos mais centrais foi a perspectiva budista de introspecção e silêncio que a seu ver, pode permitir a um cristão ir além das palavras e conceitos que tanto obscurecem o “Mistério” e propiciam verdadeiramente o “Não sou eu mais quem vive, mas o Cristo que vive em mim”.

Antes disso, ele questiona o excesso de palavras presentes no sistema religioso. Se a realidade com a qual a religiao lida é é indefinível e incompreensível, como encontrar palavras para descreve-la, tanto em sua natureza como na forma com que toca nossas vidas? Todas as religiões falam, diz ele, algumas mais do que as outras. Será que elas conseguem conciliar a imensidão de conceitos e estudos com, por exemplo, a percepção de Deus como um mistério?

Ele segue com o argumento de que talvez as palavras mesmo sejam a causa dos problemas. Não que elas sejam inúteis, obviamente, afinal estamos aqui nos comunicando através delas. No entanto, elas se tornam um problema quando a rigidez das definiçoes e as infinitas conceitualizações congelam e impedem o questionamento, a dúvida, as incertezas. Quando ocorre a morte do “não sei”, do “nunca vou saber”. Quando as coisas sao excessivamente explicadas, detalhadas, classificadas, organizadas.

Seu problema com a linguagem religiosa não é o fato das idéias nao fazerem sentido, mas é que fazem MUITO sentido; quando elas foram entendidas e explicadas muito claramente e muito definitivamente. Por conta disso, o fulcro de suas dificuldades tem sido não a falta de significado mas seu excesso; não a possibilidade de significado, mas a sua determinaçao.

Ou seja, quando um sistema de explicação (aqui falamos do religioso, mas pode ser filosófico, científico, senso comum, nao importa) faz muito sentido, quando ele é perfeito em sua lógica interna, ausente de contradições, o maior desafio que ele encontra diante de si é a realidade: prenhe de contradições, ilógica, com situações que ultrapassam a sua (nossa) capacidade de apreensão ou explicação, cheia do “mistério”que os católicos tão bem definem.

Diante disso, temos duas alternativas: seguir com nosso modelo perfeito, forçando a realidade a se encaixar nele, brigando com tudo e todos que ousam questiona-lo e dizer que ele tem limites, que não consegue explicar tudo, enfim… nos entricheiramos no nosso castelo de palavras perfeitas, criamos muros, ampliamos para um feudo e as inevitaveis consequencias: divisão (minha verdade x sua verdade), discordia (a minha verdade é mais verdade que a sua), exclusão (aqui só aceitamos os que partilham da minha verdade), censura e proibição (não pode pensar diferente). Numa infinita disputa pelo controle do discurso dominante, abrimos a arena onde não existem mais diálogos, onde não se procura mais entender a perspectiva do outro, onde não se aprende nem se aprofunda em mais nada e onde se declara morto o direito de discordar. Familiar?

Podemos, por outro lado, permitir que uma situaçao que incomoda, que abala nossos parametros conceituais, que gera um curto circuito em nossa rede de associações realmente desconstrua nossas verdades sagradas. Será que não seria esse o verdadeiro caminho espiritual?

Esta disposição para a abertura dói, por isso gera medo, por isso nos defendemos. Mas ela parece nos apontar para aquele momento da busca em que realmente sentimos que a razão não nos basta, que o barulho infernal em nossa cabeça não nos deixa escutar e encontrar o verdadeiro caminho – para dentro…