“Muitas pessoas no mundo querem ter uma boa reputação e ser apreciados não apenas pelos outros, mas também por si mesmos. Entretanto, nem sempre se fala bem delas ou as elogia. Se você gradualmente abandonar o apego ao ego e seguir os dizeres de seu professor, você progredirá. Se você retruca [fingindo] saber a verdade, mas permanece incapaz de abrir mão de certas coisas e continua a se apegar às suas próprias preferências, irá afundar mais e mais“.
Você deveria saber que se tivesse nascido em uma família que seguisse uma determinada ocupação ou se você tivesse entrado em um determinado caminho, você teria primeiro que se devotar a aprender o trabalho da família ou o caminho. Não é nada bom estudar algo que não tenha nada a ver com seu caminho ou especialidade.
Agora, uma vez que vocês deixaram suas casas e se juntaram à família de Buda e se tornaram monges, vocês deveriam aprender a prática do Buda. Aprender a prática e manter o Caminho é abandonar o apego ao ego[1] e seguir as instruções do professor. A essência disso é estar livre da ganância. Para colocar um fim na ganância, antes de qualquer coisa, você deve se separar do eu egocêntrico. Para se separar do eu egocêntrico, ver a impermanência é a principal exigência.
Muitas pessoas no mundo querem ter uma boa reputação e ser apreciados não apenas pelos outros, mas também por si mesmos. Entretanto, nem sempre se fala bem delas ou as elogia. Se você gradualmente abandonar o apego ao ego e seguir os dizeres de seu professor, você progredirá. Se você retruca [fingindo] saber a verdade, mas permanece incapaz de abrir mão de certas coisas e continua a se apegar às suas próprias preferências, irá afundar mais e mais.
Para um monge Zen, a atitude principal para o autoaperfeiçoamento é a prática de shikantaza. Sem considerar se você é esperto ou estúpido, você naturalmente melhorará se praticar zazen.
[1]Presumindo que exista um ego no corpo que é um composto temporal de vários elementos, pensando nele como sendo eterno ou substancial e apegando-se a ele. Egocentrismo. Esta é uma delusão fundamental. Nossa pratica é ver a ausência de ego e a impermanência de toda existência e viver nessa base sem desejos gananciosos. Concretamente, nossos desejos se manifestam na busca de fama e lucro. Isso é porque Dogen coloca ênfase na prática do darma de Buda apenas pelo bem do darma de Buda, sem esperar nenhuma recompensa, isto é, fama e lucro.
Na assembleia do mestre Zen Bussho (Fuzhao)[1], havia um monge que, quando estava doente, queria comer carne[2]. O mestre permitiu que ele o fizesse. Uma noite, o mestre em pessoa foi à enfermaria e viu o monge doente comendo carne sob a fraca luz de uma lamparina. Um demônio estava agarrado à cabeça do monge, comendo a carne. Embora o monge pensasse que estava a colocando dentro de sua própria boca, não era ele, mas o demônio que estava comendo. Depois disso, sempre que um monge se sentia doente, o mestre autorizava que ele comesse carne, pois ele sabia que ele estava possuído por demônios.
Pensando sobre esta história, devemos cuidadosamente considerar se devemos autorizar isso ou não. Também na assembleia de Goso Hoen (Wuzu Fayan)[3]há o relato de um caso de consumo de carne. Seja permitindo ou proibindo, todos os mestres antigos certamente tinham suas próprias deliberações profundas.
[1]Bussho (Fuzhao) é o título honorífico de Setsuan Tokko (Zhuaan Deguan, 1121-1203), o professor de Musai Ryoha (Wuji Liaopai, 1149-1224). Musai era o abade do Monastério Tendo (Tiantong) quando Dogen foi para a China. Depois que Musai morreu, Tendo Nyojo (Tiantong Rujing) tornou-se o abade do monastério. Esta seçao não é encontrada na versão Choenji-bon do Zuimonki.
[2]De acordo com terceiro preceito menor do Bonmokyo, comer carne é proibido para os Budistas mahayana porque rompe as sementes da grande compaixão.
[3]Goso Hoen (Wuzu Fayan, ?-1104). Um mestre Zen da linhagem Rinzai Chinesa. É dito que ele e seus descendentes estabeleceram a Prática de koans.
“Praticantes do Caminho certamente devem manter as regras de Hyakujo. A forma de manter as regras é receber e observar os preceitos e praticar zazen, etc. O significado de recitar o Sutra dos Preceitos dia e noite e observar os preceitos decididamente nada mais é do que praticar shikantaza, seguindo as atividades dos antigos mestres. Quando sentamos zazen, qual preceito não é observado, qual mérito não é efetivado? Os modos de prática, levados adiante pelos antigos mestres, têm um significado profundo. Sem se prender a preferencias pessoais, deveríamos agir em conformidade com a assembleia e praticar de acordo com estes modos”.
[Você] deveria manter os preceitos e as regras alimentares[1] (uma refeição por dia antes do meio dia, etc.). Ainda assim, é errado insistir sobre eles como sendo essenciais, estabelecê-los como uma prática e esperar ser capaz de obter o Caminho por observá-los. Nós os seguimos apenas porque são as atividades dos monges Zen[2] e o estilo de vida das crianças de Buda. Embora mantê-los seja algo bom, não deveríamos tomá-los como a prática principal.
Entretanto, com isso não quero dizer que você deveria quebrar os preceitos e tornar-se autoindulgente. Apegar-se a tal atitude é uma perspectiva maléfica e não aquela de um praticante budista. Seguimos os preceitos e regras simplesmente porque formam o padrão para um budista e são a tradição dos monastérios Zen. Durante minha estadia em monastérios chineses, não conheci ninguém que os tomasse como a preocupação principal.
Para a verdadeira obtenção do Caminho, devotar todo o esforço apenas ao zazen tem sido transmitido entre os budas e ancestrais[3]. Por essa razão, eu ensinei um colega estudante, Gogenbo, discípulo do Mestre Zen Eisai[4], a abandonar sua fidelidade estrita à manutenção dos preceitos e à recitação do Sutra de Preceitos[5] dia e noite.
Ejo perguntou: “Quando praticamos e aprendemos o Caminho em um monastério Zen deveríamos manter as regras puras elaboradas pelo Mestre Zen Hyakujo (Baizhang)[6], ou não? No início das Regras (Hyakujo-Shingi), diz-se que receber e manter os preceitos é pré-requisito. Nesta tradição, o Preceito Fundamental também tem sido passado adiante. Na transmissão oral e face a face desta linhagem, os alunos recebem os preceitos transmitidos do Oeste (Índia). Esses são os Preceitos do Bodisatva. Também, está dito no Sutra dos Preceitos, que as pessoas devem recitar o Sutra dia e noite. Por que você tem que interromper esta prática?
Dogen respondeu: “Você está certo. Praticantes do Caminho certamente devem manter as regras de Hyakujo. A forma de manter as regras é receber e observar os preceitos e praticar zazen, etc. O significado de recitar o Sutra dos Preceitos dia e noite e observar os preceitos decididamente[7] nada mais é do que praticar shikantaza, seguindo as atividades dos antigos mestres. Quando sentamos zazen, qual preceito não é observado, qual mérito não é efetivado? Os modos de prática, levados adiante pelos antigos mestres, têm um significado profundo. Sem se prender a preferencias pessoais, deveríamos agir em conformidade com a assembleia e praticar de acordo com estes modos.
NOTAS
[1]Durante o período Kamakura no qual Dogen viveu, havia alguns que negligenciavam os preceitos e regras e outros que enfatizavam sua observação. Como representantes do primeiro grupo temos os Budistas Terra Pura, especialmente Shinran; exemplo do último grupo foi Eisai. Parece que Dogen buscou o caminho do meio, que é manter os preceitos sem se apegar a eles, sem expectativa de alguma recompensa advindos de sua observação. Dogen enfatizava apenas mantê-los e praticar sem as contaminações dos sentimentos humanos.
[2]Noso, em japonês, literalmente significa um monge que usa um manto de retalhos remendados. O manto de retalhos se refere ao kesa (kesaya em sânscrito) feito de trapos descartados. Os monges cortavam em pedaços esses trapos descartados e os costuravam em uma peça única. Uma vez que os monges Zen usavam mantos remendados, eles foram chamados de “monges do manto remendado”. Dogen também usava a palavra “nossu” com o mesmo sentido.
[3]Em Shobogenzo Shohojisso Dogen escreveu: “A manifestação dos Budas e dos ancestrais é a manifestação da realidade máxima. Então, ser budas ou ancestrais é ser apenas como-é. A fim de sermos tal-como-é, temos que aprender e praticar a tradição dos Budas e ancestrais”.
[4]Aqui Dogen chamou-o Yojo Sojo, outro nome para o Mestre Zen Eisai (1141-1215). Sojo é o título do primeiro escalão na hierarquia Budista. Originalmente, Eisai era um monge Tendai. Quando visitou a China pela segunda vez e lá permaneceu por cinco anos, ele estudou o Zen Rinzai e o introduziu no Japão. Ele fundou Kenninji, local em que Dogen mais tarde praticou o Zen sob a supervisão de Myozen, um dos discípulos de Eisai. Dogen respeitava muito Eisai e no Zuimonki elogiou seus feitos. Há controvérsias entre pesquisadores sobre ele ter ou não efetivamente se encontrado com Eisai.
[5]Referência ao Bonmokyo (Brahmajala sutra), traduzido por Kumarajiva. Este sutra apresenta os preceitos mahayana para bodisatvas, chamados de “Preceitos do Bodisatva” ou “Preceitos Fundamentais”, que consistem em dez preceitos maiores e quarenta e oito menores. Estudiosos da atualidade acreditam que este sutra tenha sido escrito na China.
[6] Shingi, em japonês (Ch. Qinggui): regras que os estudantes deviam observar ao praticarem em monastérios Zen. O primeiro shingi foi compilado por Hyakujo Ekai (Baizhang Huihai). Por isso Hyakujo (720-814) é tido como o fundador dos monastérios Zen. O Hyakujo-shingi já não existe. No Zennen-shingi (Chanyuan-qinggui), entretanto, o primeiro capitulo trata do recebimento dos preceitos e o segundo capitulo trata sobre mantê-los. No primeiro capitulo temos o seguinte: “Ao aprender o Zen e buscar o Caminho, os preceitos são de importância primordial. Se você não se afastar dos maus feitos e se proteger do que é errado, como é possível ser um buda ou um ancestral?”.
[7]No capítulo sobre o trigésimo quarto preceito menor de Bonmokyo, está escrito que os preceitos devem ser mantidos e recitados dia e noite.