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Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (21) – Livro 1 Parte 20

“Você deveria considerar as coisas apenas pelo bem do florescimento do darma e pelo benefício dos seres vivos, todo o tempo e em qualquer situação. Fale depois de refletir cuidadosamente; aja depois de pensar com atenção; não aja precipitadamente. Pondere sobre o que é razoável em qualquer situação que você encontre. Nossa vida muda momento a momento, ela flui rapidamente dia após dia. Tudo é impermanente e muda de maneira rápida. Esta é a realidade diante de nossos olhos. Você não precisa esperar pelo ensinamento dos mestres ou sutras para enxergar isso. Em cada momento, não esteja contando que o amanhã chegará. Pense apenas neste dia e neste momento. Tendo em vista que o futuro é bastante duvidoso, e que você não pode prever o que acontecerá, você deveria decidir seguir o Caminho de Buda, apenas por hoje, enquanto você está vivo. Seguir o Caminho de Buda é abrir mão de sua vida física e agir de modo a permitir que o darma floresça e que traga benefícios aos seres vivos.”

1-20

Em uma palestra vespertina, Dogen disse:

“Hoje em dia, quase todas as pessoas, tanto leigas quanto monges, querem evidenciar aos outros quando elas fazem algo bom, e ocultar quando fazem algo ruim. Por causa disso, elas perdem a correlação entre seu eu interior e seu eu exterior. Você deve cuidadosamente buscar fazer com que a parte de dentro corresponda à parte de fora, arrepender-se das falhas e esconder sua real virtude. Não adorne sua aparência exterior. Ofereça coisas boas aos outros e aceite quando lhe oferecerem coisas ruins. ”

Alguém perguntou: “Certamente, devemos manter uma atitude de esconder nossa verdadeira virtude e não adornar nossa aparência. Ainda assim, para budas e bodisatvas, é essencial ter grande compaixão e beneficiar os seres vivos. Se monges ou leigos ignorantes encontram falhas, eles se tornarão culpados por caluniar o sacerdócio. Mesmo que eles não entendam a verdadeira virtude interior, se eles virem monges de boa aparência, os respeitarem e fizerem oferendas a eles, deve haver algum mérito que ocasione felicidade. O que devemos pensar a respeito disso? ”

Dogen respondeu: “Embora você não adorne sua aparência exterior, é irracional se tornar autoindulgente. Se você executa más ações em frente a pessoas leigas sob o pretexto de esconder sua verdadeira virtude, isso sem dúvida é uma terrível violação dos preceitos.

“Embora alguns desejem meramente obter fama como pessoas de mente bodai, e não queiram que suas faltas sejam conhecidas pelos outros, os seres celestiais, as deidades guardiãs, e os três tesouros, estão secretamente os observando. Aqui o que está sendo recriminado é uma atitude de não sentir nenhuma vergonha perante seres invisíveis, mas cobiçar a estima de pessoas mundanas. Você deveria considerar as coisas apenas pelo bem do florescimento do darma e pelo benefício dos seres vivos, todo o tempo e em qualquer situação. Fale depois de refletir cuidadosamente; aja depois de pensar com atenção; não aja precipitadamente. Pondere sobre o que é razoável em qualquer situação que você encontre. Nossa vida muda momento a momento, ela flui rapidamente dia após dia. Tudo é impermanente e muda de maneira rápida. Esta é a realidade diante de nossos olhos. Você não precisa esperar pelo ensinamento dos mestres ou sutras para enxergar isso. Em cada momento, não esteja contando que o amanhã chegará. Pense apenas neste dia e neste momento. Tendo em vista que o futuro é bastante duvidoso, e que você não pode prever o que acontecerá, você deveria decidir seguir o Caminho de Buda, apenas por hoje, enquanto você está vivo. Seguir o Caminho de Buda é abrir mão de sua vida física e agir de modo a permitir que o darma floresça e que traga benefícios aos seres vivos”.

Alguém perguntou: “De acordo com os ensinamentos de Buda, deveríamos praticar a mendicância por comida? ”

Dogen respondeu: “Sim, deveríamos”. Ainda assim temos que levar em consideração os costumes e as condições de cada país. Qualquer que seja a situação, deveríamos escolher o que é melhor para o benefício dos seres vivos a longo prazo, e para o progresso de nossa própria prática. No que se refere a mendicância, uma vez que as estradas deste país são de terra, se caminharmos por aí usando os mantos Budistas, eles ficarão enlameados. Da mesma forma, uma vez que as pessoas são pobres, talvez seja impossível mendigar da mesma forma como na Índia, ou seja, de casa em casa ao longo da estrada sem se preocupar com o fato de a pessoa ser pobre ou rica. [Se nos apegarmos a tal modo], nossa prática pode acabar regredir e seremos incapazes de funcionar com magnanimidade pelo benefício dos seres vivos. Apenas se continuarmos praticando humildemente o Caminho de Buda seguindo os costumes do país as pessoas de todas as classes irão nos apoiar fazendo ofertas por conta própria e irão praticar por si mesmas e para que o benefício dos outros seja realizado.

 O que é o melhor pelo bem do Caminho de Buda e para o benefício dos outros deve ser considerado em cada situação. Esqueça o lucro pessoal e não se preocupe com sua reputação.”

Outras

> Zazen por…. Shundo Aoyama Roshi

É um trem noturno

Enquanto dormimos

nos carrega em paz

O mestre Kodo Sawaki frequentemente citava esse poema, dizendo: “Sua respiração e pulsação de seu coração não possuem nenhuma relação com a sua vontade. Seus desejos e contrariedades também só existem enquanto você está acordado”. Quando nos damos conta de que há forças que nos mantém vivos mesmo enquanto dormimos ou cochilamos, percebemos que nossa vida está se desenrolando e se mantendo de formas que vão muito além de nossos pensamentos pequenos e de nossos sentimentos mesquinhos.

O mestre zen Dogen definiu dois tipos de “eu”. O primeiro é aquele egoísta, contido dentro de um saco de pele. A isso ele chamou de “ego”(jiga ou aga). O segundo é o que age distante da nossa vontade pessoal, obedecendo às grandes forças do Cosmo para nos envolver e dar vida. A isso ele chamou de “verdadeiro eu”(jiko). Costumo usar o termo “o outro eu”.

O ideograma de za em zazen significa “sentar”, e seu desenho lembra duas pessoas sobre a terra. Pode-se interpretar isso como uma conversa entre o nosso eu mesquinho e o nosso outro eu, que é Buda. Ou como o nosso outro eu agindo para que o nosso eu mesquinho não faça besteiras, o que é uma visao interessante.

O mestre Sawaki afirmou: “A religião é nada mais do que permitir que Buda cuide de todos os aspectos da nossa vida”. E um de seus maiores discipulos, o mestre Kôshô Uchiyama, disse: “Zazen é me crucificar”. É a mesma coisa. A prática consiste em abandonar o nosso ego até que ele morra – em outras palavras, manter-se feliz e contente até que durma satisfeito -, ao mesmo tempo que despertamos e criamos o nosso outro verdadeiro eu, repleto da vida do Universo, para viver de acordo com esse nosso verdadeiro eu.

E quanto mais esse nosso outro eu cresce e de desenvolve, mais os nossos olhos se aclaram e mais evidente se mostra o nosso ego mesquinho, sujo e irrecuperável. É nisso em que eu acredito. Novamente, a plavra do mestre Sawaki: “O paraíso também é chamado de terra 10 trilhões de léguas a oeste; essa distancia se refere ao trajeto que começa em você e termina em você mesmo”. Isso demonstra uma verdade que cala fundo em nosso coração.

Chamamos de Buda essa Verdade, essa Pulsação da Vida que nos mantém vivos e que age em níveis que transcendem em muito a nossa vão filosofia. E vivemos de acordo com Buda, abandonando totalmente nosso ego, prestando reverencia a essa Verdade e retornando a Ela, deixando nossa vida em Suas mãos e seguindo-A de coração. Esse estilo de vida é o que chamamos de Namu kie, o Refúgio ou Abrigo nas Três Joias, que é se tornar de verdade seguidor de Buda. Acredito que seja esse o espirito do zazen e das recitaçoes de nenbutsu.

15 de julho de 2010, por ocasião do fim do período de treinamento intensivo (ango) de verão.

Gasshô,

Shundo Aoyama

em Posfácio, no livro A Coisa mais Preciosa da Vida