Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (14) – Livro 1 Parte 13

            A pessoa imóvel no topo de um mastro de cem pés,
            Embora ele tenha adentrado [o Caminho], ele não é verdadeiramente [um homem do Caminho],
            [Ele deveria] avançar um passo adiante do topo do mastro de cem pés.
            O mundo das dez direções é todo o corpo [da pessoa].

“Suponha que você tenha escalado até o topo de um mastro de cem pés e lhe digam que você se deixe levar e avance um passo adiante sem considerar sua preciosa vida física. Em tal situação, se você disser que só pode praticar o Caminho de Buda quando estiver vivo, não está realmente seguindo seu professor. Considere isso cuidadosamente.“.

Palavras chave: VERDADEIRA PRÁTICA; VERDADEIRA ASPIRAÇÃO; VERDADEIRO MESTRE; APEGO AO EGO; MENTE DISCRIMINATIVA

1-13

Em uma palestra noturna Dogen disse,

Na tradição dos ancestrais, o verdadeiro modo de se entender as palestras do darma [sobre a prática Zen] é o de gradualmente reformar o que você conhece e pensa seguindo a instrução de seu professor.

Mesmo que até então você tenha considerado que um buda tem características excelentes[1] como Xaquiamuni[2] ou Amitaba[3], que irradie um  halo, que tenha a virtude de pregar o darma e beneficiar os seres vivos, você deveria acreditar em seu professor se ele disser que buda é nada mais que um sapo ou uma minhoca, e jogar fora suas ideias anteriores. Entretanto, se você procurar por algumas características excelentes, um halo ou outras virtudes de uma buda no sapo ou na minhoca, você ainda não terá reformado sua mente discriminatória. Apenas entenda que o que você vê exatamente agora é buda. Se, de modo contínuo, você reformar sua mente discriminatória e o apego fundamental desta maneira, de acordo com a instrução de seu professor, você naturalmente se tornará uno com o Caminho.

Alunos hoje, entretanto, se apegam a suas próprias mentes discriminadoras. Seu pensamento é baseado em suas próprias visões pessoais de que buda tem que ser deste ou daquele modo; se algo vai contra suas ideias, eles dizem que buda não pode ser daquele modo.

Tendo tal atitude e vagando por aqui e por ali na delusão, buscando aquilo que se enquadra às suas preconcepções, poucos fazem algum progresso no Caminho de Buda.

Suponha que você tenha escalado até o topo de um mastro de cem pés[4] e lhe digam que você se deixe levar e avance um passo adiante sem considerar sua preciosa vida física. Em tal situação, se você disser que só pode praticar o Caminho de Buda quando estiver vivo, não está realmente seguindo seu professor. Considere isso cuidadosamente.


[1] De acordo com várias lendas budistas, o Buda tinha 32 características físicas principais e 80 marcas de excelência física.

[2] Xaquiamuni (o sábio do clã Shaka), fundador do Budismo. Filho do Rei Sudhodana e da Rainha Maya em Kapilavastsu, Índia central, foi chamado de Sidarta e também de Gautama. Ele se casou e teve um filho, mas abandonou a família para buscar o Caminho da salvação aos 29 anos (19 anos, de acordo com outra tradição). Depois de 9 anos de prática, ele atingiu a iluminação e foi chamado “Buda” (o Desperto). Ele pregou o Caminho a muitas pessoas e, assim, a ordem Budista (sanga) foi formada. Ele morreu aos 80 anos de idade. Há diferentes opiniões no que se refere a estas datas: 565-486 a. C., de acordo com J. Takakusu; 463-383 a.C., de acordo com H. Nakamura. O Theravada tem uma tradição diferente, segundo a qual as datas de Buda são 624-544 a.C.

[3] Um dos budas mais populares no Budismo Mahayana. De acordo com o Muryoju-kyo (Sukhavati Vyuha), Amitaba foi anteriormente rei. Ao encontrar um buda chamado Sejizaio (Lokesvararaja), também desejou tornar-se um buda. Ele então renunciou ao mundo e se tornou monge, cujo nome veio a ser Hozo (Darmakara). Tomou os 48 votos e realizou várias práticas bodisatva para cumpri-los. Depois de muitos éons, ele os realizou e se tornou o Buda da Vida e Luz Infinita. Sua terra no Oeste, derivada de seus votos e práticas, é chamada de Gokuraku (Skt. Sukhavati) ou paraíso. O 18º. voto era que qualquer um que tivesse fé sincera nele (Amitaba) e recitasse seu nome, isto é, recitasse o nenbutsu, renasceria no paraíso Ocidental através de seu poder. Amitaba é um buda transcendental, ao contrário do buda histórico Xaquiamuni, e é geralmente lembrado como o corpo de recompensa (J. Hojin skt, sambogakaya). A escola de Budismo centrada em torno de Amitaba é conhecida como Budismo Terra Pura (jodokyo). Ela surgiu na Índia, cresceu na China e se desenvolveu mais plenamente no Japão.

[4] Extraído de um verso do Mestre Zen chinês Chosa Keishin (Changsha Jingcen, 854-935).

            A pessoa imóvel no topo de um mastro de cem pés,

            Embora ele tenha adentrado [o Caminho], ele não é verdadeiramente [um homem do Caminho],

            [Ele deveria] avançar um passo adiante do topo do mastro de cem pés.

            O mundo das dez direções é todo o corpo [da pessoa].

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (13) – Livro 1 Parte 12

“Monges nos dias de hoje também têm que despertar uma aspiração como essa, ao menos uma vez. Despertar tal aspiração significa pensar pouco de sua própria vida, ter profunda compaixão por todos os seres vivos, e confiar sua vida física ao ensinamento de Buda. Se você já despertou tal aspiração, proteja-a; não a perca sequer por um momento. É impossível realizar o darma de buda sem despertar tal aspiração“.

Palavras chave: VERDADEIRA PRÁTICA; VERDADEIRA ASPIRAÇÃO; MENTE BODAI

1-12

Dogen instruiu:

Há uma história sobre como o mestre Zen Chikaku (Zhijue)[1] despertou a mente bodai e se tornou monge. Ele havia sido um oficial do governo. Era um homem de talento e integridade. Enquanto era governante provincial, ele se apropriou ilegalmente de dinheiro oficial distribuindo-o às pessoas. Um dos oficiais que vivia cerca dele o denunciou ao Imperador.

Ao ouvir isso, o Imperador ficou abismado; todos os seus ministros também acharam o caso estranho. Ainda assim, tendo em vista que o crime não era de menor importância, a decisão foi sentenciá-lo à morte.

O Imperador disse: “Este oficial é um homem de talento e um sábio. Ele ousou cometer este crime. Ele deve ter tido alguma motivação profunda. Quando sua cabeça estiver prestes a ser cortada, se ele se mostrar arrependido e cheio de culpa, corte-a rapidamente. Se não, sem sombra de dúvida ele teve uma motivação mais profunda, então não o mate.”

Quando o enviado Imperial trouxe o condenado para ter a cabeça cortada, este não demonstrou nem arrependimento nem culpa; ao contrário, pareceu satisfeito. Ele disse a si mesmo: “Dou esta vida a todos os seres vivos”.

O enviado Imperial, surpreso e maravilhado, reportou o fato ao Imperador.

O Imperador exclamou: “Exatamente como pensei! Ele deve ter tido alguma razão profunda”.

Quando o Imperador perguntou ao oficial qual havia sido sua motivação, ele disse: “Eu queria me aposentar do escritório governamental, entregar minha vida a todos os seres vivos para com isso me associar a eles, nascer na família de Buda (tornar-se monge) e praticar o Caminho de Buda sinceramente”.

O Imperador se comoveu com a resposta e permitiu que Chikaku se tornasse monge. Assim, foi-lhe dado o nome Enju (Yansho), que significa “vida prolongada”, uma vez que ele fora salvo da punição capital.

Monges nos dias de hoje também têm que despertar uma aspiração como essa, ao menos uma vez. Despertar tal aspiração significa pensar pouco de sua própria vida, ter profunda compaixão por todos os seres vivos, e confiar sua vida física ao ensinamento de Buda. Se você já despertou tal aspiração, proteja-a; não a perca sequer por um momento. É impossível realizar o darma de buda sem despertar tal aspiração.


[1] Chikaku Zenji (Mestre Zen Zhijue) é o título honorífico de Yomyo Enju (Yongming Yanshou, 904-975). Ele serviu como oficial do governo e se tornou um monge quando tinha 28 anos. Foi um dos discípulos de Tendai Tokusho (Tientai Deshao), o segundo ancestral da Escola Hogen (Fayana) do Zen chinês.

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (12) – Livro 1 Parte 11

“Não aprecie aprender em uma larga escala, mesmo que sejam os ensinos de budas e de ancestrais“.

Palavras chave: APEGO AOS ESTUDOS; IMPERMANÊNCIA; VERDADEIRA PRÁTICA;

LIVRO 1

1-11

Dogen ensinou:

A impermanência é abrupta; vida-morte é um assunto vital[1]. Pelo curto tempo em que você está vivo, se você deseja estudar ou praticar alguma atividade, apenas pratique o Caminho de Buda e estude o darma de buda. Uma vez que literatura e poesia são inúteis, você deveria desistir delas. Mesmo quando estudar o darma de buda e praticar o Caminho de Buda, não o estude extensivamente. Desnecessário dizer, abstenha-se de aprender as escrituras Exotérica e Esotérica das escolas de ensino[2]. Não aprecie aprender em uma larga escala, mesmo que sejam os ensinos de budas e de ancestrais. É difícil para nós, pessoas inferiores e sem talento, nos concentrarmos e completarmos até mesmo uma coisa. Realmente não é nada bom fazer muitas coisas ao mesmo tempo e perder a estabilidade da mente.


[1] Vida-e-morte ou nascimento-e-morte. Esta é também tradução de shoji, ou em sânscrito, samsara, que significa transmigração dentro dos seis reinos de delusões. No Shobogenzo Shoji (Vida-e-morte), entretanto, Dogen disse: “Vida-e-morte é a preciosa Vida do Buda. Para os seres humanos, clarificar a realidade da vida-e-morte é a grande questão”. A impermanência também é frequentemente usada em um sentido negativo, embora Dogen tenha citado o Sexto Ancestral no Shobogenzo Bussho (Natureza-Buda): “Portanto, relva, árvores e arbustos são impermanentes e nada mais são do que natureza-Buda. Seres humanos e coisas, corpo e mente são impermanentes, e nada mais são do que natureza-Buda. A suprema consciência (anuttara-samyak-sambodhi) é impermanente, uma vez que é natureza-Buda. O grande Nirvana é natureza-Buda uma vez que é impermanente.”

[2] “Escolas de ensino” é tradução de Kyoke ou Kyoshu, escolas baseadas em escrituras escritas. Por exemplo, Kegonshu é baseado no Kegonkyo (Avatamsaka-sutra). Isso contrasta com aqueles que acreditam no Zenke ou Zenshu, que insiste que o Zen se baseia apenas na mente Buda e não nos ensinamentos verbais de Buda. “Ensinamento Exotérico” é tradução de Kenkyo, termo geral para todos os ensinamentos budistas, tanto hynayana quanto mahayana, diferente dos ensinamentos Esotéricos (mikkyo). Mikkyo significa os ensinamentos místicos que foram diretamente revelados pelo corpo do Darma Buda, Dainichi (Mahavairocana). Esta escola surgiu na Índia depois das escolas hynayana e mahayana. No Japão, o Mikkyo foi sistematizado por Kukai (774-835) e tornou-se a Escola Shingon, também conhecida como Budismo Vajra-yana.