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Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (26) – Livro 2 Parte 4

Se do fundo do seu coração você considerar que aquilo que você conquistou através de estudo ao passar dos anos com muito esforço não pode ser abandonado facilmente, tal mente em si mesma é limitada pela vida-morte (samsara)..

LIVRO 2

2-4

Em uma palestra vespertina, Dogen disse:

         Um estudante do Caminho deve abandonar sentimentos humanos[1]. Abandonar sentimentos humanos é praticar seguindo o buda-darma. A maioria das pessoas no mundo tem sido arrastada pela mente hinayana[2], discriminando entre o bem e o mal, distinguindo certo e errado, visando obter aquilo que é bom enquanto descarta o que é ruim. Isso é causado pela mente hinayana. Em primeiro lugar, simplesmente abra mão de sentimentos mundanos e entre no Caminho de Buda. Para entrar no Caminho de Buda, abstenha-se de fazer julgamentos baseados na discriminação entre bem e mal, não se apegue a suas condições físicas e mentais; siga os ensinamentos verbais e as formas de agir sem se preocupar com bem e mal. O que você pensa que é bom e o que os outros no mundo pensam que é bom nem sempre é bom. Portanto, esqueça o ponto de vista dos outros; deixe de lado sua própria mente e siga os ensinamentos de Buda. Mesmo que seu corpo sofra e sua mente esteja aflita, decida abandonar corpo e mente, e pratique o que Buda e os ancestrais, nossos veneráveis predecessores, praticaram, mesmo se for doloroso ou lhe causar aflições. Mesmo que você pense que algo é bom e condiz com o Caminho de Buda e queira praticar isso, não leve adiante se não tiver sido feito pelos budas e ancestrais. Se fizer isso, você terá compreendido o portal do darma (ensinamentos sobre o darma) perfeitamente.

         Deixe de lado tanto mente quanto pensamentos baseados nos vários ensinamentos que você aprendeu no passado e gradualmente volte sua mente às palavras e feitos dos budas e ancestrais que você está encontrando bem agora. Ao fazer isso, sua sabedoria crescerá e o satori se abrirá por conta própria. Abandone até mesmo seu entendimento sobre o que você aprendeu dos escritos das escolas-de-treinamento se houver razão para tal, e veja as coisas da perspectiva que mencionei. Estudar o portal do darma nada mais é do que partir do (samsara) e alcançar o Caminho.

         Se do fundo do seu coração você considerar que aquilo que você conquistou através de estudo ao passar dos anos com muito esforço não pode ser abandonado facilmente, tal mente em si mesma é limitada pela vida-morte (samsara).

         Considere isso cuidadosa e minuciosamente.


[1] Neste caso, sentimentos humanos se referem tanto a pensamentos quanto a emoções baseadas no egocentrismo, discriminação e preferência. Estas são as raízes das delusões.

[2] Aqui, mente hinayana significa a atitude de praticar apenas pelo bem da auto-emancipação ou para escapar do samsara pelo próprio esforço. Tal como o espirito de um bodisatva, devemos fazer o voto de salvar todos os seres. No Shobogenzo Hotsubodaishin (Despertando a mente Bodai), Dogen disse: “Despertar a mente bodai é fazer o voto e trabalhar pela salvação de todos os seres vivos antes de salvar-se a si mesmo.”

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (25) – Livro 2 Parte 3

(…)  eu nunca ouvi falar que ser rico e reverenciado por pessoas ignorantes fosse uma manifestação da virtude do Caminho. Desde tempos antigos, todas as pessoas com mente bodai têm sido pobres, aguentaram dor física, nada desperdiçaram, foram compassivas e conduzidas pelo Caminho. Estas pessoas têm sido chamadas de os verdadeiros praticantes.

LIVRO 2

2-3

Em uma palestra vespertina Dogen disse:

         Durante o reinado de Taiso (Tai-zong) da dinastia To (Tang)[1], Gicho (Wei Zheng)[2], um dos ministros, comentou com o imperador:  “Algumas pessoas estão caluniando vossa Majestade.”

         O imperador respondeu, “Como um soberano, se eu tenho virtudes[3], não temo ser caluniado pelas pessoas. Me causa mais temor me elogiarem por virtudes que não possuo.”

         [Aqui temos um exemplo de como] até mesmo um leigo demonstrou tal atitude. Monges deveriam, antes de qualquer outra coisa, manter esta atitude. Se você tiver compaixão e mente bodai, não precisará se preocupar com o fato de ser difamado por pessoas ignorantes. Você deve, sim, ter muito cuidado se for considerado alguém do Caminho apesar de não possuir nenhuma mente bodai.

Dogen também relatou:

         Buntei (Wen Di)[4], da dinastia Zui (Sui), disse a si mesmo: “Devo cultivar a virtude secretamente e esperar até que eu tenha amadurecido.”

         O que ele pretendia era praticar virtude, esperar até que ele mesmo tivesse amadurecido, e então, governar as pessoas com benevolência. Como monge, se você ainda não tiver despertado este espírito, você deve ser cauteloso. Apenas se você praticar o Caminho intimamente é que a virtude do Caminho, de um modo natural, se manifestará exteriormente. Sem expectativa ou desejo de ser conhecido pelas pessoas, se você apenas seguir os ensinamentos de Buda ou o Caminho dos ancestrais, as pessoas acreditarão na virtude do Caminho por conta própria.

         Há uma armadilha aos alunos aqui [outros e também nós mesmos] podemos acabar acreditando que ser respeitado por outras pessoas e acumular uma grande quantidade de posses é uma manifestação da virtude do Caminho. Você deve entender em seu coração que acreditar que tal coisa é ser possuído por demônios. Seja muito cuidadoso em relação a isso. Em uma certa escritura, isso é chamado ‘façanhas de demônios’. Considerando os exemplos dos três países (Índia, China e Japão), eu nunca ouvi falar que ser rico e reverenciado por pessoas ignorantes fosse uma manifestação da virtude do Caminho. Desde tempos antigos, todas as pessoas com mente bodai têm sido pobres, aguentaram dor física, nada desperdiçaram, foram compassivas e conduzidas pelo Caminho. Estas pessoas têm sido chamadas de os verdadeiros praticantes.

         Manifestar virtude não significa ter uma abundância de riqueza material, nem sentir-se orgulhoso de receber grandes oferendas.

         Há três passos na manifestação da virtude. Primeiro, torna-se conhecido o fato da pessoa estar praticando o Caminho. Em seguida, as pessoas que aspiram ao Caminho vão até essa pessoa. E, por último, as pessoas aprendem o Caminho e praticam com ela da mesma forma. Isso é chamado de a manifestação da virtude do Caminho.


[1] Taiso, da dinastia To (597-649), foi seu segundo imperador e reinou de 627 a 649.

[2] Um dos ministros de Taiso (580–643).

[3] Jin, em japonês (Ch., Ren) é o conceito mais importante do confucionismo. Pode ser entendido como benevolência, generosidade, virtude perfeita, filantropia etc.

[4] Buntei foi o fundador da dinastia Zui (Sui), que durou de 541 a 604. Ele reinou de 589 a 604.