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> Zazen por…. Monja Zentchu Sensei

Fonte: Facebook Monja Zentchu

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Dragão do Darma: Ensinamentos da Monja Zentchu Sensei é uma compilação de palestras realizadas no Templo Taikozan Tenzuizenji, sede da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, em São Paulo (SP). Em tom de urgência amorosa, ela relaciona os ensinamentos de Xaquiamuni Buda às adversidades da vida cotidiana. Transitando entre memórias pessoais e registros de sua formação monástica, Zentchu Sensei explica os principais conceitos budistas e zen-budistas e aborda aspectos desafiadores da contemporaneidade. Destinada ao leitor interessado em iniciar seus estudos no zen-budismo, esta coletânea compartilha, de maneira profunda e provocativa, os valores necessários a uma existência ética, digna e plena de sentido.
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Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (3) – Livro 1 Parte 2

Praticantes do Caminho certamente devem manter as regras de Hyakujo. A forma de manter as regras é receber e observar os preceitos e praticar zazen, etc. O significado de recitar o Sutra dos Preceitos dia e noite e observar os preceitos decididamente nada mais é do que praticar shikantaza, seguindo as atividades dos antigos mestres. Quando sentamos zazen, qual preceito não é observado, qual mérito não é efetivado? Os modos de prática, levados adiante pelos antigos mestres, têm um significado profundo. Sem se prender a preferencias pessoais, deveríamos agir em conformidade com a assembleia e praticar de acordo com estes modos”.

Palavras chave: PRECEITOS; VERDADEIRA PRÁTICA; PRÁTICA PRINCIPAL; REGRAS MONÁSTICAS; SHIKANTAZA; ZAZEN

LIVRO 1

1-2

Dogen disse também,

[Você] deveria manter os preceitos e as regras alimentares[1] (uma refeição por dia antes do meio dia, etc.). Ainda assim, é errado insistir sobre eles como sendo essenciais, estabelecê-los como uma prática e esperar ser capaz de obter o Caminho por observá-los.  Nós os seguimos apenas porque são as atividades dos monges Zen[2] e o estilo de vida das crianças de Buda. Embora mantê-los seja algo bom, não deveríamos tomá-los como a prática principal.          

Entretanto, com isso não quero dizer que você deveria quebrar os preceitos e tornar-se autoindulgente. Apegar-se a tal atitude é uma perspectiva maléfica e não aquela de um praticante budista. Seguimos os preceitos e regras simplesmente porque formam o padrão para um budista e são a tradição dos monastérios Zen. Durante minha estadia em monastérios chineses, não conheci ninguém que os tomasse como a preocupação principal.

Para a verdadeira obtenção do Caminho, devotar todo o esforço apenas ao zazen tem sido transmitido entre os budas e ancestrais[3]. Por essa razão, eu ensinei um colega estudante, Gogenbo, discípulo do Mestre Zen Eisai[4], a abandonar sua fidelidade estrita à manutenção dos preceitos e à recitação do Sutra de Preceitos[5] dia e noite.

Ejo perguntou: “Quando praticamos e aprendemos o Caminho em um monastério Zen deveríamos manter as regras puras elaboradas pelo Mestre Zen Hyakujo (Baizhang)[6], ou não? No início das Regras (Hyakujo-Shingi), diz-se que receber e manter os preceitos é pré-requisito. Nesta tradição, o Preceito Fundamental também tem sido passado adiante. Na transmissão oral e face a face desta linhagem, os alunos recebem os preceitos transmitidos do Oeste (Índia). Esses são os Preceitos do Bodisatva. Também, está dito no Sutra dos Preceitos, que as pessoas devem recitar o Sutra dia e noite. Por que você tem que interromper esta prática?

Dogen respondeu: “Você está certo. Praticantes do Caminho certamente devem manter as regras de Hyakujo. A forma de manter as regras é receber e observar os preceitos e praticar zazen, etc. O significado de recitar o Sutra dos Preceitos dia e noite e observar os preceitos decididamente[7] nada mais é do que praticar shikantaza, seguindo as atividades dos antigos mestres. Quando sentamos zazen, qual preceito não é observado, qual mérito não é efetivado? Os modos de prática, levados adiante pelos antigos mestres, têm um significado profundo. Sem se prender a preferencias pessoais, deveríamos agir em conformidade com a assembleia e praticar de acordo com estes modos.

NOTAS


[1]Durante o período Kamakura no qual Dogen viveu, havia alguns que negligenciavam os preceitos e regras e outros que enfatizavam sua observação. Como representantes do primeiro grupo temos os Budistas Terra Pura, especialmente Shinran; exemplo do último grupo foi Eisai. Parece que Dogen buscou o caminho do meio, que é manter os preceitos sem se apegar a eles, sem expectativa de alguma recompensa advindos de sua observação. Dogen enfatizava apenas mantê-los e praticar sem as contaminações dos sentimentos humanos.

[2]Noso, em japonês, literalmente significa um monge que usa um manto de retalhos remendados. O manto de retalhos se refere ao kesa (kesaya em sânscrito) feito de trapos descartados. Os monges cortavam em pedaços esses trapos descartados e os costuravam em uma peça única. Uma vez que os monges Zen usavam mantos remendados, eles foram chamados de “monges do manto remendado”. Dogen também usava a palavra “nossu” com o mesmo sentido.  

[3]Em Shobogenzo Shohojisso Dogen escreveu: “A manifestação dos Budas e dos ancestrais é a manifestação da realidade máxima. Então, ser budas ou ancestrais é ser apenas como-é. A fim de sermos tal-como-é, temos que aprender e praticar a tradição dos Budas e ancestrais”.

[4]Aqui Dogen chamou-o Yojo Sojo, outro nome para o Mestre Zen Eisai (1141-1215). Sojo é o título do primeiro escalão na hierarquia Budista. Originalmente, Eisai era um monge Tendai. Quando visitou a China pela segunda vez e lá permaneceu por cinco anos, ele estudou o Zen Rinzai e o introduziu no Japão. Ele fundou Kenninji, local em que Dogen mais tarde praticou o Zen sob a supervisão de Myozen, um dos discípulos de Eisai. Dogen respeitava muito Eisai e no Zuimonki elogiou seus feitos. Há controvérsias entre pesquisadores sobre ele ter ou não efetivamente se encontrado com Eisai.

[5]Referência ao Bonmokyo (Brahmajala sutra), traduzido por Kumarajiva. Este sutra apresenta os preceitos mahayana para bodisatvas, chamados de “Preceitos do Bodisatva” ou “Preceitos Fundamentais”, que consistem em dez preceitos maiores e quarenta e oito menores. Estudiosos da atualidade  acreditam que este sutra tenha sido escrito na China.

[6] Shingi, em japonês (Ch. Qinggui): regras que os estudantes deviam observar ao praticarem em monastérios Zen. O primeiro shingi foi compilado por Hyakujo Ekai (Baizhang Huihai). Por isso Hyakujo (720-814) é tido como o fundador dos monastérios Zen. O Hyakujo-shingi já não existe. No Zennen-shingi (Chanyuan-qinggui), entretanto, o primeiro capitulo trata do recebimento dos preceitos e o segundo capitulo trata sobre mantê-los. No primeiro capitulo temos o seguinte: “Ao aprender o Zen e buscar o Caminho, os preceitos são de importância primordial. Se você não se afastar dos maus feitos e se proteger do que é errado, como é possível ser um buda ou um ancestral?”.

[7]No capítulo sobre o trigésimo quarto preceito menor de Bonmokyo, está escrito que os preceitos devem ser mantidos e recitados dia e noite.    

Textos e Sutras, Zazen

> Shobogenzo Zuimonki (2) – Livro 1 Parte 1

“Uma vez que ser uma criança Buda é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente, devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza, que é a essência da vida neste sorin (monastério) hoje. Repense sobre isso profundamente”

Palavras chave: RELÍQUIAS DE BUDA; ADORAÇÃO A IMAGENS; VERDADEIRA PRÁTICA; ESSÊNCIA DOS ENSINAMENTOS DE BUDA; SHIKANTAZA; ZAZEN

LIVRO 1

1-1

Um dia Dogen disse,

No Zoku-kosoden (Biografias Continuadas de Monges Eminentes)[1], há uma estória sobre um monge na assembleia de um certo mestre Zen. O monge adorava uma imagem de ouro de Buda, bem como as relíquias de Buda[2]. Mesmo no dormitório[3], ele continuamente queimava incenso e se prostrava perante elas, honrando e fazendo oferendas.

Um dia, o mestre disse ao monge: “A imagem e as relíquias de Buda, que você adora, acabarão sendo prejudiciais a você”.

O monge não estava convencido.

O mestre continuou: “Isso é obra do demônio Papiyas[4]. Jogue-as fora imediatamente”.

Quando o monge estava saindo raivoso, o mestre gritou por detrás dele: “Abra a caixa e olhe dentro dela!”

 Embora enfurecido, o monge abriu a caixa; deitada dentro dela ele encontrou uma cobra venenosa enrolada.

Considerando essa estória, as imagens e relíquias de Buda deveriam ser reverenciadas, uma vez que são a forma e os ossos deixados pelo Tatagata[5]; entretanto, é uma falsa visão[6]pensar que você será capaz de alcançar iluminação meramente através de sua adoração a elas. Tal visão fará com que você seja possuído pelo demônio e pela cobra venenosa.

 Tendo em vista que o mérito dos ensinamentos de Buda não muda, a reverência a imagens e relíquias por certo trará bênçãos aos seres humanos e celestiais[7] tanto quanto prestar reverencias ao Buda vivo. De modo geral, é verdade que se você reverenciar e fizer ofertas ao mundo dos Três Tesouros[8], suas falhas desaparecerão e você ganhará mérito; o karma que leva você aos reinos maléficos[9] será removido e você renascerá nos reinos dos seres humanos e celestiais. Entretanto, é uma visão equivocada esperar obter iluminação do darma desta maneira.

Uma vez que ser uma criança Buda[10] é seguir os ensinamentos de Buda e atingir a budeidade diretamente[11], devemos nos devotar a seguir o ensinamento e colocar todos os nossos esforços na prática do Caminho. A verdadeira pratica que está de acordo com o ensinamento não é nada mais do que shikantaza[12], que é a essência da vida neste sorin (monastério)[13] hoje. Repense sobre isso profundamente.

NOTAS

[1] O Zoku-kosoden (Xu-gaosengzhuan) foi compilado por Nanzan Dosen (Nanshan Daoxuan, 596-667), fundador da Escola Nanzan-ritsu. Esta coleção de trinta volumes inclui as biografias dos monges da dinastia Liang (502-557) até o inicio da dinastia Tang (618-907). 

[2] Skt., sarira. Depois que Xaquiamuni morreu, suas relíquias foram divididas em oito porções e preservadas nas stupas erigidas por seus alunos leigos nos vários distritos na Índia. Desde então, as relíquias de Buda têm sido objeto de adoração por pessoas leigas.

[3]Shuryo, em japonês, é uma sala de estudo, para se tomar chá ou para descanso nos monastérios Zen. Kannon Bodisatva está preservada no shuryo.

[4] Temma-hajin, em japonês. Temma significa um demônio celestial, rei do céu Paranirmitavasavartin (takejizai-ten) e é assim chamado porque causa entraves para aqueles que seguem o Caminho Budista. Hajun (Papiyas, em sânscrito) é o nome do demônio.

[5]Nyorai, em japonês, um dos epítetos do Buda. Literalmente, Nyorai significa “que assim veio” ou “que assim foi”, popularmente interpretado como “aquele que veio (foi) do assim como é”.  

[6] Uma visão incorreta que vai contra o darma ou que impede as pessoas de verem a realidade tal como ela é, ou a qual negligencia o princípio de causa e efeito.

[7] Seres humanos e seres celestiais ainda estão no reino do samsara. O termo original japonês para “uma benção” é fukubun, que significa as causas que ocasionam a felicidade nos mundos humano e celestial. Em contraposição a fukubun está dobun, a causa para o Caminho que transcende o samsara, ou seja, o mundo humano e celestial.

[8] Os Três Tesouros no Budismo são: 1) o buda, aquele que está desperto para a realidade e a ensina, 2) o darma, a realidade e o ensinamento que aponta para a realidade e 3) a sanga, a comunidade de pessoas que seguem o ensinamento. O mundo dos Três Tesouros é bastante diferente do reino do samsara baseado em delusões ou em desejos.

[9]O samsara é categorizado em seis reinos: inferno, o reino dos espíritos insaciáveis, animais, demônios asura, humanos e seres celestiais. Os três primeiros são chamados de reinos maléficos enquanto os outros três são chamados de bons reinos. Algumas vezes, os primeiros quatro são chamados de reinos maléficos e os últimos dois são chamados de bons reinos.   

[10] Seres humanos tornam-se crianças de Buda ao receber os preceitos de Buda por meio da ordenação.

[11] No Shobogenzo Sanjushichihon-bodaibunpo Dogen disse: “O grande professor Xaquiamuni abandonou a sucessão a seu pai na posição de rei não porque ela fosse indigna, mas porque ele iria suceder na posição de buda, a qual era imcomparavelmente preciosa. A posição de Buda é a posição de um monge sem teto. Esta é a posição reverenciada por todos os seres humanos e celestiais. Esta é a posição de suprema consciência (annutara-samyak-sambodhi).

[12]Literalmente, significa “apenas sentar”. No Bendowa Dogen, citando seu professor, escreveu: “De acordo com a inequívoca tradição herdada, esse buda-darma, que tem sido singular e diretamente transmitido, é supremo acima de qualquer comparação. A partir do momento em que você começa a praticar com um professor, queimar incenso, curvar-se, nenbutsu, tanto quanto as práticas de recitação ou leitura dos sutras, são desnecessárias. Simplesmente pratique o zazen (shikantaza), deixando cair corpo e mente”. Shikantaza é zazen quando praticado sem esperar nenhuma recompensa, mesmo iluminação. É apenas ser você mesmo, bem aqui, neste exato momento.

[13]Literalmente, sorin significa uma floresta na qual vários tipos de árvores estão vivendo juntas. Em um monastério, todos os praticantes com suas diferentes personalidades, capacidades e experiências de vida vivem juntos com mente bodai unificada; portanto monastérios Zen são chamados de sorin.