Textos e Sutras

A função de um centro zen

rakusu

Charlotte Joko Beck

Hoje eu quero falar sobre a função de um Centro Zen. De uma maneira geral, podemos dizer que é apoiar a prática; e é claro que é verdade. Mas temos um monte de ilusões sobre Centros Zen como também temos sobre os professores. E uma coisa que tendemos a pensar é que um Centro Zen deveria ser um lugar muito agradável para mim – em outras palavras, deve ser não ameaçador (risos). Eu acho que um bom centro deve ser bastante ameaçador às vezes! Não é função de um centro cuidar do seu conforto ou da sua vida social. Com isso não quero dizer que não devemos ter eventos sociais – eu acho que são ótimos -, mas não são a principal função de um centro. A função de um Centro Zen não é prover as pessoas de uma vida social. Não tem necessariamente o papel de fazê-las se sentirem bem, e não é para fazê-las se sentirem especiais.

Essencialmente, um centro é uma ferramenta poderosa para ajudar-nos a despertar. Como uma sangha praticando em um centro, precisamos, sim, nos apoiar uns nos outros, mas a natureza desse apoio pode não ser exatamente o tipo de apoio que é frequentemente visto num escritório. Você sabe, o namorado de uma moça a deixa – “Oh! coitadinha! Sabe, quando o MEU namorado me deixou…” (risos) e lá vamos nós! Há uma atitude de “somos todos vítimas juntos nessa” que NÃO é apoio. Quanto mais praticamos, bem, menos este tipo de apoio falso é o que se encontra num centro bom.

Deve ser um lugar, então, que nos dá apoio, sim, mas que também nos desafia, e nesse sentido somos todos professores uns dos outros. Alguns dos ensinamentos mais poderosos em um Centro Zen nada têm a ver com o professor; às vezes o ensino vem de outra pessoa, vindo diretamente da experiência dessa pessoa. Para ser honesta, estar ciente do que a prática real é e compartilhá-la com os outros – é isso que torna um centro um tipo de lugar diferente para se estar.

Infelizmente, Centros Zen tendem a ser um pouco ego-perpetuantes: nós queremos que eles sejam maiores, melhores e mais importantes que o centro do outro cara, com certeza! Há correntes de ego muito sutis que podem circular em um Centro Zen, como em qualquer outra organização, se não tivermos um cuidado especial.

E algumas reflexões sobre a sangha: um ponto é crucial – quanto mais tempo as pessoas vêm praticando, menos importante deve ser o papel externo delas. E por isso eu não quero que as pessoas que vêm praticando por muito tempo presumam que elas sempre serão monitoras – às vezes, sim, claro, mas quanto mais avançado o aluno, mais eu quero que a sua influência seja sentida através da sua prática e através da sua vontade de não parecer importante e de deixar os alunos mais novos começarem a assumir algumas das posições externamente visíveis.

A marca de alunos seniores é trabalhar quando ninguém sabe que eles estão lá. Eu vejo pessoas trabalhando no escritório do Centro em horários estranhos; às vezes eu estou voltando das compras e eles estão trabalhando duro. Isso é um sinal de prática madura, fazer o que deve ser feito mantendo a nossa própria importância fora disso.

Pessoalmente, eu estou tentando ir por esse caminho, minimizando a enorme importância dada ao papel do professor. E eu quero que isso se aplique a todos os alunos mais velhos. Então, se você sente que não está tendo a oportunidade de fazer o que você costuma fazer, ÓTIMO! Então você tem algo muito bom com o que praticar.

Outra marca de um bom Centro Zen é que ele nos sacode como um todo; as coisas não acontecem da maneira como gostaríamos, de acordo com as nossas fantasias. Assim, em nossa chateação, acabamos retornando à base da prática – que é, tanto quanto eu posso colocar em palavras, assumir mais e mais a posição de um observador em nossas vidas.

Com isso quero dizer que tudo em nossas vidas vai continuar a ocorrer – os problemas, as dificuldades emocionais, os dias agradáveis, os altos e baixos, que são aquilo de que consiste a vida humana -, mas é a capacidade de não ser pego – de apreciar o que está acontecendo quando é “bom”, de ter tranquilidade quando é “ruim”, e de observar tudo isso, que é o trabalho contínuo.

A marca do amadurecimento da prática é simplesmente a capacidade, mais e mais e mais, de perceber o que está acontecendo e não ser fisgado por isso. Fácil falar, mas provavelmente de 15 a 20 anos de prática rigorosa são necessários antes que nós sejamos dessa forma uma boa parte do tempo.

E isso não é o estágio final. Quando não há nenhum objeto, nenhuma pessoa, nenhum evento, nenhuma coisa no mundo que me fisga, aos quais eu esteja preso – quando não há nenhum objeto e nenhum self observando -, então, há uma virada para o que seria, para dar-lhe um nome, o estado iluminado.

Nunca conheci ninguém que eu sentisse que tivesse alcançado isto, mas algumas pessoas têm-se saído bem e, se você tiver a sorte de encontrar uma pessoa assim, você sentirá a diferença que há em alguém que não é fisgado pela vida (necessitado, desejando ardentemente algo ou alguém, insistindo em que a vida seja de certa maneira) – você perceberá que tal pessoa está em paz e livre.

Estas são as pessoas que são uma influência curativa e benéfica sobre toda a vida que está perto delas. Elas não precisam fazer nada – a cura vem da maneira como elas são. Essa transformação é o que queremos da nossa prática. Temos muita sorte de ter essa oportunidade nesta vida. Vamos aproveitá-la e fazer o nosso melhor.

Palestra da mestra Zen Joko Beck. Tradução de Isshin-sensei e Muriel Paraboni.

Texto extraído do site “Sobre Budismo”: http://sobrebudismo.com.br/joko-beck-e-a-funcao-de-um-centro-zen/

Textos e Sutras, Zazen

Sempre zen…

zen es zazen

O zen refere-se a uma vida ativa, envolvida. Quando conhecemos bem nossas mentes e as emoções que nosso pensamento cria, temos a possibilidade de ver melhor o que é a nossa vida e o que precisa ser feito; em geral, é a próxima coisa que temos logo à frente.

O zen tem que ver com uma vida de ações, não com um fazer nada passivo. No entanto, as ações têm de estar baseadas na realidade. Quando se baseiam em falsos sistemas de pensamento (fundamentados em nosso condicionamento), têm alicerces precários. Depois de enxergarmos com clareza os sistemas de pensamento, seremos capazes de ver o que precisa ser feito.

Charlotte Joko Beck. Sempre Zen