Textos e Sutras, Zazen

Zazen por Taisen Deshimaru

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“A prática de zazen é o segredo do Zen. O zazen é difícil, eu sei. Mas, praticado quotidianamente, é muito eficaz para ampliar a consciência e desenvolver a intuição. O zazen não libera apenas uma grande energia; é uma postura de despertar. Durante sua prática, não se deve procurar atingir seja lá o que for. Sem objeto, o zazen é apenas concentração sobre a postura, a respiração e a atitude do espírito”. 

Taisen Deshimaru. “Zazen. A postura do despertar”. Extraído de Shodoka. O Canto do Satori imediato.

Textos e Sutras

Sobre esperança e medo

Pema Chodron

“A diferença entre teísmo e não-teísmo, não é sobre acreditar ou não acreditar em deus. É uma questão que se aplica a todo mundo, incluindo budistas e não-budistas. Teísmo é uma convicção, profundamente enraizada, de que existe uma mão pra segurarmos. Se nós fizermos as coisas certas, alguém vai nos apreciar e cuidar. Isso significa pensar que sempre vai haver uma babá disponível quando precisarmos. Todos nós somos inclinados a abdicar de nossas responsabilidades e dedicar nossa autoridade a algo fora de nós mesmos.

Não-teísmo é relaxar dentro da ambigüidade e incerteza do momento presente, sem tentar alcançar nada que possa nos proteger. Às vezes pensamos que Dharma é algo fora de nós. Algo para se acreditar, algo para se medir. No entanto, Dharma não é uma crença, não é um dogma. É uma total apreciação da impermanência e da mudança. Os ensinamentos se desintegram quando tentamos agarrá-los. Temos que experimentá-los sem esperança. Muitas pessoas corajosas e compassivas os experimentaram e os ensinaram. A mensagem é: “Sem medo”. Dharma nunca significou uma crença que nós seguimos cegamente. O Dharma não nos dá nada, mesmo, para segurarmos.

Não-teísmo é finalmente perceber que não há uma babá com que você possa contar. Você acaba de conseguir uma boa e logo ela (ou ele) se foi. Não-teísmo é perceber que não apenas babás vêm e vão, mas toda a vida é assim. Essa é a verdade, e a verdade é inconveniente. Para aqueles que querem algo pra segurar, a vida é ainda mais inconveniente. Desse ponto de vista, teísmo é um vício. Somos todos viciados em esperança. Esperança de que a dúvida e o mistério irão desaparecer. Esse vício tem um efeito doloroso na sociedade. Uma sociedade baseada em montes de pessoas viciadas em conseguir terra firme para pisar não é um lugar muito compassivo.

A primeira Nobre Verdade do Buda é que, quando sentimos sofrimento, não significa que alguma coisa está errada. Que alívio! Finalmente alguém disse a verdade! Sofrimento é parte da vida e nós não precisamos achar que ele está acontecendo porque nós, pessoalmente, fizemos a escolha errada. No entanto, na verdade quando sentimos o sofrimento, acabamos achando que algo está errado. Como estamos viciados em esperança, sentimos que podemos abafar nossas experiências, ou avivá-las, ou modificá-las de alguma forma. E continuamos sofrendo muito.

No mundo da esperança e do medo, nós sempre temos que trocar de canal, trocar a temperatura, trocar de música. Porque algo está ficando desconfortável, algo está ficando impaciente, algo está começando a doer. E nós continuamos buscando alternativas. Em um estado mental não-teísta, abandonar a esperança é uma afirmação. O começo do começo.

Esperança e medo vêm da sensação de que nos falta algo. Eles vêm de uma sensação de pobreza. Nós não conseguimos simplesmente relaxar em nós mesmos. Nós nos agarramos à esperança. E a esperança nos rouba o momento presente. Sentimos que alguém sabe o que está acontecendo, mas que há algo faltando em nós, algo está em falta no nosso mundo.

Em vez de deixar a negatividade tirar o melhor de nós, podemos reconhecer que agora mesmo nos sentimos mal. Essa é uma coisa compassiva a se fazer. Essa é a atitude corajosa a tomar. Podemos cheirar o mal que nos sentimos, podemos sentir! Qual é a textura, a cor e a forma? Podemos explorar a natureza do sentimento. Podemos conhecer a natureza do desgosto, vergonha, e não acreditar que há algo errado nisso. Podemos abandonar a esperança fundamental de que existe um eu melhor, que um dia vai emergir. Nós não podemos simplesmente pular por cima de nós mesmos, como se não estivéssemos lá. É melhor dar uma olhada direta em nossas esperanças e medos. Então, uma espécie de confiança, nossa sanidade básica, surge.

É aí que entra a renúncia. Renúncia da esperança de que nossas experiências podem ser diferentes. Renúncia da esperança de que nós podemos ser melhores. As regras monásticas budistas que recomendam renunciar ao álcool, renunciar ao sexo e assim por diante, não estão indicando que essas coisas são inerentemente más ou imorais. Mas que nós as usamos como baby-sitters. Nós as usamos como um caminho para escapar. Nós as usamos para tentar obter conforto e para nos distrair.

Na verdade, o que renunciamos é à esperança tenaz de que podemos ser salvos de quem somos. Renúncia é um ensinamento que nos inspira a investigar o que está acontecendo cada vez que nos agarramos a alguma coisa porque nós não conseguimos aguentar e encarar o que está por vir.

Se a esperança e o medo são dois lados da mesma moeda, então a desesperança e a coragem também são. Se desejarmos abandonar a esperança para que a insegurança e a dor sejam exterminadas, então podemos conseguir a coragem para relaxar na falta de chão firme de nossa situação. Esse é o primeiro passo no Caminho.

(…)

Sem-esperança é o terreno básico. De outra forma estaremos fazendo essa jornada na esperança de obter segurança. Se fizermos a jornada para obter segurança, estaremos nos perdendo completamente da meta.

Nós podemos fazer nossas práticas de meditação com o objetivo de obter segurança; nós podemos estudar os ensinamentos com o objetivo de obter segurança; nós podemos seguir todas as diretrizes e instruções com o objetivo de obter segurança; mas isso só vai nos conduzir à decepção e à dor. Podemos poupar muito tempo a nós mesmos levando esta mensagem muito a sério agora mesmo: comece a jornada sem esperança de obter um chão firme onde pisar. Comece sem-esperança.

Toda ansiedade, toda insatisfação, todas as razões para esperar que nossas experiências possam ser diferentes, estão enraizadas no nosso medo da morte. O medo da morte está sempre no cenário de fundo. É como disse o mestre Zen Suzuki: “A vida é como entrar num barco prestes a zarpar e afundar”. Mas é muito difícil, não importa o quanto escutemos, acreditar na nossa própria morte. Muitas práticas espirituais tentam nos encorajar a levar nossa morte a sério, mas é impressionante como é difícil permitir que isso aconteça. A única coisa na vida que nós realmente podemos contar, é incrivelmente distante para todos nós. Nós não chegamos ao ponto de dizer: de jeito nenhum, eu não vou morrer! Porque é claro que nós sabemos que vamos. Mas definitivamente é mais tarde, essa é a maior esperança.

Somos criados em uma cultura que teme a morte e a esconde de nós. No entanto, nós a experimentamos o tempo todo! Nós a experimentamos na forma de decepção, na forma de coisas que não funcionam. Nós a experimentamos na forma de coisas constantemente em um processo de mudança. Quando o dia acaba, quando o segundo acaba, quando respiramos, essa é a morte na vida diária. A morte na vida diária também pode ser definida como a experiência de todas as coisas que não queremos: nosso casamento não está funcionando, nosso trabalho não está satisfatório.

Ter uma relação com a morte na vida diária significa que nós começamos a ser capazes de esperar, a relaxar na insegurança, no pânico, na vergonha, nas coisas que não estão funcionando. Conforme os anos passam, nós não chamamos as babás tão rapidamente. A morte e a não-esperança dão a motivação adequada. Motivação adequada para viver uma vida contemplativa e compassiva. Mas a maior parte do tempo, evitar a morte é nossa maior motivação. Nós tendemos a evitar qualquer sensação de problema. Nós sempre tentamos negar que é uma ocorrência natural que as coisas mudam. Que a areia está escorrendo entre nossos dedos. O tempo está passando. Isso é tão natural quanto a mudança das estações, e o dia se transformando em noite. Mas ficarmos velhos, ficarmos doentes, perdermos o que amamos, nós não vemos esses eventos como ocorrências naturais. Nós queremos evitar essa sensação de morte, não importa como.

Relaxar no momento atual, relaxar na falta de esperança, relaxar na morte, não resistindo ao fato de que as coisas acabam, as coisas passam, de que as coisas não têm uma substância duradoura e que tudo está mudando o tempo todo. Essa é a mensagem básica.

Palestra Não teismo destemido –  Tradução Sebastian Valle

veja o video:

Fearless Nontheism  – Pema Chodron

http://youtu.be/5_BoPc3Ca9o

http://www.youtube.com/watch?v=5_BoPc3Ca9o

Fonte: Blog “Fora de mim”

http://www.forademim.com.br/site/2013/07/pema-chodron-e-os-ensinamentos-sobre-esperanca-e-o-medo/?fb_action_ids=746317612046611&fb_action_types=og.likes&fb_source=other_multiline&action_object_map=%5B1399810796900251%5D&action_type_map=%5B%22og.likes%22%5D&action_ref_map=%5B%5D

Textos e Sutras

Do livro “Utsukushi Hitoni, da Rev. Shundo Aoyama Roshi

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Do livro “Utsukushi Hitoni, da Rev. Shundo Aoyama Roshi, Abadessa do Mosteiro Aichi Senmon Nisodo (Nagoya – Japão)

Certa vez, folheando os anais dos monges Zen da dinastia T’ang, ao ler o provérbio “Ajudar burros a atravessar, ajudar cavalos a atravessar”, fiquei muito surpresa pela semelhança do provérbio com meu trabalho. Devo ser como uma ponte, possibilitando a todos atravessar. No grupo que dirijo, existem pessoas em diferentes estágios de prática e, mesmo monges, são pessoas comuns, com momentos de delusão. Estas palavras surgiram quando ainda tinha muitas dificuldades na função, e elas passaram a ser um preceito para mim.

Anos mais tarde, quando soube que o Imperador Showa escolhera a palavra “ponte” para o tema de poesias de Ano Novo, na festa do Palácio Imperial, lembrei-me do provérbio. Não fui convidada para a festa, mas escrevi um poema sobre o tema, incorporando o provérbio.

Ajudar burros a atravessar 
Ajudar cavalos a atravessar: 
Gostaria de ser esta ponte, 
Entretanto, estou sendo ajudada a atravessar.

Durante a dinastia T’ang, na China, o grande mestre Zen Joshu Jushiro Zenji era abade do templo Kannon-in. Para chegar ao seu templo era necessário cruzar uma ponte, que foi chamada de Ponte de Joshu. Certa vez um monge noviço perguntou: “A Ponte Joshu, o que é?” Ele não estava mencionando a ponte para se chegar ao templo, mas sobre a prática budista de Joshu. Joshu respondeu: “Passa burro, passa cavalo.”

Há pessoas das quais gostamos e pessoas das quais não gostamos, amigos e inimigos.

Pela ponte passam pessoas boas como Budas, como também ladrões, assassinos, gente perversa e louca. A todos permite atravessar, sem pedir nada em troca, sem selecionar. Há quem reclame “que ponte ruim, que ponte mal feita, difícil de passar”, vão reclamando, batendo os pés, dando chutes, e pode haver até aqueles que urinem na ponte. Poucos atravessam com gratidão dizendo “Obrigada” ou “Graças a você pude atravessar”. Seja qual for a maneira que atravessem, a todos a ponte permite passar sem fazer discriminação. Joshu em sua prática de grande bodisatva‚ o símbolo dessa ponte, a imagem dessa ponte.

E eu? Cavalo atravessa… Burro não… Pessoa que gosto sim, pessoa que não gosto não. Fico escolhendo, selecionando de acordo com minhas conveniências. Quero que me elogiem “Que ponte bonita!”, “Obrigada”, “Graças a você”. Fico mal humorada e não quero deixar atravessar aqueles que me xingam ou urinam na ponte.

No meu trabalho encontro sempre monjas, noviças, praticantes leigos e tenho de lembrar-me sempre do provérbio “Ajudar burros a atravessar/ Ajudar cavalos a atravessar”, como se estivesse inúmeras vezes invocando o nome de Buda. Certo dia ocorreu-me que ser uma ponte não era suficiente… Mesmo que poucas pessoas utilizem o Ponte do Budismo, preciso fazer com que as pessoas deludidas percebam a Outra Margem, e que é necessário atravessar esta ponte.

Talvez sejam muitos os que não saibam que há uma Outra Margem. É preciso despertar neles o desejo de alcançá-la: se querem fama, dar-lhes fama; se querem pão, dar-lhes pão; se querem dinheiro, dar-lhes dinheiro; se querem relacionamento, dar-lhes relacionamento, até perceberem que este é um universo maravilhoso. Para isso é preciso ter o coração de avós bondosos, ser capaz de despir o hábito monástico, sujar as mãos com excrementos, estar entre todos, chorar, ficar deludido, rir juntos, até fazê-los perceber o Verdadeiro Caminho e puxá-los para cá.

Esse é o meu voto simbolizado pelas trinta e três faces e cem corpos de Kanon. Está escrito no Sutra de Kanon: “Nas terras do universo não há local onde não se manifeste.” Sempre e em toda parte, a atividade de Kannon se revela. Abrindo o olho do coração-mente, vejo que a pessoa da qual penso não gostar existe para que eu perceba meu próprio ego – é Kanon se revelando. Doente, fracassada ou separada de quem amo devo abandonar minhas auto-indulgências e perceber que a verdade da vida é atividade de Buda.

Vendo tudo pela perspectiva de Buda fiquei envergonhada da minha própria arrogância e pude perceber que ao invés de ser uma ponte, estou sendo ajudada a atravessar.

Fonte: http://www.monjacoen.com.br/textos/textos-diversos/175-do-livro-qutsukushi-hitoni-da-rev-shundo-aoyama-roshi