Textos e Sutras

Palavras do Dharma

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Acordávamos antes dos pássaros. Os insetos chilreavam enquanto nós sentávamos em meditação. No silêncio de nossas bocas, ouvíamos o primeiro piar anunciando a manhã. Assim passávamos os dias. De meditação em meditação, silêncio e orações. Plena atenção aos gestos, passos, olhos baixos.

Havia dor. A dor do corpo não acostumado a tantas horas na mesma posição e a dor da tristeza, da saudade, da incerteza, da culpa.

Havia a dúvida. Havia o medo de perder a razão. Como se perde a razão? Primeiro seria de bom senso encontra-lá.

Em um vitral da sala em que meditávamos, estava escrito: “Não há religião superior a verdade”. Era o que nós tentávamos encontrar, a verdade. Verdade sobre nós mesmos. Mas ela deveria ser clara e luminosa, afastando a ignorância, a ganância, a raiva, o rancor.

Esperando o momento de me levantar, com as pernas doendo, contando cada inspiração, eu me esquecia de meu propósito e de minha busca. Parece tão simples e é tão difícil. Poucos conseguem, bem poucos se interessam. Queremos sempre ser entretidos. Gostamos de entretenimento. Pode ser televisão, filme, música, teatro, leitura. Podem ser encontros, festas, conversas. Podem ser amores e desamores, afetos e desafetos, brigas, ciúmes, inveja.

Perceba suas emoções, seus pensamentos, sensações. Discernimento é uma palavra que os padres e as monjas gostam muito. Responsabilidade. Escolha.

À noite, antes de ir dormir, antes do último e delicioso toque do sino, que nos permitia levantar, com voz lenta e dramática foi declamado: “Vida e morte são de suprema importância. O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve se esforçar para acordar, para despertar. Não desperdice a sua vida.”

Saíamos da sala em silêncio. Alguns ouvindo tudo, outros nada. Mas a verdade incessante não deixava de ser proclamada. Está sempre em toda a parte e, no entanto, sem abrir o olho da sabedoria, nada entendemos.

Monja Coen

Retirado de: http://www.monjacoen.com.br/textos/textos-da-monja-coen/406-palavras-do-dharma

Textos e Sutras

Nada de especial…

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“Viver o zen não é nada de especial: é apenas a vida como tal. O zen é a vida em si, nada mais. Quando buscamos no zen (ou em qualquer caminho espiritual) a realização de nossas fantasias, separamo-nos da terra e do céu, dos nossos seres amados, de nosso coração, pois tais fantasias nos colocam num isolamento temporário. A realidade, no entanto, se insinua de mil maneiras, e a nossa vida se torna uma correria desenfreada, um desespero mudo, melodramas confusos. Distraídos e obcecados, lutando por algo especial, buscamos outro lugar e outro tempo: não o aqui, nem o agora e tampouco o isto – tudo, menos a vida comum, esse… nada de especial”

Charlotte Joko Beck

ZAZEN PARA INICIANTES

Todos os domingos. A partir das 17h20.

Espaço Har Yoga & Terapias

Textos e Sutras, Zazen

O que a prática não é

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Por Charlotte Joko Beck

Muitas pessoas praticam e têm sólidas concepções do que a prática é. O que desejo expor (de meu ponto de vista) é o que a prática não é.

Em primeiro lugar, ela não diz respeito a causar mudanças psicológicas. Se praticarmos com inteligência, a mudança psicológica será causada; não estou questionando isto que, aliás, é algo maravilhoso. Estou dizendo que a prática não é efetuada com o objetivo de originar tal alteração.

A prática não é para conhecer intelectualmente a natureza física da realidade, saber do que consiste o universo, ou como funciona. E, repetindo, numa prática séria, nossa tendência é ter algum conhecimento desses assuntos. Mas isso não é a prática.

A prática não é atingir algum estado de graça. Não é ter visões. Não é ver luzes brancas (ou róseas ou azuladas). Todas essas coisas podem ocorrer e, se sentarmos durante tempo suficiente, talvez elas aconteçam mesmo. Porém isto não é a prática.

A prática não é ter ou cultivar poderes especiais. Há muitos deles, e todos nós já os possuímos, naturalmente. Algumas pessoas os têm numa proporção extraordinária. No ZCLA (Zen Center de Los Angeles), às vezes, eu tinha a útil capacidade de ver aquilo que estava sendo servido como jantar a duas portas de distância. Se era alguma coisa que eu não apreciava, eu não ia. Essas aptidões são pequenas excentricidades e, novamente, não constituem a verdadeira prática.

A prática não implica poder pessoal ou jôriki, a força que é desenvolvida após anos de prática do sentar. Outra vez repito, o jõriki é uma decorrência natural do zazen. E, insisto, esse não é o caminho.

A prática não é para ter sentimentos agradáveis, felizes. Não é para se sentir bem, em vez de mal. Não é uma tentativa de ser ou de sentir qualquer coisa especial. O produto ou a finalidade da prática, ou aquilo a que ela se refere, não é ser/estar sempre calmo ou controlado. Mais uma vez, nossa tendência é nos tornarmos assim após muitos anos de prática, no entanto essa não é a questão.

A prática não se relaciona a algum estado corporal de saúde absoluta, de proteção total contra qualquer tipo de doença grave. Sentar costuma produzir resultados benéficos na saúde de muitas pessoas, embora durante a prática possam escoar meses ou mesmo anos de desastres com a saúde. Mais uma vez, a busca da saúde perfeita não é o caminho; embora, sem sombra de dúvida, com o tempo, haverá um efeito benéfico na saúde da maioria das pessoas. Não há qualquer garantia nesse sentido!

A prática não significa alcançar um estado de onisciência no qual a pessoa conhece tudo de tudo, estado em que a pessoa é uma autoridade a respeito de todo e qualquer problema secular. Pode até haver uma certa clareza relativa a respeito de algumas questões, mas as pessoas esclarecidas também são conhecidas por dizer e fazer tolices. Outra vez, a onisciência não é a questão.

A prática não quer dizer ser “espiritual”, pelo menos não como esta palavra costuma ser entendida e empregada. Ela não é para ser coisa alguma. Portanto, a menos que tenhamos clara nossa não-intenção de ser “espirituais”, essa meta pode tornar-se sedutora e prejudicial.

A prática não envolve salientar todas as espécies de “boas” qualidades e livrar-se das supostas “más”. Ninguém é “bom” ou “mau”. A luta para ser bom não é a prática. Esse tipo de treino é uma forma sutil de atletismo.

Poderíamos, de modo quase incessante, continuar relacionando aspectos do que a prática não é. Na realidade, qualquer um na prática pode estar mobilizado por uma ou outra dessas ilusões. Todos esperamos mudar, chegar a algum lugar! Essa é em si uma falácia básica. Porém, o mero contemplar desse desejo começa a esclarecê-lo e a prática essencial de nossa vida se altera conforme a executamos. Começamos a compreender que nosso desejo frenético de ser melhor, de “chegar a algum lugar”, é a ilusão em si, a fonte de nosso sofrimento.

Se nosso barco cheio de esperanças, ilusões e ambições (de chegar a algum lugar, de tornar-se espiritual, de ser perfeito, de alcançar a iluminação) vira de ponta-cabeça, o que é este barco vazio? Quem somos nós? O que, em termos de nossas vidas, podemos perceber, conhecer? E o que é a prática?