> História da nossa linhagem (2) – Primórdios do Zen no Japão

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

2 – Primórdios do Zen no Japão

De concepções e soluções para os problemas existenciais, o jovem Mestre Dogen estava cheio. Nascido no ano de 1200, no Japão, Eihei Dogen Zenji Sama é considerado o fundador da ordem Zen Budista Soto Shu.

O Japão do século 13 é um contexto de difícil apreensão para os ocidentais de hoje, entretanto os anseios e angústias que o jovem Dogen carregava desde a infância e sua busca incessante de respostas sobre o sentido da vida são atemporais e ainda nos inspiram.

Budista desde o ano de 538 d.C. o Japão medieval era um tempo desafiador para viver. Época de discórdia, caos social, desilusão e falta de fé.  O Budismo estava restrito às classes privilegiadas de nobres, monges e acadêmicos que dispunham de tempo para dominar sua filosofia e rituais complicados. Foi este o contexto do surgimento de líderes que questionavam a elitização do Budismo e manifestavam seu desejo de que ele deveria ser acessível a todos[1].

Uma destas pessoas foi Mestre Eisai (1141-1215), importante figura na história do jovem Eihei Dogen, e primeiro a responder a uma de suas principais angústias: por que necessitamos de práticas espirituais se, de acordo com os ensinamentos budistas, já somos todos “Budas”? 

Mestre Eisai foi um dos muitos líderes religiosos japoneses a buscar respostas que o Budismo então praticado não lhe dava. Migrou para a China, na época da dinastia Sung, e lá se familiarizou com um estilo muito diferente de Budismo, o Ch’an – ou Zen, em japonês. Na realidade, já havia no Japão notícias esparsas sobre o Zen chinês. Seja por meio de enviados japoneses ou de monges chineses fixados no Japão, os métodos Zen foram praticados por vários líderes e monges budistas, mas não chegaram a se estabelecer de modo sistemático ou coerente[2]

Mestre Eisai praticou o Zen em várias visitas que realizou à China, ao longo de cinco anos. Procurou com determinação a essência dos ensinamentos de Buda e foi no Monte Tiantung, com o Mestre Esho, que praticou o Zen da Escola Rinzai (Lin Ji em chinês) e foi reconhecido como herdeiro desta linhagem.

Disse dele Mestre Esho:

“(…) Com sua diligência e determinação aprofundadas [voto], eu não poderia deixar de indicar-lhe a essência do Darma. No passado, quando o já amadurecido Shakyamuni estava prestes a manifestar a ‘perfeita cessação’ (parinirvana), ele confiou a Mente de Nirvana, o olho e tesouro do Darma, a Mahakasypa, a qual tem sido transmitida geração após geração até mim. Agora eu confio este Darma a você. Proteja-o e o defenda, portando o selo dos ancestrais em si mesmo, retorne para seu lar para ajudar o mundo atual a obter o despertar. Revele o Darma aos seres vivos e mantenha a autêntica verdade continuamente viva entre eles”[3].

A linhagem de Mestre Eisai, tal como as demais linhagens Zen, remonta até Mestre Daikan Eno (Huineng na China, 638–713), o sexto ancestral na linhagem de Bodidarma,  monge indiano  considerado o fundador do Zen na China. 

Para ele, o que é preservado e transmitido nesta linhagem não é um conhecimento intelectual, livresco, na forma de ensinamentos estabelecidos em escrituras sagradas, mas sim um insight imediato sobre a verdadeira natureza da realidade, à qual um mestre iluminado pode conduzir um estudante por meio do treinamento ao estilo Zen[4].

Bodidarma, por sua vez, é a vigésima oitava geração após Xaquiamuni Buda, e deste ressaltava como principal ensinamento a meditação muito além da leitura de textos e da liturgia[5]. Chamavam-no de “o brâmane que fazia da meditação sentada seu principal foco”. Mais tarde, todos os seus descendentes passariam a se devotar à meditação sentada. As pessoas em geral, que não entendiam bem esta prática, a chamavam de “a escola de meditação sentada (zazen)”.  Ao longo do tempo, o prefixo “za” caiu em desuso e a linhagem passou a ser chamada simplesmente “Escola Zen”[6].

Mestre Bodidarma não pensava em fundar uma seita, tampouco alimentar debates teóricos com os estudiosos de sua época. Seu propósito era apenas transmitir o “verdadeiro espírito do Budismo”, encarnado como vivência e ação e pautado na prática da meditação Zen como método para o desenvolvimento de prajna, o conhecimento intuitivo[7].

De Xaquiamuni Buda a Mahakasypa, passando por mais de vinte gerações de indianos até chegar a Bodidarma, e deste por cinco ancestrais chineses até chegar a Daikan Eno: pela tradição Zen esta é a linha de transmissão do “olho do Darma que é puro e límpido, a sublime mente de nirvana, a realidade que é sem forma, a autêntica verdade que é sutil”, tal como disse Xaquiamuni Buda à Mahakasypa.

Mestre Daikan Eno transmitiu esta sabedoria a grande número de alunos, e destes se originaram várias escolas, sendo as cinco principais Hogen, Igyo, Unmon e as mais conhecidas Rinzai e Soto.

Mestre Eisai foi o primeiro a estabelecer no Japão a linhagem Zen Rinzai e, depois dele, Mestre Dogen estabeleceu a linhagem Zen Soto.

Disse Mestre Dogen, em um dos primeiros textos que escreveu para apresentar esta linhagem e seu principal legado, ao povo japonês:

Os sutras dizem que o Grande Gautama Buda passou sua verdade adiante para Mestre Mahakasyapa. A verdade de Buda foi então passada adiante sem nenhuma modificação de professor a aluno, até que alcançou o Venerável Bodidarma. Ele se fixou na China e então passou a verdade de Buda para o Grande Mestre Eka. Esta foi a primeira chegada da prática de zazen na China. Então, passou naturalmente desta forma de professor a aluno, depois de cinco gerações chegou a Mestre Daikan Eno .

Na medida em que a prática de zazen – a real verdade de Buda – se espalhou pela China, as pessoas começaram a entender que o estado experimentado no zazen é diferente de ensinamentos expressados em palavras e livros. Dois excelentes alunos de Mestre Daikan, Nangaku Ejo e Seigen Gyoshi, aprenderam como praticar zazen e dele se apropriaram. Eles se tornaram grandes professores e ensinaram a todos os tipos de pessoas. Estas duas correntes de ensinamentos baseados no zazen eventualmente se tornaram cinco diferentes escolas conhecidas como Hogen, Igyo, Soto, Unmon e Rinzai. Na dinastia Sung da China hoje [século XIII], a escola Rinzai é a mais poderosa.

Embora haja diferenças entre estas cinco escolas, há apenas a única prática verdadeira de zazen que o Buda ensinou. Concepções idealistas dos ensinamentos de Buda já estavam espalhadas pela China em torno do ano 200 d.C. e deixaram sua marca, mas não há qualquer critério pelo qual qualquer pessoa possa determinar qual deles é verdadeiro. Mas quando Bodidarma chegou da Índia, ele rompeu com essa teorização complicada e ensinou a prática do zazen. Eu espero que o mesmo aconteça no Japão.

Os sutras dizem que todos os vários ancestrais e Budas que viveram e praticaram a verdade que o Buda ensinou contaram com a prática do zazen, que é o sentar reto com forças ativas e passivas em equilíbrio. Todos eles valorizaram esta prática como a melhor e mais correta maneira de descobrir o que é a realidade. Todas as pessoas na Índia ou China que compreenderam o que a realidade é praticaram zazen. Esta prática, cujo poder não podemos compreender totalmente, é passada adiante precisamente de um professor a um aluno. O estudante se apropria da prática e através dela mantém a essência dos ensinamentos verdadeiros”[8].


[1] JAPAN BUDDHIST FEDERATION. A Guide do Japanese Buddhism. 2004.

[2] Ver SANO, Rev. Shunya. Procurando o “Darma corretamente transmitido” – Uma conversa do Darma sobre a origem do Budismo Zen Japonês (uma Crônica dos Professores ancestrais de Zen). Disponível em:  https://global.sotozen-net.or.jp/por/library/sermon_archive/201403.html

[3] EISAI,  Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[4] Citado em ROCHA, Cristina. All Roads Come from Zen. Busshinji as a Reference to Buddhism. Japanese Journal of Religious Studies 35/1: 81–94. 2008.

[5] COEN, Monja. Por que o Budismo tem várias vertentes? Por que você segue o Zen? Vídeo da série “Monja Coen Responde”, Canal Mova.

[6] DOGEN, E. Bendowa. A Discourse on Doing One’s Utmost in Practicing the Way of the Buddhas in Shobogenzo. The treasure House of the Eye of the True Teaching. A Trainee’s Translation of Great Master Dogen’s Spiritual Masterpiece. Rev. Hubert Nearman, O.B.C., translator. Shasta Abbey Mount Shasta, California. First Edition—2007.

[7] TEIXEIRA, Faustino. A espiritualidade Zen-budista. Horizonte, Belo Horizonte, v. 10, n. 27, p. 704-725, jul.l/set 2012.

[8] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).