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> História da nossa linhagem (4) – Mestre Dogen encontra Mestre Eisai

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

4 – Mestre Dogen encontra Mestre Eisai

Disse Mestre Eisai:

“Eu sou uma pessoa rude nascida e criada no Japão, vivendo em uma floresta no sopé de uma montanha. Seguindo o exemplo de meus antecessores, empreendi longas viagens através dos rios e mares. Vestindo um manto sujo, passei dias sentado [em meditação], de frente para uma parede em silêncio. Eu estava satisfeito com o meu destino e abstive-me de expor minha visão para os outros, pois senti-me profundamente envergonhado com o meu modo de vida que estava cheio de asneiras. Recentemente, no entanto, seguindo os passos dos antigos mestres por um tempo, observei o ‘estilo de despertar’ de um mestre chinês. Ele era, em alguns momentos, avidamente atento, mas em outros simplesmente parava. Contudo, assim que eu queimava um pedaço de incenso para saudar o mestre (Xu’an Huaichang; Ki’an Esho), a relação de convidado e anfitrião era estabelecida entre nós. Felizmente, seguindo as instruções do ancestral, eu tive uma abertura antecipada do ‘olho do despertar’. Repetidamente cultivei o método de transcender o nascimento e a morte e, entrando no Caminho, voltei para casa. A partir do momento em que eu já atingi a ‘unidade de ser’, eu gostaria muito de ajudar no florescimento do Caminho do ancestral neste país, o Japão. Essa é a única razão pela qual eu tomei para mim a responsabilidade pela sua realização e ao mesmo tempo pela qual eu oro sinceramente. Por causa disso, cultivei repetidamente o método de transcendência, e quando eu olho para trás, de novo e de novo, não vejo uma palavra a ser transmitida ou circulada”[1].

O ‘estilo de despertar’ de Mestre Eisai preencheu o mosteiro de Kennin Ji durante sua vida e algum tempo após sua morte. Sua virtude e sabedoria chegaram aos ouvidos de Mestre Dogen e,  quando foi possível, este foi buscá-lo para tentar esclarecer sua dúvida mais essencial sobre o sentido da prática budista.

Já com 14 anos de idade, Mestre Dogen tornou-se um monge budista da escola Tendai. Sua vida, marcada pelas perdas precoces de seu pai, quando ele contava dois anos, e de sua mãe, aos oito, o colocaram desde cedo em contato com a dor pungente da impermanência e com o questionamento sobre o sentido da existência e do sofrimento. A morte de sua mãe foi um dos eventos mais devastadores de sua vida, marcando-a com um forte senso de pesar e com uma determinação clara de buscar a iluminação[2].

  Além disso, registra-se que seus quatro primeiros professores do Darma, da linhagem Tendai, morreram antes que ele completasse 17 anos; Myozen, quinto professor e amigo, quando ele tinha 25 e seu último professor, Tendo Nyojo, de quem recebeu a transmissão da linhagem, faleceu quando ele completou 28.

Por outro lado, não podemos subestimar o impacto da época em que ele viveu, de caos e sofrimento decorrentes da instabilidade causada pelas rivalidades políticas e a sanguinária luta pela hegemonia do poder, algo que incluía os próprios monastérios da época. Para se ter uma ideia, as maiores instituições budistas sentiam necessidade de empregar milhares de “monges guerreiros”, treinados em artes marciais e armados, que tinham como objetivo proteger o templo e suas propriedades ou mesmo como arma para forçar decisões politicas ou destruir seitas budistas rivais. Como se já não bastasse, durante este período, o Japão sofreu uma longa série de catástrofes naturais, quando furacões, terremotos e sucessivas secas devastaram as vilas e campos, lançando a população em períodos de extrema fome e pobreza[3].

Uma promessa feita a sua mãe – aliada à natureza inquieta de sua mente questionadora – fizeram com que o jovem Dogen, aos 13 anos, viesse a fugir da carreira aristocrática a ele reservada por seu tipo paterno, responsável por sua educação.

Com a ajuda de outro tio, irmão de sua mãe e monge, tornou-se também ele um monge no Monastério Tendai, localizado no Monte Hiei. Desde criança afeito aos estudos, dedicou-se com afinco aos ensinamentos da escola Tendai, às práticas de meditação e aos ensinamentos esotéricos do sul da Índia. Com 18 anos, já tinha lido tudo o que lhe chegara sobre o Budismo.

Apesar disso, sua busca apenas começava. Nas palavras do próprio Mestre Dogen:

“Estudantes do Caminho, como iniciantes, quer você tenha ou não mente bodai (bodi citta), você deveria ler e estudar minuciosamente as escrituras, sutras e śastras[4]. Minha mente bodhi foi inicialmente despertada por conta de minha percepção da impermanência. Eu visitei muitos lugares próximos e longínquos (para encontrar um verdadeiro professor) e eventualmente deixei o mosteiro em Monte Hiei para praticar o Caminho. Finalmente me fixei em Kennin Ji.

Durante esse tempo, na medida em que não consegui encontrar um verdadeiro professor nem bons praticantes, fiquei confuso e maus pensamentos brotaram. Primeiramente, meus professores me ensinaram que eu deveria estudar tanto quanto os nossos predecessores para me tornar sábio e ser (re) conhecido na corte e famoso em todo o país.

Então, quando estudei os ensinamentos, pensei em me tornar igual aos sábios antigos deste país ou igual aqueles que receberam o título de Daishi (grande professor), etc.

Quando eu li o Kosoden, Zoku-kosoden[5] e assim por diante e aprendi sobre o estilo de vida de eminentes monges e seguidores do Darma de Buda na Grande China, notei que eles eram diferentes daquilo que meus professores haviam me ensinado. Eu também comecei a entender que a mente que eu havia estimulado era desprezada e odiada em todos os sutras, śastras e biografias. Eu finalmente percebi a verdade; mesmo se eu pensasse em obter fama, seria melhor me sentir pequeno [envergonhado] perante os antigos sábios e pessoas sinceras de gerações vindouras, do que ser bem visto pelas pessoas indignas de hoje.

Se eu desejar ser igual a alguém, então seria melhor sentir-me menor  perante os eminentes predecessores da Índia e da China e trabalhar para me tornar um seu igual. Então, desejo me tornar igual aos vários seres celestiais, seres não visíveis, Budas e bodhisatvas (…)

Um antigo disse: “Não seja arrogante e nem se considere igual aos sábios superiores. Não se deprecie e nem pense em si mesmo como inferior”. Isso significa que ambos são [uma espécie de] arrogância. Embora você possa estar em alta posição, não se esqueça que você pode cair. Embora você possa estar seguro agora, lembre-se que você pode ter que enfrentar o perigo. Embora você possa estar vivo hoje, não pense que você estará necessariamente vivo amanhã. O perigo da morte está bem aos seus pés” [6].

A sua busca por um autêntico professor continuava. Principalmente porque, quanto mais ele estudava, mais um aparente paradoxo o incomodava: se, de acordo com os ensinamentos budistas tradicionais, nossa natureza essencial é perfeita (Buda), por que temos que praticar e lutar para atingir essa perfeição? Ou, se a natureza Buda deve ser adquirida, como é possível que seja inerente as todos os seres?

Nenhum de seus professores até então conseguira lhe dar uma resposta satisfatória ou que ele pudesse compreender  Até que um deles o orientou a procurar a solução de seu dilema com um monge que havia voltado da China com o selo de transmissão que o grande Mestre Bodidarma havia levado da Índia para aquele país: Mestre Eisai[7].

E assim, Mestre Dogen foi para Kennin Ji.

Conta Mestre Dogen que, ao adentrar Kennin Ji pela primeira vez, todos os monges da sanga, de acordo com seu grau de entendimento e capacidade, protegiam seus corpos, boca e mente de ações inadequadas e equivocadas e firmemente decidiam-se por não falar ou fazer nada que fosse ruim para o Caminho de Buda ou danoso a outros. Depois que o abade Eisai faleceu, enquanto a influência de sua virtude permanecia forte, os monges eram desta forma. Com o passar do tempo, tal atitude se perdeu[8].

Há grandes indícios de que Mestre Dogen tenha conhecido pessoalmente Mestre Eisai, e que ele tenha lhe deixado uma marca profunda, ainda que breve, uma vez que Mestre Dogen se fixou em Kennin Ji nos nove anos seguintes e recebeu a transmissão da linhagem Rinzai de Mestre Myozen, sucessor de Mestre Eisai.

Para a grande dúvida de Mestre Dogen “por que buscar a perfeição, se já somos perfeitos” ou “por que praticar se já somos iluminados” um Mestre Zen, tal como Eisai, diria: “Budas, precisamente por serem Budas, não mais pensam em termos de ter ou não uma natureza Perfeita; apenas os deludidos pensam nestes termos”[9].

Com esta resposta, Mestre Dogen despertou para uma verdade simples mas profunda de que a busca e prática espiritual não tem como objetivo transformar seres humanos em Budas; não tem a ver com evoluir de um estado imperfeito, inferior para um estado superior. Na realidade, praticar é expressar esta perfeição. Budas simplesmente expressam sua natureza iluminada; deludidos correm atrás de algo que pensam que não possuem.

“Portanto, nem mesmo somos nós que praticamos mas o Buda que já somos é quem pratica. Por causa disso, realização é a prática do esforço não dualista, não o resultado ou acumulação de quaisquer práticas anteriores”.

O paradoxo conceitual se resolvera. Mas havia algo mais que Mestre Dogen ainda não havia encontrado. No entanto, apenas uma década depois, na China da dinastia Sung, viria a encontrar o que faltava.


[1] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[2] LOORI, John D. Dropping Off Body and Mind. Darma Discourse. Koans of the Way of Reality, Case 108. Master Dogen’s Enlightenment. Disponível em: http://www.mro.org/mr/archive/21-1/.

[3] BIRINGER, T.  The True Nature of Horror, Suffering, & Samsara? Disponível em: http://dogenandtheshobogenzo.blogspot.com/2010/09/true-nature-of-horror-suffering-samsara.html\

[4] Comentários sobre os Sutras. Um dos Tri-Pitaka (três categorias de escrituras budistas), juntamente com os sutras e o vinaya (textos de preceitos) (Nota 1 Em DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki).

[5] O Zoku-kosoden foi compilado por Nanzan Dosen (596–667) o fundador da Escola  Nanzan-ritsu. Esta coleção de 30 volumes inclui as biografias dos monges da dinastia Liang (502–557) até o início da dinastia Tang (618–907) (Nota 1 em Em DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki.)

[6] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[7] LOORI, John D. Dropping Off Body and Mind. Darma Discourse. Koans of the Way of Reality, Case 108. Master Dogen’s Enlightenment. Disponível em: http://www.mro.org/mr/archive/21-1/.

[8] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[9] KAPLEAU, P. Os três pilares do Zen. Belo Horizonte: Itatiaia

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).

> História da nossa linhagem (3) – Zen da China ao Japão

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

3 – Zen da China ao Japão

Na época em que Mestre Eisai visitou a China, a escola Zen usufruía do patrocínio de leigos, reconhecimento oficial e acesso exclusivo às abadias de monastérios. É importante apontar que, nesta época, os monastérios eram públicos e o Zen não possuía exclusividade – ou seja, todos os monastérios budistas chineses possuíam a mesma arquitetura, estrutura burocrática, grade de atividades e formas de disciplina e de prática. Contavam com salas de Buda (para oferendas e sutras), salas do Darma (onde se realizavam palestras) e salas de sangha (onde os monges meditavam, comiam e dormiam em plataformas).

Todos os monastérios tinham zazen e samu, a prática coletiva de limpeza, independente da sua linhagem. Diante disso, o que diferenciava a escola Zen na prática não eram arranjos institucionais ou práticas específicas mas sim reivindicações de linhagem, traço de uma dimensão não apenas mítica mas também socialmente tangível, na medida em que os monges reconhecidos como herdeiros da linhagem constituíam uma elite privilegiada dentro da ordem budista em geral. Outra diferença também estava no estilo pedagógico e retórico dos mestres[1].

O estilo Zen chegou a dominar estes monastérios por 300 anos (séc. XI a XIII) mas nunca tiveram seus próprios monastérios independentes e exclusivos. O que eram os chamados “Monastérios Zen” eram simplesmente aqueles monastérios públicos que decretos imperiais restringiam a monges budistas certificados como herdeiros de algum ramo da linhagem Zen.

Por outro lado, as linhagens Rinzai e Soto alternavam a dominância dos mosteiros. Mas enquanto a primeira advogava um estilo de meditação relacionado com a contemplação de frases, a segunda advogava um estilo conhecido como “iluminação silenciosa”. Ambas compartilhavam, contudo, de um estilo diferenciado de retórica e do corpo de literatura de koans[2]

Após cinco anos de visitas a estes monastérios na China, Mestre Eisai leva a linhagem Rinzai ao Japão, onde se apresenta como seu herdeiro legítimo. A profundidade de sua prática era tal que logo veio a atrair um sem número de alunos. Muitos queriam aprender sobre a “escola da mente de Buda” e sobre os preceitos do Bodisatva que o mestre difundia[3].

Entretanto, quanto maior a propagação de suas ideias, mais resistência ele encontrava nas escolas budistas já existentes no Japão, como Tendai, Shingon e Nara. Mestre Eisai, inclusive, era um monge da mais alta hierarquia da escola Tendai e continuava ensinando ritos e práticas desta tradição. Sua principal proposta era que a prática Zen viesse a impulsionar uma transformação das escolas tradicionais, trazendo-as de volta à essência dos ensinamentos de Buda. Ao mesmo tempo, advogava a consolidação de uma escola independente, distinta da linhagem Tendai[4].

Para Mestre Eisai, o Budismo no Japão poderia ser revivido na sua forma mais profunda e essencial, transmitido de forma autêntica e direta, de mestre a discípulo.  E isso seria feito, a ser ver, a partir de uma reforma da disciplina monástica baseada no modelo chinês descrito acima, com um rigoroso código de treinamento, pautado por preceitos morais e pelo zazen (dhyana)[5].

Cita Mestre Eisai, em um dos seus principais escritos:

 “(…) portanto, praticar dhyana [chan, zen, zazen] e adentrar o Caminho pressupõe uma conduta moral que siga os preceitos. A menos que a pessoa esteja livre de transgressões e se mantenha distante do erro, como poderia obter o despertar e se tornar um ancestral?”[6].

De modo notável, esta mensagem se dava em um contexto onde os preceitos e regulações de comportamento não guardavam importância central nas práticas religiosas.

O monastério de Kennin Ji foi um dos espaços que ele construiu tendo os monastérios chineses como modelos de organização e operação. Em sua época, por inúmeras razões, coexistiam ali práticas tradicionais ligadas às escolas Tendai e Shingon, juntamente com práticas mais diretamente advindas de sua experiência com o Zen na China. Entretanto, 800 anos depois, este mosteiro se apresenta como um ambiente exclusivo da linhagem Zen Rinzai – realização da visão de Mestre Eisai, de que um dia a escola Zen se tornaria independente e amplamente disseminada no Japão.


[1] FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html

[2] FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html

[3] Foreword em EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[4] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[5] WELTER, A. Zen Buddhism as the Ideology of the Japanese State: Eisai and the Kozen Gokokuron em Zen Classics: Formative Texts in the History of Zen Buddhism. 2006.

[6] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).

> História da nossa linhagem (2) – Primórdios do Zen no Japão

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

2 – Primórdios do Zen no Japão

De concepções e soluções para os problemas existenciais, o jovem Mestre Dogen estava cheio. Nascido no ano de 1200, no Japão, Eihei Dogen Zenji Sama é considerado o fundador da ordem Zen Budista Soto Shu.

O Japão do século 13 é um contexto de difícil apreensão para os ocidentais de hoje, entretanto os anseios e angústias que o jovem Dogen carregava desde a infância e sua busca incessante de respostas sobre o sentido da vida são atemporais e ainda nos inspiram.

Budista desde o ano de 538 d.C. o Japão medieval era um tempo desafiador para viver. Época de discórdia, caos social, desilusão e falta de fé.  O Budismo estava restrito às classes privilegiadas de nobres, monges e acadêmicos que dispunham de tempo para dominar sua filosofia e rituais complicados. Foi este o contexto do surgimento de líderes que questionavam a elitização do Budismo e manifestavam seu desejo de que ele deveria ser acessível a todos[1].

Uma destas pessoas foi Mestre Eisai (1141-1215), importante figura na história do jovem Eihei Dogen, e primeiro a responder a uma de suas principais angústias: por que necessitamos de práticas espirituais se, de acordo com os ensinamentos budistas, já somos todos “Budas”? 

Mestre Eisai foi um dos muitos líderes religiosos japoneses a buscar respostas que o Budismo então praticado não lhe dava. Migrou para a China, na época da dinastia Sung, e lá se familiarizou com um estilo muito diferente de Budismo, o Ch’an – ou Zen, em japonês. Na realidade, já havia no Japão notícias esparsas sobre o Zen chinês. Seja por meio de enviados japoneses ou de monges chineses fixados no Japão, os métodos Zen foram praticados por vários líderes e monges budistas, mas não chegaram a se estabelecer de modo sistemático ou coerente[2]

Mestre Eisai praticou o Zen em várias visitas que realizou à China, ao longo de cinco anos. Procurou com determinação a essência dos ensinamentos de Buda e foi no Monte Tiantung, com o Mestre Esho, que praticou o Zen da Escola Rinzai (Lin Ji em chinês) e foi reconhecido como herdeiro desta linhagem.

Disse dele Mestre Esho:

“(…) Com sua diligência e determinação aprofundadas [voto], eu não poderia deixar de indicar-lhe a essência do Darma. No passado, quando o já amadurecido Shakyamuni estava prestes a manifestar a ‘perfeita cessação’ (parinirvana), ele confiou a Mente de Nirvana, o olho e tesouro do Darma, a Mahakasypa, a qual tem sido transmitida geração após geração até mim. Agora eu confio este Darma a você. Proteja-o e o defenda, portando o selo dos ancestrais em si mesmo, retorne para seu lar para ajudar o mundo atual a obter o despertar. Revele o Darma aos seres vivos e mantenha a autêntica verdade continuamente viva entre eles”[3].

A linhagem de Mestre Eisai, tal como as demais linhagens Zen, remonta até Mestre Daikan Eno (Huineng na China, 638–713), o sexto ancestral na linhagem de Bodidarma,  monge indiano  considerado o fundador do Zen na China. 

Para ele, o que é preservado e transmitido nesta linhagem não é um conhecimento intelectual, livresco, na forma de ensinamentos estabelecidos em escrituras sagradas, mas sim um insight imediato sobre a verdadeira natureza da realidade, à qual um mestre iluminado pode conduzir um estudante por meio do treinamento ao estilo Zen[4].

Bodidarma, por sua vez, é a vigésima oitava geração após Xaquiamuni Buda, e deste ressaltava como principal ensinamento a meditação muito além da leitura de textos e da liturgia[5]. Chamavam-no de “o brâmane que fazia da meditação sentada seu principal foco”. Mais tarde, todos os seus descendentes passariam a se devotar à meditação sentada. As pessoas em geral, que não entendiam bem esta prática, a chamavam de “a escola de meditação sentada (zazen)”.  Ao longo do tempo, o prefixo “za” caiu em desuso e a linhagem passou a ser chamada simplesmente “Escola Zen”[6].

Mestre Bodidarma não pensava em fundar uma seita, tampouco alimentar debates teóricos com os estudiosos de sua época. Seu propósito era apenas transmitir o “verdadeiro espírito do Budismo”, encarnado como vivência e ação e pautado na prática da meditação Zen como método para o desenvolvimento de prajna, o conhecimento intuitivo[7].

De Xaquiamuni Buda a Mahakasypa, passando por mais de vinte gerações de indianos até chegar a Bodidarma, e deste por cinco ancestrais chineses até chegar a Daikan Eno: pela tradição Zen esta é a linha de transmissão do “olho do Darma que é puro e límpido, a sublime mente de nirvana, a realidade que é sem forma, a autêntica verdade que é sutil”, tal como disse Xaquiamuni Buda à Mahakasypa.

Mestre Daikan Eno transmitiu esta sabedoria a grande número de alunos, e destes se originaram várias escolas, sendo as cinco principais Hogen, Igyo, Unmon e as mais conhecidas Rinzai e Soto.

Mestre Eisai foi o primeiro a estabelecer no Japão a linhagem Zen Rinzai e, depois dele, Mestre Dogen estabeleceu a linhagem Zen Soto.

Disse Mestre Dogen, em um dos primeiros textos que escreveu para apresentar esta linhagem e seu principal legado, ao povo japonês:

Os sutras dizem que o Grande Gautama Buda passou sua verdade adiante para Mestre Mahakasyapa. A verdade de Buda foi então passada adiante sem nenhuma modificação de professor a aluno, até que alcançou o Venerável Bodidarma. Ele se fixou na China e então passou a verdade de Buda para o Grande Mestre Eka. Esta foi a primeira chegada da prática de zazen na China. Então, passou naturalmente desta forma de professor a aluno, depois de cinco gerações chegou a Mestre Daikan Eno .

Na medida em que a prática de zazen – a real verdade de Buda – se espalhou pela China, as pessoas começaram a entender que o estado experimentado no zazen é diferente de ensinamentos expressados em palavras e livros. Dois excelentes alunos de Mestre Daikan, Nangaku Ejo e Seigen Gyoshi, aprenderam como praticar zazen e dele se apropriaram. Eles se tornaram grandes professores e ensinaram a todos os tipos de pessoas. Estas duas correntes de ensinamentos baseados no zazen eventualmente se tornaram cinco diferentes escolas conhecidas como Hogen, Igyo, Soto, Unmon e Rinzai. Na dinastia Sung da China hoje [século XIII], a escola Rinzai é a mais poderosa.

Embora haja diferenças entre estas cinco escolas, há apenas a única prática verdadeira de zazen que o Buda ensinou. Concepções idealistas dos ensinamentos de Buda já estavam espalhadas pela China em torno do ano 200 d.C. e deixaram sua marca, mas não há qualquer critério pelo qual qualquer pessoa possa determinar qual deles é verdadeiro. Mas quando Bodidarma chegou da Índia, ele rompeu com essa teorização complicada e ensinou a prática do zazen. Eu espero que o mesmo aconteça no Japão.

Os sutras dizem que todos os vários ancestrais e Budas que viveram e praticaram a verdade que o Buda ensinou contaram com a prática do zazen, que é o sentar reto com forças ativas e passivas em equilíbrio. Todos eles valorizaram esta prática como a melhor e mais correta maneira de descobrir o que é a realidade. Todas as pessoas na Índia ou China que compreenderam o que a realidade é praticaram zazen. Esta prática, cujo poder não podemos compreender totalmente, é passada adiante precisamente de um professor a um aluno. O estudante se apropria da prática e através dela mantém a essência dos ensinamentos verdadeiros”[8].


[1] JAPAN BUDDHIST FEDERATION. A Guide do Japanese Buddhism. 2004.

[2] Ver SANO, Rev. Shunya. Procurando o “Darma corretamente transmitido” – Uma conversa do Darma sobre a origem do Budismo Zen Japonês (uma Crônica dos Professores ancestrais de Zen). Disponível em:  https://global.sotozen-net.or.jp/por/library/sermon_archive/201403.html

[3] EISAI,  Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.

[4] Citado em ROCHA, Cristina. All Roads Come from Zen. Busshinji as a Reference to Buddhism. Japanese Journal of Religious Studies 35/1: 81–94. 2008.

[5] COEN, Monja. Por que o Budismo tem várias vertentes? Por que você segue o Zen? Vídeo da série “Monja Coen Responde”, Canal Mova.

[6] DOGEN, E. Bendowa. A Discourse on Doing One’s Utmost in Practicing the Way of the Buddhas in Shobogenzo. The treasure House of the Eye of the True Teaching. A Trainee’s Translation of Great Master Dogen’s Spiritual Masterpiece. Rev. Hubert Nearman, O.B.C., translator. Shasta Abbey Mount Shasta, California. First Edition—2007.

[7] TEIXEIRA, Faustino. A espiritualidade Zen-budista. Horizonte, Belo Horizonte, v. 10, n. 27, p. 704-725, jul.l/set 2012.

[8] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).