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> História da nossa linhagem (7) – Mestre Dogen de volta ao Japão

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

7 – De volta ao Japão

Em 1225, Mestre Dogen é reconhecido formalmente como sucessor de Mestre Tendo Nyojo, na linhagem conhecida como Soto. Disse ele:

“Você tem a disciplina dos Budas antigos. Você certamente irá disseminar o caminho do Zen. Ter encontrado você é equivalente a Shakyamuni Buddha ter encontrado  Kayashapa”[1].

Sendo assim, Mestre Dogen se empenhou para organizar o que aprendeu na China e a transcrever os ensinamentos dos sábios professores para compartilhar com aqueles que tinham interesse em praticar e entender o zazen. Vale lembrar que o zazen não era muito disseminado no Japão, mesmo em Kennin ji, onde a tradição de koan era avançada.

De volta ao Japão, tal como Mestre Eisai, Mestre Dogen encontrou resistência e oposição das tradições estabelecidas na medida em que seu estilo particular de Zen começou a atrair seguidores. Deste modo, por alguns anos, ele transitou entre diferentes localidades, buscando se afastar de distrações e tensões políticas, até se fixar em um local mais distante e remoto, no que viria a ser o templo Eihei-ji – um dos templos sede da tradição Soto Shu nos dias de hoje.

 Do momento em que colocou os pés no Japão (1227) até sua morte em 1253, Mestre Dogen se dedicou a escrever os fundamentos da prática zazen, a apresentar a essência dos ensinamentos de Buda e, principalmente, a desenvolver a forma monástica do Zen, algo novo no Japão naquele tempo[2].

Baseado no modelo chinês[3], ele construiu espaços para acomodar a prática do zazen, estabeleceu regulações monásticas e a forma como os monásticos deveriam ser treinados. Assim fazendo, Mestre Dogen transmitia e interpretava regras, princípios e procedimentos que estudou, nos quais foi instruído e que testemunhou nos monastérios de Sung China.

Como vimos anteriormente, estas regras monásticas eram comuns a toda sanga budista na China e o diferencial da linhagem Ch’an/Zen era o corpo de literatura e o estilo pedagógico dos mestres[4]. Entretanto, estudiosos dizem que a genialidade de Mestre Dogen como pioneiro consistiu em sua brilhante justaposição e elucidação das regras monásticas budistas chinesas e os ensinos Ch’an – dois tipos de literatura que na China eram tratados separadamente. Ou seja, ele conseguiu ler nas regras monásticas o espírito dos ancestrais Zen, dando vida e significado espiritual a regras de etiqueta e comportamento “frias”[5].

Por conta disso, as regras e procedimentos que ele organizou, desde o modo correto de escovar os dentes ou comer na sala de meditação, não são apenas regras que devem ser seguidas de modo rígido e dogmático. O que importa é seu “espírito”, de despertar o praticante para a responsabilidade pelo bem comum, para a percepção da interdependência, para o ‘interser’.

Explica Mestre Dogen:

 “[Você] deve manter os preceitos e regulamentos [por exemplo] em relação à alimentação (uma refeição por dia antes do meio dia, etc.). Ainda assim, é errado insistir neles como sendo a essência, estabelecê-los como sendo uma prática e esperar ser capaz de obter o Caminho [apenas] os observando. Nós os seguimos apenas porque estas são as atividades dos monges Zen e o estilo de vida dos filhos do Buda. Embora mantê-los seja algo bom, não devemos tomá-los como a prática principal. Eu não quero dizer, no entanto, que você deve quebrar os preceitos e tornar-se autoindulgente. Agarrar-se a tal atitude é uma má escolha e não é a atitude de um praticante budista (…)”[7].

Este raciocínio também vale para os preceitos budistas propriamente ditos. O poder transformador do zazen torna os preceitos uma verdade viva e vivida, mais do que um conjunto de comandos morais seguidos de forma rígida ou mecânica. No meio do caminho entre negligenciar preceitos e regulações e colocar ênfase na sua observação (algo que Mestre Eisai privilegiava) existe o caminho de observá-los sem se apegar a eles e, principalmente sem expectativa de qualquer tipo de recompensa por isso.

“Efetivamente os preceitos e o zazen, ambos fundamentados na mesma natureza-Buda, que é fonte de toda pureza e bondade, mutuamente se reforçam. A mais firme resolução de guardar os preceitos, só será, quando muito, esporadicamente bem sucedida se não for sustentada pelo zazen; e o zazen divorciado da vida disciplinada que surge de um sincero esforço de observar os preceitos, só poderá ser fraco e duvidoso” (…)

De fato, os mestres japoneses insistem em que somente sob a total iluminação poderá alguém conhecer verdadeiramente a diferença entre o bem e o mal, e sob o poder do zazen, traduzir esta sabedoria em suas ações cotidianas”[8].

Prática Comunitária e Preceitos

Desde a época de Shakyamuni Buda, a sangha é uma das três joias[9] do Budismo e desde então os monges praticam em comunidade, baseados na coleção de regulações Vinaya, tendo por suporte os leigos. Na China, como vimos, a linhagem Zen desenvolveu seus próprios padrões de prática comunitária chamado Shingi, com três pilares principais: estudo do Darma através das palestras do Mestre (jodo), prática do zazen e trabalho comunitário (fushin-samu).

Mais do que uma simples coleção de regras, o Shingi é uma articulação do profundo significado que cada atividade diária tem como prática do Darma e como expressão dos três aspectos da mente bodhi: sabedoria (ver a impermanência de todas as coisas do mundo e se libertar do apego que deseja fama e lucro), compaixão (trabalhar pelo despertar de todos os seres) e devoção para manter e transmitir a tradição Budista (valorizar e manter o estilo de prática estabelecido pelos Budas e ancestrais e transmitir este estilo às gerações seguintes)[10].

Neste sentido, Mestre Dogen não foi apenas um filósofo, um poeta e um místico. Ele foi o fundador e líder espiritual de uma comunidade de prática. Ele tinha responsabilidade pelas atividades de todos, ele se envolvia com a sociedade do seu tempo, seu pensamento advinha de uma realidade vibrante de atividades cotidianas e relacionamentos e não de uma prática isolada numa caverna[11]

“A prática comunitária é a prática da originação interdependente. Nada no céu ou na terra pode existir independentemente por si mesmo. Tudo existe dentro da relação de causas e condições. A partir do momento que somos sustentados por todos os seres, precisamos sustentar todos os seres – apreciá-los, ser gratos por eles e viver juntos com todos eles. Ao menos, devemos tentar ser úteis ao invés de prejudiciais. Esta é a prática do voto de Bodhisatva. De acordo com Dogen, a prática comunitária nos permite viver desta forma” [12].

Mesmo em sua época isso foi revolucionário. Não foi difícil para monásticos entenderem o significado do zazen e do estudo do Darma. O trabalho comunitário (limpar, cozinhar, lavar, cuidar, etc.), porém, não era valorizado. Nos monastérios, ele era realizado pela classe baixa, humilde, dos monges. Como Mestre Dogen era de uma família de classe nobre, é possível que nunca tenha se engajado em tal tipo de trabalho e apenas se concentrado na pratica de meditação, em estudar a filosofia Budista e realizar cerimônias. Por isso ele foi tão impactado, por exemplo, por um monge que conheceu na época em que esteve retido no navio por três meses na China[13].

Este monge era um cozinheiro de um monastério Ch’an, de 60 anos, que foi ao navio para comprar alguns cogumelos japoneses. Depois de uma conversa animada com o monge, ao perceber que o monastério era muito distante, Mestre Dogen convidou-o a passar a noite no navio, partindo descansado no dia seguinte. Entretanto, o velho monge insistiu em retornar, dizendo que o dever o chamava. Mestre Dogen insistiu, dizendo que outros poderiam cozinhar, afinal, era um monastério grande e cozinhar não era bem o foco do Zen. Relata o próprio Mestre Dogen este diálogo:

 – Venerável mestre! Por que o senhor não faz zazen ou estuda os koans de mestres antigos? Qual o sentido de trabalhar tão arduamente como um monge cozinheiro?

Ao ouvir minhas observações, ele caiu em risadas e disse:

– Caro estrangeiro! Você parece ignorar o verdadeiro treinamento e o significado do Budismo.

(…) Naquela época, entretanto, eu fui incapaz de entender o que ele queria dizer com isso[14].

A prática monástica é uma oportunidade para desenvolver a capacidade de colocar em ação os princípios universais do despertar em meio aos afazeres concretos do cotidiano[15]. Cada ação diária é tratada como ferramenta para desenvolver a plena atenção e a percepção da interdependência e interconexão entre todos os fenômenos.


[1] Citado em LOORI, John D. Dropping Off Body and Mind. Darma Discourse. Koans of the Way of Reality, Case 108. Master Dogen’s Enlightenment. Disponível em: http://www.mro.org/mr/archive/21-1/.

[2] LOORI, John D. Dropping Off Body and Mind. Darma Discourse. Koans of the Way of Reality, Case 108. Master Dogen’s Enlightenment. Disponível em: http://www.mro.org/mr/archive/21-1/.

[3] “Os regulamentos monásticos Zen (Qinggui em chinês; Shingi em japonês) são uma conseqüência do Vinaya Budista primitivo, as injunções éticas disseminadas pelo Buda. As primeiras e lendárias regras monásticas Zen são tradicionalmente atribuídas a Baizhang Huaihai (749-814; Hyakujo Ekai em japonês). Baizhang é amplamente considerado na tradição como o fundador da ética do trabalho Zen, por exemplo, com sua famosa declaração: “um dia sem trabalho é um dia sem comer”. Mestre Dogen cita Baizhang como uma inspiração para seu próprio Shingi, o qual, para instruções procedimentais, cita tanto o velho Vinaya atribuído diretamente ao Buda Shakyamuni, como também passagens do Chanyuan Qinggui (Zen’en Shingi em japonês), a mais abrangente coleção chinesa de regulamentos monásticos Zen, compilada em 1103” (FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html).

[4] Como vimos,  “a escola Zen não tinha seus proprios arranjos de monasterio ou ordenaçoes e a maioria dos rituais e praticas que os monges Zen faziam eram comuns a todos os monges budistas. A escola tinha sim um estilo de retórica distinto e corpo de literatura,  e desenvolveu uma nova forma de meditaçao que envolvia contemplaçao de frases, pinçadas desta literatura. Esta era uma pratica exclusiva do Ch’an mas que foi preferencialmente promovida pela linhagem Lin Chi. Os herdeiros da linhagem Ts’ao Tung usavam a mesma retorica Ch’an e literatura de koans mas tomavam uma orientaçao mais tradicional da prática do zazen (FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html).

[5] FOULK, T. Griffith. “Rules of Purity” in Japanese Zen. Em: Zen Classics: Formative Texts in the History of Zen Buddhism. 2006. 

[7] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[8] KAPLEAU, P. Os três pilares do Zen. Belo Horizonte: Itatiaia.

[9] As outras duas são Buda e Darma.

[10] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[11] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[12] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[13] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[14] DHARMANET. The story of Zen. Disponível em: https://dharmanet.org/coursesM/27/zenstory27a.htm

[15] LEIGHTON, Taigen D.  Sacred Fools and Monastic Rules: Zen Rule-Bending and the Training for Pure Hearts. Originally presented as a paper for a Monastic Dialogue Conference, New Camaldolese Hermitage, June 2000. Disponível em http://www.ancientdragon.org/Darma/articles/sacred_fools_and_monastic_rules.

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).

> História da nossa linhagem (6) – O que Mestre Dogen encontrou na China

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

6 – O que Mestre Dogen encontrou na China

Decisão tomada e sem tempo a perder, Mestre Myozen e alguns alunos desembarcaram na China. Na realidade, possivelmente por motivos burocráticos, Mestre Dogen permaneceu no navio por três meses, enquanto Mestre Myozen seguiu seu caminho até o Monte Tientung, onde seu antigo professor Eisai havia sido treinado. Ficou ali por três anos até sua morte e suas cinzas foram levadas de volta para o Japão por Mestre Dogen.

Após sair do navio, em suas várias visitas a monastérios chineses, Mestre Dogen desencantou-se com a situação de dificuldade e declínio do Budismo chinês, inclusive da linhagem Rinzai, cujos mestres passaram a se envolver na política, fazendo com que os centros de prática se desvirtuassem em centros da vida social e política[1].

Disse ele:

“Embora haja na China um grande número daqueles que professam a si mesmos como descendentes dos Budas e dos patriarcas, poucos são os que estudam a verdade e poucos os que a ensinam (…)”[2].

Foi quando, ainda desiludido por não encontrar um professor autêntico e prestes a voltar para o Japão, ouviu notícias de um velho mestre que assumira a abadia do monastério de Tientung que ele já havia visitado no inicio da viagem: Tendo Nyojo (Rujing, 1163-1228).

Ao terem contato, Mestre Dogen foi imediatamente tomado pela sabedoria, integridade e disciplina de prática de Mestre Tendo[3].  Tornou-se seu discípulo e com ele praticou por dois anos e meio, recebendo a transmissão do darma ao final do treinamento e retornando para o Japão no ano de 1227.

Tendo Nyojo foi um dos poucos mestres da linhagem Soto (Ts’ao Tung, em chinês) a liderar um importante monastério tradicionalmente ligado à linhagem Rinzai (Lin Ji). Era um mestre gentilmente rigoroso. Simples em hábitos, dieta e vestes, e imune aos atrativos de reconhecimento da corte. Era, acima de tudo, firme em sua defesa  do zazen[4].

Conta Mestre Dogen que, em uma de suas palestras formais, Mestre Tendo disse:

“Eu estou velho. Deveria ter me aposentado do mosteiro e me mudado para um eremitério para cuidar de mim mesmo em minha velhice. No entanto, eu sou o abade e seu professor, cujo dever é quebrar as ilusões de cada um de vocês e transmitir o Caminho; portanto, eu às vezes uso uma linguagem dura para repreendê-los, ou bato em vocês com o bastão de bambu. Eu me arrependo de ter que fazer isso. Contudo, esta é a maneira de fazer com que o Darma de Buda floresça. Irmãos, por favor, tenham compaixão de mim e perdoem-me pelos meus atos”[5].

Mestre Dogen conta ainda que, ao ouvir essas palavras, seus discípulos derramaram lágrimas, cientes de que “somente com tal espírito se pode ensinar e propagar o darma”.      

Tal ‘espírito’ a que Mestre Dogen se referia permeava todas as ações de Mestre Tendo e o colocava para além das divisões sectárias do Budismo. Ele aspirava por um Budismo aberto e universalizante e não gostava nem mesmo de nomear sua prática como sendo Zen/Ch’an. Seu objetivo era aprofundar o Darma[6].

Para ele, o Budismo “não devia reverenciar nada daquilo que sinalizasse glória e poderes mundanos; devia, sim, contentar-se com a virtude da pobreza e do viver na profunda paz das montanhas. O Darma deveria ser buscado para o bem do Darma[7].

“Presunção, discriminação, imaginação, intelecto, compreensão humana e assim por diante não tem nada a ver com o Budismo quando estudando o Zen. Muitos [que], assim como crianças, brincam com estas coisas desde o nascimento, acordem para o Budismo agora. Acima de tudo evite presunção e discriminação: reflita sobre isto. O caminho de penetrar o portal é conhecido apenas pelos Mestres que obtiveram este Darma. Não pode ser alcançado pelos que apenas estudam textos”[8].

No momento em que encontrou um autêntico mestre, um Mestre Desperto, Mestre Dogen pôde encontrar a si mesmo. Suas angústias e dúvidas cessaram a partir do momento em que acessou uma esfera de entendimento para além das teorizações e conceitos, que sempre podem ser contraditos. O mundo dividido em partes, divisões, partidos, terremotos, guerras e crenças, cedeu espaço àquilo que não é quebrado, que é uno – a “unidade do ser” mencionada por Mestre Eisai.

Mais do que resolver paradoxos teóricos, a relação com o Mestre e seu método original de treinamento e orientação permite a transmissão direta, mente a mente, do “olho do Darma que é puro e límpido, a sublime mente de nirvana, a realidade que é sem forma, a autêntica verdade que é sutil”.

A sabedoria do Zen está corporificada na pessoa de um Mestre. Sem ele, o passado do Zen é sem vida.

Nas palavras de um praticante contemporâneo:

“Como música aprisionada em um disco que precisa de energia elétrica e um aparelho de reprodução para que ela viva, o coração mente de Buda, sepultado nos sutras, precisa de uma força viva na pessoa de um Roshi (Mestre) iluminado para recriá-lo” [9].

O Mestre é o responsável por encontrar meios para que esta música seja ouvida pelos alunos. Dos inúmeros expedientes de que dispõe, o que permanece constante através dos séculos como o método mais direto para adentrar o Caminho é o zazen. 

“A partir do momento em que um discípulo vem a encontrar face a face aquele que será seu amigo espiritual e conhecido professor, não há necessidade do discípulo oferecer incenso, fazer prostrações, cantar os nomes dos Budas, realizar práticas ascéticas e penitências ou recitar as escrituras: o Mestre apenas faz com o discípulo sente em pura meditação até que ele deixe seu corpo e mente caírem”[10].

Diz ainda Mestre Dogen:

Depois de ouvir as instruções de meu professor sobre a verdade da importância do zazen, pratiquei o zazen dia e noite. Quando os outros monásticos abandonavam o zazen temporariamente em momentos de calor ou frio extremos por medo de ficarem doentes, pensava comigo mesmo, devo ainda dedicar-me ao zazen, mesmo ao ponto de morte pelo ataque de alguma doença. Se eu não pratico o zazen, mesmo sem doença, de que serve cuidar do meu corpo? (…) Pensando assim continuamente, sentei-me em zazen resolutamente dia e noite, e nenhuma doença adveio”[11].

O zazen que Mestre Dogen encontrou na China, na pessoa de Mestre Tendo Nyojo, foi um zazen diferente daquele que resolve koans ou conta respirações. Ali ele conheceu e experenciou o Shikantaza – na definição de Yasutani Roshi, “um estado mais elevado da consciência concentrada, no qual alguém não está tenso, apressado e nem, certamente, negligente. É a mente de alguém que enfrenta a morte[12].

Zazen não é apenas um sentar qualquer. É um sentar fundamentado na fé inabalável de que sentar-se como sentaram os ancestrais, com a mente vazia de todos os conceitos, crenças e pontos de vista, é a atualização e o desabrochar da mente Bodhi intrinsecamente iluminada com que todos somos dotados[13].

E esta fé é o fator sem o qual não há iluminação. Fé como um compromisso interior e sincero com a vida espiritual, uma vez que ela exige esforço resoluto e aplicação da vontade, empenho, energia, iniciativa. Energia para superar-se, para dominar a própria mente e não se entregar[14]. Ou seja, a fé é um pré-requisito para a iluminação.

“Nosso grande Mestre Xaquiamuni só conseguiu alcançar o ensinamento que prevalece no mundo atual após se submeter a severo treinamento por incontáveis eons. Considerando-se quão dedicado foi o fundador do Budismo, podem os seus descendentes querer fazer menos do que ele? Aqueles que buscam o Caminho não devem procurar por uma prática fácil. Procedendo assim, vocês jamais serão capazes de alcançar o mundo verdadeiro da iluminação ou de encontrar a sala do tesouro. Até mesmo o mais talentoso dos antigos ancestrais afirmou que o Caminho é difícil de praticar. Você deveria se dar conta do quanto o Budismo é imenso e profundo. Se o Caminho fosse, originalmente, tão fácil de praticar e entender, esses primeiros e talentosos ancestrais não teriam chamado a atenção, exaustivamente, para suas dificuldades. As pessoas de hoje, quando comparadas aos antigos ancestrais, não chegam nem a um único fio de cabelo em relação a um rebanho de nove vacas! Isto quer dizer que, mesmo se essas pessoas modernas, que não possuem nem habilidade nem sabedoria, se esforçassem ao extremo, a sua prática, imaginada como difícil, ainda assim seria incomparável àquela dos primeiros ancestrais”[15].

Eis a verdadeira natureza de nosso Voto.


[1] TEIXEIRA, Faustino. A espiritualidade Zen budista. PPCIR-UFJF. Disponível em https://www.monjacoen.com.br/textos/textos-diversos/791-a-espiritualidade-zen-budista.

[2] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[3] Citado em LOORI, John D. Dropping Off Body and Mind. Darma Discourse. Koans of the Way of Reality, Case 108. Master Dogen’s Enlightenment. Disponível em: http://www.mro.org/mr/archive/21-1/.

[4] DHARMANET. The story of Zen. Disponível em: https://dharmanet.org/coursesM/27/zenstory27a.htm

[5] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[6] TEIXEIRA, Faustino. A espiritualidade Zen-budista. Horizonte, Belo Horizonte, v. 10, n. 27, p. 704-725, jul.l/set 2012.

[7] TEIXEIRA, Faustino. A espiritualidade Zen-budista. Horizonte, Belo Horizonte, v. 10, n. 27, p. 704-725, jul.l/set 2012.

[8] DOGEN, E. Gakudo Yojinshu – Guia para a prática do Caminho. Disponível em:

https://www.monjacoen.com.br/textos/textos-tradicionais/107-gakudo-yojinshu-guia-para-a-pratica-do-caminho.

[9] KAPLEAU, P. Os três pilares do Zen. Belo Horizonte: Itatiaia.

[10] DOGEN, E. Bendowa. A Discourse on Doing One’s Utmost in Practicing the Way of the Buddhas in Shobogenzo. The treasure House of the Eye of the True Teaching. A Trainee’s Translation of Great Master Dogen’s Spiritual Masterpiece. Rev. Hubert Nearman, O.B.C., translator. Shasta Abbey Mount Shasta, California. First Edition—2007.

[11] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[12] KAPLEAU, P. Os três pilares do Zen. Belo Horizonte: Itatiaia.

[13] KAPLEAU, P. Os três pilares do Zen. Belo Horizonte: Itatiaia.

[14] TEIXEIRA, Faustino. A espiritualidade Zen-budista. Horizonte, Belo Horizonte, v. 10, n. 27, p. 704-725, jul.l/set 2012.

[15] DOGEN, E. Gakudo Yojinshu – Guia para a prática do Caminho. Disponível em:

https://www.monjacoen.com.br/textos/textos-tradicionais/107-gakudo-yojinshu-guia-para-a-pratica-do-caminho.

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).