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Shobogenzo Zuimonki (1) – Introdução

INTRODUÇÃO por Shohaku Okumura Roshi

1. Mestre Zen Dogen e Koun Ejo

O Shobogenzo Zuimonki consiste em palestras sobre o darma de Eihei Dogen Zenji (1200 – 1253), que fez a transmissão da Soto Zen da China para o Japão. Essas palestras foram originalmente registradas por Koun Ejo Zenji, sucessor do darma de Dogen e, provavelmente, editadas por seus discípulos depois da morte de Ejo.

Nesta introdução, eu gostaria de apresentar brevemente Ejo Zenji, tendo em vista que ele não é tão conhecido no Ocidente quanto Dogen Zenji.

Ejo nasceu em 1198, em uma família nobre, os Fujiwara, de Kioto. Em 1215, aos 18 anos de idade, foi ordenado como monge Tendai sob supervisão do Mestre Enno, em Yokawa, no Monte Hiei. Ele estudou a filosofia básica do Budismo, o Kusha (Abhidharmakosabhasya) Jojitsu (Satyasidhi-sastra) e os ensinamentos Tendai (Tientai). Entretanto, ele percebeu que estudar por fama e lucro ou por títulos elevados na ordem Budista era sem sentido. Despertando a mente Bodai, ele quis deixar o monastério, como  muitos outros líderes budistas fizeram naquela idade.

De acordo com o Denkoroku [Registros da transmissão da Luz] de Keizan Jokin, que recebeu de Ejo a ordenação e, mais tarde, tornou-se sucessor de Tettso Gikai, Ejo visitou sua mãe uma vez. Sua mãe lhe disse: “Eu permiti que você se tornasse monge não por querer que se elevasse a uma alta posição ou se associasse à classe mais alta. Simplesmente não estude ou pratique por fama e lucro. Espero apenas que você pratique na pobreza, vista mantos pretos, pendure um chapéu de bambu nas costas e caminhe com seus próprios pés (ao invés de montar em liteiras)”.

Ao ouvir estas palavras, Ejo substituiu seus mantos e nunca mais voltou ao Monte Hiei. Ele visitou Shoku (1177 – 1247), discípulo de Honen e fundador da Escola Nishiyama do Budismo Terra Pura, buscando estudar o nenbutsu. Posteriormente, ele praticou o Zen com Bucchi Kakuan (? – ?), discípulo de Dainichi Nonin (? – ?).

Nesta época, Zen e Nenbutsu eram os dois principais movimentos do assim chamado “Novo Budismo”. Um dos dois líderes foi Myoan Eisai (1141 – 1215). Duas vezes Eisai foi à China sendo que, na segunda vez, lá permaneceu por cinco anos a fim de estudar o Zen Rinzai. Ele recebeu a transmissão do darma de Koan Esho (Xuan Huaichang, (? – ?) e introduziu o Zen no Japão. Outro líder do Zen foi Dainichi Nonin. Ele não foi à China, ao contrário, praticou o Zen sozinho e obteve iluminação. Como ele era difamado pelas pessoas porque não havia recebido a transmissão do darma, ele enviou dois de seus discípulos à China com uma carta contendo seu entendimento do Zen. Os discípulos de Nonin visitaram Setsuan Tokko (Zhuoan Deguang, 1121 – 1203) e receberam o inka para Nonin. Sua escola foi chamada de Nippon-Darumashu (Escola do Darma Japonês). Kakuan foi o sucessor de Nonin. Não apenas Ejo, mas também Ekan e seus discípulos Gikai, Giin, Gien e outros, que mais tarde se tornaram discípulos de Dogen Zenji formando a Escola Soto Japonesa, eram originalmente discípulos de Kakuan. Ejo praticou com Kakuan vários anos e dele recebeu o inka.

Em 1227, Dogen Zenji voltou da China depois de cinco anos de prática por lá e ficou em Kenninji, onde havia praticado o Zen com Myozen (1184 – 1225), um discípulo de Eisai, por sete anos antes de partir para a China. No mesmo ano, Dogen Zenji escreveu o Fukanzazengi para promover a prática do zazen que ele estudara com Tendo Nyojo (Tientong Rujing).

Ouvindo falar da reputação de Dogen Zenji, Ejo pensou consigo mesmo: “Até agora pratiquei e conclui o método de meditação da Escola Tendai, completei a prática essencial do Budismo Terra Pura, e tenho praticado Zen em Tonomine (com Kakuan) e obtive o kensho. O que mais ele (Dogen) teria a transmitir?”

Em 1228, Ejo visitou Dogen Zenji em Kenninji para examinar o que Dogen Zenji havia aprendido na China.

De acordo com o Denkoroku, nos primeiros dois ou três dias, tudo o que Dogen Zenji dizia estava em total acordo com o entendimento de Ejo. Assim, Ejo ficou encantado porque pensou que o que ele havia obtido era similar ao que era ensinado na China e que sua iluminação era genuína. Mas mais tarde, talvez porque Dogen Zenji tenha reconhecido Ejo como um praticante sincero e capaz de entender o verdadeiro darma, ele começou a falar de modo diferente. Num primeiro momento, Ejo ficou abismado e tentou argumentar, mas logo percebeu que o que Dogen Zenji estava dizendo era muito mais profundo do que seu próprio entendimento. Ele despertou a mente Bodai novamente e desejou praticar com Dogen.

Dogen Zenji disse: “Recebi a transmissão do verdadeiro Caminho e estou tentando promovê-la no Japão. Permanecerei neste templo por enquanto, mas mais tarde encontrarei meu próprio local para praticar. Depois que eu houver encontrado um lugar, visite-me de novo. Você não pode praticar me seguindo aqui”.

Esse foi o primeiro encontro entre Dogen e Ejo. Dogen tinha vinte e nove e Ejo tinha trinta e um anos.

Em 1230, Dogen Zenji deixou Kenninji e mudou-se para um monastério em Fukakusa. Ao longo deste ano ele escreveu o Bendowa (Palestras sobre a Prática Sincera do Caminho):

“…Voltei para casa no primeiro ano de Shotei (Sheting 1227). Espalhar este darma e salvar todos os seres vivos tornou-se meu voto. Sinto que estou carregando um pesado fardo nos ombros. Por enquanto, contudo, deixarei de lado meu voto de propagar este darma, uma vez que preciso esperar pelo tempo apropriado para que ele floresça. Agora, por um tempo, viverei sozinho me mudando de um lugar para outro, como uma nuvem ou uma planta aquática e seguirei o modo dos sábios antigos. Entretanto, suponha que haja alguns praticantes sinceros que não estejam preocupados em ganhar fama ou lucro e que verdadeiramente aspirem buscar o Caminho.  Eles serão inutilmente desviados por falsos professores e perderão de vista qualquer entendimento correto ficando, consequentemente, embriagados por sua própria confusão e afundando para sempre na delusão. Como será possível que eles nutram a verdadeira semente de prajna (sabedoria completa)? E como poderão algum dia esperar obter o Caminho? Uma vez que agora estou vivendo a vida como uma nuvem ou uma planta aquática, como eles serão capazes de me visitar e praticar comigo? Sentindo compaixão por essas pessoas, decidi compilar as coisas que aprendi sobre o caminho de pratica nos monastérios Zen chineses e os ensinamentos que recebi de meu professor. Espero deixá-los para sinceros praticantes do Caminho possibilitando que conheçam o verdadeiro darma de Buda”.

É óbvio que o Bendowa era para pessoas como Ejo. Doyu Takeuchi, autor de Eihei-niso Koun Ejo Zenji Den [Biografia de Koun Ejo, 2º. abade do monastério de Eiheiji], conjecturou que as dezoito questões e respostas no Bendowa foram baseadas principalmente na sua discussão com Ejo em seu primeiro encontro em Kenninji.

Na primavera de 1233, Dogen Zenji fundou o Koshoji, em Fukakusa. Naquele ano, ele escreveu o Shobogenzo Genjo Koan e o Shobogenzo Makahannyaharamitsu, os quais se tornaram o primeiro e o segundo capítulos da versão de setenta e cinco volumes do Shobogenzo. Ele também aprimorou o Fukanzazengi. Assim, Dogen iniciou sua vida ativa de propagação do darma.

Em 1234, Ejo visitou Dogen Zenji uma vez mais e se tornou seu discípulo. No  Denkoroku temos o seguinte: “[Dogen Zenji] passou dois anos sem nenhuma visita. Finalmente, Ejo veio praticar com ele. Foi no primeiro ano de Bunreki (1234). Dogen Zenji estava maravilhado e permitiu que ele ficasse. Por vários dias e noites, eles conversaram sobre o Caminho dos ancestrais”.

Até sua mudança para Echizen (atual Prefeitura de Fuikui) para fundar o Eiheiji em 1243, Dogen Zenji direcionou todos os seus esforços, durante os próximos dez anos, à fundação da sanga em Koshoji. Ele construiu o primeiro sodo formal no Japão, educando os monges e escrevendo muitos capítulos do Shobogenzo, bem como outros trabalhos como o Gakudo-Yojinshu e o Tenzokyokun, entre outros. Ejo recebeu os “Preceitos do Bodisatva” em 15 de agosto de 1235 e formalmente se tornou seu discípulo. Em 1236, Ejo recebeu a transmissão do darma, no ano em que o sodo foi construído em Koshoji. Ejo foi designado como o primeiro shuso (monge chefe) para o primeiro período de pratica lá e ministrou palestras em nome de Dogen Zenji (ver 4-5 do Zuimonki). Desse modo, Ejo tornou-se o assistente mais próximo de Dogen Zenji. O Zuimonki é um registro de palestras informais do darma de Dogen Zenji a seus discípulos durante o período de 1235 a 1237.

Mais tarde, até a morte de Dogen Zenji em 1253, Ejo o acompanhou como assistente pessoal (jisha), mesmo quando ele estava encarregado de outras coisas. Durante os vinte anos de sua parceria, é sabido que por apenas dez dias e por motivo de doença, Ejo não esteve em companhia de Dogen.

Depois que se mudaram para Eiheiji, Dogen Zenji fez com que Ejo conduzisse todas as cerimonias em seu lugar. Quando questionado sobre o porquê disso, respondeu: “Minha vida não será longa. Você viverá mais tempo do que eu e, seguramente, propagará o meu Caminho. Portanto, valorizo você pelo bem do darma”.

Depois que Dogen Zenji morreu, em 1253, Ejo assumiu a abadia de Eiheiji. Ejo morreu em 1280 quando tinha 83 anos.

O único escrito de Ejo consiste de uma obra intitulada Komyozo-Zanmai, escrita quando ele tinha 81 anos de idade. Entretanto, ele trabalhou na compilação do Shobogenzo e de outros escritos. Hoje nós podemos ler os ensinamentos de Dogen Zenji graças ao seu sucessor do darma, Ejo.

2. Shobogenzo Zuimonki

 Conforme mencionei acima, o Zuimonki é o registro das palestras informais de Dogen Zenji proferidas a seus alunos no Monastério Koshoji. Essas palestras ocorreram durante os primeiros três anos do discipulado de Ejo; Dogen Zenji tinha trinta e seis anos no início desse período, enquanto que Ejo tinha trinta e oito. Nessa época, Dogen Zenji estava trabalhando na fundação de um lugar onde ele pudesse transmitir o dharma que estudara na China, educar monges e propagar a prática do zazen. Foi uma revolução no Budismo Japonês, que passou de um Budismo sustentado pelo Imperador, pela aristocracia e por outras pessoas ricas (que esperavam ser servidas e ter preces realizadas visando sua prosperidade pessoal e para governarem o povo), para um Budismo voltado a praticantes com propósito puro, que não buscavam fama nem lucro.

Desnecessário dizer, o principal trabalho de Dogen Zenji é o Shobogenzo. Mas por meio da leitura do Zuimonki seremos capazes de entender que tipo de atitude devemos manter na prática do Caminho, uma vez que as palestras de Dogen apresentam exemplos muito concretos.

A base de várias admoestações no Zuimonki é a visão da impermanência. Em 1-4, ele disse:

 “Aprender a prática e mantê-la é abandonar o apego ao ego, seguindo as instruções do professor. A essência disso é ser livre da ganância. Para ser livre da ganância, em primeiro lugar, você tem que separar-se do ‘si mesmo’ (self) egocêntrico. Separando-se do ‘si mesmo’ egocêntrico, ver a impermanência é a necessidade principal”.

No Gakudo-Yojinshu [Pontos a observar na prática do Caminho], Dogen Zenji também disse que despertar a mente buda é ver a impermanência.

“Quando verdadeiramente ‘vemos’ a impermanência, a mente egocêntrica não surge, nem os pensamentos de fama e de benefício pessoal. Atentos porque os dias e as noites estão passando rapidamente, praticar como se sua cabeça estivesse envolta em chamas. Refletindo sobre a fragilidade de seu corpo, praticar com diligência seguindo o exemplo de Buda”.

Ao longo de todo o Zuimonki, Dogen fala sobre a importância de ver a impermanência (1-4, 1-20, 2-6, 2-14, 2-25, 3-2, 3-3, 6-8, 6-9).

Ver a impermanência e separar-se do ‘si mesmo’ egocêntrico (1-4, 1-19, 3-3, 4-1, 5-9, 5-16, 5-20, 6-12) é o fundamento da prática do Caminho mostrada por Dogen Zenji. Isso é também levar adiante os ensinamentos da impermanência e da ausência de ego de Xaquiamuni Buda com todo nosso corpo e mente em nossa vida diária. Aqui devemos ser cuidadosos para não confundir “ver a impermanência” ou “ausência de ego” com uma espécie de pessimismo. Precisamente, já que tudo é impermanente e muda rápido, é que devemos valorizar nosso tempo. Por causa da ausência de ego, podemos trabalhar para os outros.

As seguintes atitudes derivam do fundamento de “ver a impermanência” e “separar-se do si mesmo egocêntrico”:

(1) Ausência de ganho (1-9, 3-3, 3-10, 5-23),

(2) Seguir um professor e o ensinamento de Buda; (1-4, 1-13, 2-4, 2-12, 2-19, 2-24, 3-3, 5-2, 6-17),

(3) Estar livre de visões pessoais (1-13, 4-1, 4-3, 4-7, 5-2, 5-13, 6-17),

(4) Abrir mão de sentimentos mundanos; (1-21, 2-1, 2-4, 3-13, 5-9),

(5) Ter compaixão ou mente parental e trabalhar para beneficiar os outros (1-7, 1-12, 1-19, 1-20, 3-3, 3-6, 3-7, 6-10, 6-15),

(6) Viver em pobreza e não se apegar a alimentos e vestuário (1-16, 2-3, 2-6, 3-4, 3-7, 3-11, 3-12, 4-14, 4-15, 5-2, 5-5, 5-21, 5-22, 6-3, 6-4, 6-5),

(7) Não buscar fama e lucro (1-16, 1-19, 2-3, 2-15, 3-5, 4-8, 5-15, 5-20),

(8) Deixar de lado apego ao corpo e à mente (3-1, 3-3, 5-1, 6-2, 6-17),

(9) Não brigar e estar em harmonia com os outros (1-10, 4-13, 5-7, 5-22)

(10) Despertar aspiração sincera (2-14, 2-2-, 5-5, 5-12, 6-16),

(11) Concentrar em uma prática (1-5, 1-11, 1-14, 6-13)

A pedra angular dessas atitudes é a prática de zazen-shikantaza (1-1, 1-2, 1-4, 1-14, 2-6, 2-9, 2-22, 2-25, 2-26, 4-4, 4-14, 5-10, 5-16, 5-23).

Mais uma coisa que Dogen Zenji enfatizava é a importância de se entrar em um monastério e praticar com outros (6-9).

Em resumo, ver a impermanência, separar-se do si mesmo egocêntrico, praticar o darma de buda apenas pelo bem do darma de buda, concentrar-se em sentar zazen sem pensamentos de ganho, viver em pobreza e trabalhar em benefício dos outros é o modo de vida que Dogen Zenji nos encoraja a seguir no Zuimonki.

Esse tipo de atitude perante a vida parece ir completamente contra o sistema comum de valores da humanidade moderna. Mas, são esses ensinamentos aplicáveis apenas a pessoas que praticaram em monastérios Zen no Japão do século XIII?

Hoje damos importância demasiada a uma vida material abundante, à prosperidade e a preencher nossos desejos egocêntricos. Entretanto, tal sistema de valores em si mesmo parece estar trazendo a ruina da civilização humana. Seria possível chamar essa melhoria na civilização humana de “progresso”? Eu duvido.

Aqui está um modo de vida ou um sistema de valores inteiramente diferente. Ao invés de satisfazer desejos, é um modo que enfatiza clarificar o verdadeiro ‘si mesmo’ e manifestá-lo através da prática e da atividade. Este é o Caminho do bodisatva.

Dogen Zenji disse no Genjo Koan:

“Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar o si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si é estar iluminado por todas as coisas. Estar iluminado por todas as coisas e abandonar corpo e mente de si e dos outros”.

Acredito que estudar e clarificar a si mesmo é o mais essencial – em qualquer lugar, a qualquer momento, para quem quer que seja.

Desejo sinceramente que essa modesta tradução possa ser útil às pessoas que têm a aspiração de clarificar seu verdadeiro Si Mesmo.

Da tradução em inglês realizada por Shohaku Okumura Roshi disponível em: https://global.sotozen-net.or.jp/eng/library/leaflet/Zuimonki/pdf/zuimonki.pdf

Traduzido do inglês por Mui Leticia Rothen Sato e revisado por Rusei Luci Collin

> “Pratique e busque o Caminho com os outros”

“Reflita sobre o fato de alguém ter compreendido o Caminho ao ouvir o som do bambu; que outro teve a Mente clarificada ao vislumbrar flores de pêssego desabrochando. Como poderia ser possível diferenciar árvores de bambu inteligentes das tolas, ou as deludidas das iluminadas? Como poderia haver superficiais ou profundas, sábias ou tolas entre as flores? As flores desabrocham todos os anos, mas nem todas as pessoas alcançam a iluminação ao vê-las. As pedras freqüentemente atingem o bambu, ainda assim nem todos que ouvem o som têm o Caminho clarificado.

Apenas como resultado de um longo estudo e da prática contínua, pautado em um esforço diligente no Caminho, é que alguém compreende o Caminho ou clarifica a Mente. Isso não ocorreu porque o som do bambu foi especialmente maravilhoso, nem porque a cor das flores de pêssego foi particularmente profunda. Embora o som do bambu seja maravilhoso, ele não soa por si só; ele ressoa com o auxílio de um pedaço de telha. Embora a cor das flores de pêssego seja linda, elas não desabrocham por si mesmas; elas abrem com a ajuda da brisa da primavera.

Praticar o Caminho também é assim. Este Caminho está inerente em cada um de nós; ainda assim, a conquista do Caminho depende da ajuda de co-praticantes. Embora cada pessoa seja brilhante, nossa prática do Caminho ainda precisa do poder de outras pessoas [na sanga]. Portanto, enquanto você unifica sua mente e concentra sua aspiração, pratique e busque o Caminho junto com os outros”.

Mestre Dogen

 

Acesse o texto completo : Livro 4 – Parte 5 de SHOBOGENZO ZUIMONKI. Palestras de Eihei Dogen Zenji, registradas por Koun Ejo (tradução: Mui Leticia Rothen Sato/Revisão: Rucei Luci Collin). 

 

 

> Zazen é bom para nada

ZAZEN É BOM PARA NADA

Shohaku Okumura

APENAS SENTAR

O que meu professor me ensinou foi que zazen, também chamado Zen Budismo, é uma tradição iniciada no Japão pelo Mestre Zen Dogen (Dogen Zenji), e chamamos essa tradição de Soto Zen.

O ponto principal dos ensinamentos de Dogen era “apenas sentar”. Normalmente acreditamos que a prática meditativa serve para se alcançar algum tipo de iluminação ou despertar. Mas Dogen disse que devemos apenas sentar, sem qualquer expectativa, mesmo de iluminação.

Porque se praticarmos com o propósito de alcançar iluminação, isso é desejo. Desejo ou desejo egocêntrico está ainda presente nessa busca pela verdade. Assim, desde o início devemos apenas, na expressão de Dogen, nos atirar no Caminho sem expectativa de qualquer recompensa. Isso é o que, de acordo com os ensinamentos de Dogen, se chama “apenas sentar” ou Shikantaza.

O professor do meu professor, Sawaki Kodo Roshi, disse que o Zazen, essa meditação sentada, é boa para nada. Eu sempre digo “isso é bom para nada” e é isso o que recomendo às pessoas, mas é realmente difícil encorajar as pessoas a praticarem dessa forma porque isso é bom para nada.

SEM EXPECTATIVA

‘Zazen sem expectativa’ ou sem a mente que visa ganhar algo ou ‘Zazen bom para nada’ é um tipo de koan. Mesmo eu, quando iniciei a prática, tinha alguma expectativa. Eu penso que quase sempre temos expectativa porque começamos a praticar quando temos algum problema, alguma dificuldade ou alguma questão. Assim, temos a expectativa de ao menos encontrar alguma resposta às minhas questões ou alguma saída para o problema que tenho, que estou enfrentando. Sem expectativa ou objetivo não podemos iniciar a prática. Aqui há uma espécie de conflito. Normalmente, chamamos isso de uma “mente à procura do caminho”. Sem essa mente, que na nomenclatura budista é chamada de bodhicitta – a mente que busca o despertar ou que busca encontrar, descobrir a verdade – não podemos começar a praticar. Por outro lado, o ensinamento é que não devemos nem mesmo esperar pela resposta. Então aqui há um conflito.

Quando continuamos a praticar, isso se torna uma questão realmente séria e algumas vezes temos que encarar um impasse. No fundo do meu coração eu penso que praticar ‘zazen bom para nada’ é a prática mais autentica na tradição Budista. É por isso que eu estou bem. É por isso que minha vida é plena de significado.

Um dia eu me vi sentado sozinho, não como um praticante em uma sanga, não como um monge budista exercendo um tipo de ocupação social. Sentei por mim mesmo e encontrei uma profunda paz ali. Isso significa que eu não preciso ser um ‘bom menino’. Eu posso apenas sentar. E descobri que isso é realmente ‘zazen é bom para nada’. Mas antes disso eu entendi intelectualmente ‘zazen é bom para nada’ como uma filosofia budista. Mas por conta do que senti, minha vida vai bem, plena de significado.

Quando não pude continuar daquela forma, senti que minha vida não tinha valor. Descobri que isso é uma base. Devemos praticar sem o desejo de ser “um bom garoto”, não apenas no sentido secular e mundano, mas mesmo como budista. Me tornei livre do meu desejo de ser um bom budista.

Finalmente, pela primeira vez descobri o real significado de ‘zazen é bom para nada’ ou do praticar sem expectativa ou sem uma mente que visa um ganho. Então, apenas estar lá com este corpo e mente.

SOMOS PARTE DISSO

Quando nos sentamos, nós não ouvimos nada realmente. Não prestamos nenhuma atenção. Mesmo se os pássaros estiverem cantando, e nós estivermos sentados, se eu ouço o canto e penso ‘são pássaros’ isso não é mais zazen. Mesmo quando faço isso, há uma separação entre a pessoa sentada e o som.

Há um Koan interessante no Zen e Mestre Dogen gosta dele. Um professor pergunta a um aluno, mostrando, apontando para o sino dos ventos: o vento faz algum som? Ou é o sino que faz algum som? Então o estudante disse: minha mente faz o som. Nem o vento nem o sino. Mas a minha mente faz o som. Isso significa que quando o vento bate no sino, cria uma vibração. E a vibração do ar alcançou meu ouvido e se tornou som. Então, antes de a vibração alcançar meu ouvido, não há nenhum som. O som está apenas dentro de nossa mente. Acho que é por isso que o estudante disse ‘minha mente faz o som’. Mas Dogen disse que isso não é verdade. Porque mesmo que minha mente esteja funcionando, se o vento não soprar, se o sino dos ventos não se mover e o ar não vibrar, então não há som. Todos eles estão criando o som. Esse universo inteiro está fazendo o som. Então não há o sujeito correspondente à razão e não há objeto ou som que é ouvido. É isso o que Dogen chama de “Função Total”. Somos parte disso. Não há aquela pessoa que está ouvindo, não há som que vem até mim; mas esse universo como um todo está produzindo aquele som por meio dessa pessoa. E essa pessoa é apenas uma pequenina parte disso.