“(…) os monges não deveriam fazer alarde sobre encontrar refeições agradáveis, ao invés disso, deveriam comer o que estivesse disponível. Quando fosse uma boa comida, deveriam come-la tal como ela é, e se fosse pobre, deveriam come-la sem aversão.”
LIVRO 2
2-21
Em uma tarde, Dogen instruiu:
Em um monastério Zen na China, algumas vezes eles peneiram o trigo e o arroz, etc, jogando fora os grãos ruins e mantendo os bons para serem cozidos. Um certo mestre Zen advertiu em um verso: “Mesmo que vocês dividam minha cabeça em sete pedaços, não peneirem o arroz.” O que ele quis dizer era que os monges não deveriam fazer alarde sobre encontrar refeições agradáveis, ao invés disso, deveriam comer o que estivesse disponível. Quando fosse uma boa comida, deveriam come-la tal como ela é, e se fosse pobre, deveriam come-la sem aversão. Livre-se de sua fome e sustente sua vida com as leais doações dos benfeitores ou apenas com a comida pura pertencente ao templo e devote sua vida à prática do Caminho. Não escolha entre bom ou mau com base em seu paladar. Agora cada um de vocês em minha assembleia deveria ter tal atitude.
“Estamos vivos apenas agora. Apenas se aprendermos o darma de buda, desejando seriamente obter a iluminação, é que seremos capazes de fazê-lo antes de morrer.”
LIVRO 2
2-20
Um dia, Dogen instruiu:
A distinção entre ser brilhante ou tolo se aplica apenas quando uma aspiração rigorosa ainda não despertou. Quando uma pessoa cai de um cavalo, vários pensamentos surgem antes que ela atinja o chão. Quando algo sério ocorre, a ponto de danificar o próprio corpo ou colocar a vida de alguém em risco, ninguém vai deixar de colocar toda sua inteligência para trabalhar. Em tais ocasiões, seja brilhante ou tolo, todos irão pensar e tentar encontrar a melhor forma de agir.
Portanto, se você acha que vai morrer hoje ou amanhã, ou se você acha que está enfrentando uma situação terrível, encoraje sua aspiração e você não falhará em atingir a iluminação. Uma pessoa que pareça superficialmente tola, mas que tenha uma sincera aspiração obterá a iluminação mais rápido do que aquela que for inteligente em um sentido mundano. Embora ele não conseguisse recitar nem mesmo um único verso, Cudapanthaka[1], um dos discípulos de Buda, alcançou a iluminação durante um período de prática de verão porque ele tinha uma séria aspiração.
Estamos vivos apenas agora. Apenas se aprendermos o darma de buda, desejando seriamente obter a iluminação, é que seremos capazes de fazê-lo antes de morrer.
[1] Cudapanthaka (J. Shurihandoku) foi um dos discípulos de Buda. Ele era tolo e incapaz de memorizar até mesmo um verso em quatro meses. Buda deu a ele o trabalho de limpar as sandálias dos monges e isso permitiu que ele obtivesse a iluminação.
“Nossa maneira de prestar o débito de gratidão não deveria estar restrita a uma pessoa em particular. Considerando que temos débitos de gratidão para com todos os seres vivos tanto quanto para com nossos próprios pais e mães, devemos transmitir todos os méritos de nossas boas ações para todo o mundo do darma. Se os limitamos especificamente para nossos próprios pais nesta vida, vamos contra o Caminho da não intenção.”
LIVRO 2
2-19
Durante uma palestra vespertina, Ejo perguntou:
“Devemos levar adiante a obrigação de prestar reconhecimento aos nossos pais e mães?”[1]
Dogen respondeu: “piedade filial é o mais importante. Entretanto, há uma diferença na forma como pessoas leigas e monges fazem isso. Leigos seguem os ensinamentos do Kokyo[2]etc. e servem seus pais na vida e na morte. Todas as pessoas no mundo sabem disso. Monges abandonam seu débito de gratidão e entram no reino da não-intenção (mui)[3]. Nossa maneira de prestar o débito de gratidão não deveria estar restrita a uma pessoa em particular. Considerando que temos débitos de gratidão para com todos os seres vivos tanto quanto para com nossos próprios pais e mães, devemos transmitir todos os méritos de nossas boas ações para todo o mundo do darma. Se os limitamos especificamente para nossos próprios pais nesta vida, vamos contra o Caminho da não intenção.
Em nossa prática diária e estudo periódico, seguir o Caminho de Buda continuamente é a única verdadeira maneira de realizar nossa piedade filial.
Pessoas leigas fazem serviços memorias e oferendas durante o chuin[4] (os quarenta e nove dias depois da morte de uma pessoa).
Como monges Zen, devemos conhecer a profundidade do real débito de gratidão para com nossos pais. Devemos enxergar tal débito como sendo igual à gratidão que temos para com o restante dos seres vivos. Escolher um dia em particular para praticar algo bom e transmitir o mérito para uma pessoa especial não parece de acordo com a compaixão de Buda. A passagem sobre os dias de aniversário da morte do pai e parentes de alguém no Sutra dos Preceitos[5] se refere aos leigos.
Nos monastérios na China os monges fazem cerimonias nos aniversários da morte do seu mestre, mas não nos aniversários da morte de seus pais.
[1] Do japonês Hoon. Ho significa retribuir. On significa gentileza, favor, graça. Hoon pode ser traduzido como “retribuir uma gentileza” ou, como neste caso, pagar uma dívida de gratidão. A piedade filial era um dos conceitos mais importantes no pensamento confucionista na China, Coréia e Japão.
[2]Kokyo (Escritura sobre a piedade filial) é um dos clássicos mais importantes da Confucionismo. Neste texto, Confúcio insistia que a piedade filial é o fundamento de todas as virtudes e moralidade social.
[3]Mui não significa inativo. Significa agir livremente, como peixes nadando na água ou pássaros voando no céu sem deixar rastros.
[4] Estado intermediário entre a morte e a próxima vida. Diz-se que uma pessoa morta permanece neste estado suspenso por sete semanas.
[5] Diz o Bonmo-kyo (Brahmajala-sutra): “No dia do aniversário da morte de seu pai, mãe ou irmãos, convide um sacerdote para dar uma palestra sobre o sutra dos preceitos do bodisatva …”.