> Shobogenzo Zuimonki (31) – Livro 2 Parte 9

Aprender sobre os feitos dos mestres antigos ao ler relatos escritos ou koans de modo a explicá-los a pessoas deludidas é, em última instância, sem utilidade para minha própria prática e para ensinar aos outros. Mesmo que eu não saiba uma única letra, serei capaz de demonstrar aos outros de inesgotáveis maneiras se eu me devotar somente a sentar e clarificar a grande questão.”

LIVRO 2

2-9

Um dia Dogen instruiu:

            Certa vez, enquanto eu estava na China, li uma coleção de provérbios de um mestre antigo. Naquela época, um monge de Shisen (Sichuan), sincero praticante do Caminho, me perguntou: “Qual a utilidade de ler relatos escritos?”

            Eu respondi: “Quero aprender sobre os feitos dos mestres antigos.”

            O monge perguntou: “Qual é a utilidade disso?”

            Eu disse: “Desejo ensinar as pessoas quando eu retornar para casa.”

            O monge perguntou: “Qual a utilidade disso?”

            Eu respondi: “É para o benefício dos seres vivos.”

            O monge persistiu na indagação: “Sim, mas, em última análise, qual é a utilidade?”

Mais tarde, ponderei sobre suas observações. Aprender sobre os feitos dos mestres antigos ao ler relatos escritos ou koans[1]de modo a explicá-los a pessoas deludidas é, em última instância, sem utilidade para minha própria prática e para ensinar aos outros. Mesmo que eu não saiba uma única letra, serei capaz de demonstrar aos outros de inesgotáveis maneiras se eu me devotar somente a sentar e clarificar a grande questão[2]. Foi por esta razão que o monge me pressionou a respeito da finalidade máxima [de ler e estudar].  Percebi que o que ele dizia era verdadeiro. A partir de então, desisti de ler os relatos escritos e outros textos, concentrado com total sinceridade em me sentar, e fui capaz de clarificar a grande questão.


[1] No Zen Chinês, os feitos e ditos de mestres Zen foram escritos e reconhecidos como koans, que literalmente significa um decreto governamental, ou uma lei que deveria ser estudada e seguida.

[2] A coisa mais importante a ser feita na vida: libertação da transmigração e conhecimento do Caminho.