Zazen é bom para nada

ZAZEN É BOM PARA NADA

Shohaku Okumura

APENAS SENTAR

O que meu professor me ensinou foi que zazen, também chamado Zen Budismo, é uma tradição iniciada no Japão pelo Mestre Zen Dogen (Dogen Zenji), e chamamos essa tradição de Soto Zen.

O ponto principal dos ensinamentos de Dogen era “apenas sentar”. Normalmente acreditamos que a prática meditativa serve para se alcançar algum tipo de iluminação ou despertar. Mas Dogen disse que devemos apenas sentar, sem qualquer expectativa, mesmo de iluminação.

Porque se praticarmos com o propósito de alcançar iluminação, isso é desejo. Desejo ou desejo egocêntrico está ainda presente nessa busca pela verdade. Assim, desde o início devemos apenas, na expressão de Dogen, nos atirar no Caminho sem expectativa de qualquer recompensa. Isso é o que, de acordo com os ensinamentos de Dogen, se chama “apenas sentar” ou Shikantaza.

O professor do meu professor, Sawaki Kodo Roshi, disse que o Zazen, essa meditação sentada, é boa para nada. Eu sempre digo “isso é bom para nada” e é isso o que recomendo às pessoas, mas é realmente difícil encorajar as pessoas a praticarem dessa forma porque isso é bom para nada.

SEM EXPECTATIVA

‘Zazen sem expectativa’ ou sem a mente que visa ganhar algo ou ‘Zazen bom para nada’ é um tipo de koan. Mesmo eu, quando iniciei a prática, tinha alguma expectativa. Eu penso que quase sempre temos expectativa porque começamos a praticar quando temos algum problema, alguma dificuldade ou alguma questão. Assim, temos a expectativa de ao menos encontrar alguma resposta às minhas questões ou alguma saída para o problema que tenho, que estou enfrentando. Sem expectativa ou objetivo não podemos iniciar a prática. Aqui há uma espécie de conflito. Normalmente, chamamos isso de uma “mente à procura do caminho”. Sem essa mente, que na nomenclatura budista é chamada de bodhicitta – a mente que busca o despertar ou que busca encontrar, descobrir a verdade – não podemos começar a praticar. Por outro lado, o ensinamento é que não devemos nem mesmo esperar pela resposta. Então aqui há um conflito.

Quando continuamos a praticar, isso se torna uma questão realmente séria e algumas vezes temos que encarar um impasse. No fundo do meu coração eu penso que praticar ‘zazen bom para nada’ é a prática mais autentica na tradição Budista. É por isso que eu estou bem. É por isso que minha vida é plena de significado.

Um dia eu me vi sentado sozinho, não como um praticante em uma sanga, não como um monge budista exercendo um tipo de ocupação social. Sentei por mim mesmo e encontrei uma profunda paz ali. Isso significa que eu não preciso ser um ‘bom menino’. Eu posso apenas sentar. E descobri que isso é realmente ‘zazen é bom para nada’. Mas antes disso eu entendi intelectualmente ‘zazen é bom para nada’ como uma filosofia budista. Mas por conta do que senti, minha vida vai bem, plena de significado.

Quando não pude continuar daquela forma, senti que minha vida não tinha valor. Descobri que isso é uma base. Devemos praticar sem o desejo de ser “um bom garoto”, não apenas no sentido secular e mundano, mas mesmo como budista. Me tornei livre do meu desejo de ser um bom budista.

Finalmente, pela primeira vez descobri o real significado de ‘zazen é bom para nada’ ou do praticar sem expectativa ou sem uma mente que visa um ganho. Então, apenas estar lá com este corpo e mente.

SOMOS PARTE DISSO

Quando nos sentamos, nós não ouvimos nada realmente. Não prestamos nenhuma atenção. Mesmo se os pássaros estiverem cantando, e nós estivermos sentados, se eu ouço o canto e penso ‘são pássaros’ isso não é mais zazen. Mesmo quando faço isso, há uma separação entre a pessoa sentada e o som.

Há um Koan interessante no Zen e Mestre Dogen gosta dele. Um professor pergunta a um aluno, mostrando, apontando para o sino dos ventos: o vento faz algum som? Ou é o sino que faz algum som? Então o estudante disse: minha mente faz o som. Nem o vento nem o sino. Mas a minha mente faz o som. Isso significa que quando o vento bate no sino, cria uma vibração. E a vibração do ar alcançou meu ouvido e se tornou som. Então, antes de a vibração alcançar meu ouvido, não há nenhum som. O som está apenas dentro de nossa mente. Acho que é por isso que o estudante disse ‘minha mente faz o som’. Mas Dogen disse que isso não é verdade. Porque mesmo que minha mente esteja funcionando, se o vento não soprar, se o sino dos ventos não se mover e o ar não vibrar, então não há som. Todos eles estão criando o som. Esse universo inteiro está fazendo o som. Então não há o sujeito correspondente à razão e não há objeto ou som que é ouvido. É isso o que Dogen chama de “Função Total”. Somos parte disso. Não há aquela pessoa que está ouvindo, não há som que vem até mim; mas esse universo como um todo está produzindo aquele som por meio dessa pessoa. E essa pessoa é apenas uma pequenina parte disso.

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