> História da nossa linhagem (5) – De Kennin Ji para a China – refazendo os caminhos de Mestre Eisai

O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

5 – De Kennin Ji para a China – refazendo os caminhos de Mestre Eisai

Mestre Eisai faleceu meses antes de Mestre Dogen se fixar em Kennin Ji, e por isso seu treinamento ficou a cargo de Mestre Myozen.

Disse dele Mestre Dogen:

“Mestre Myozen era o mais excelente dos alunos de Mestre Eisai, e ele recebeu os ensinamentos da verdade de Buda diretamente dele. Nenhum dos outros estudantes se comparavam a ele” [1].

Mestre Dogen foi aluno de Mestre Myozen por nove anos, até sua morte. Foi por ele ordenado como um monge Zen, recebeu o manto e a tigela simbólicos da tradição Zen, obteve os ensinamentos secretos dos rituais esotéricos, estudou o cânone dos regulamentos monásticos e começou a aprender sobre a linhagem Rinzai. Depois de alguns anos, recebeu a transmissão do Rinzai Zen e, com 24 anos, sua formação budista, teórica e prática, era muito ampla[2]. Mas algo ainda faltava.

Seguindo os passos de Mestre Eisai, Mestre Dogen acompanhou Mestre Myozen em sua ida à China. Ele conta que, já durante os preparativos para a viagem à China, Mestre Myozen recebeu a notícia de que seu antigo professor Tendai estava morrendo. Ele requisitava sua presença e, em consequência, o adiamento da viagem. Incerto sobre o caminho a seguir, Mestre Myozen consultou seus alunos: “Devo ir à China para aprofundar minha prática Zen ou devo honrar o débito com meu antigo professor?”

Seus alunos foram unânimes em afirmar que a melhor decisão seria adiar a viagem. Mestre Dogen, por sua vez, lançou-lhe uma reflexão instigante dizendo que, se ele considerava que sua realização do Darma de Buda era satisfatória tal como se encontrava naquele momento, ele deveria ficar.

Dito isso, Mestre Myozen ponderou:

            “Todos vocês concordam que eu deveria ficar. Minha resolução é diferente. Mesmo que eu adie minha viagem por enquanto, aquele cuja morte é certa, irá morrer. Minha permanência aqui não irá ajudar a prolongar sua vida. Mesmo que eu fique para cuidar dele, sua dor não irá cessar. Também, não será possível escapar da vida-morte porque eu cuidei dele antes de sua morte. Isso seria apenas para cumprir seu desejo e confortar seus sentimentos por um tempo. Seria inteiramente inútil no tocante a adquirir emancipação e alcançar o Caminho. Permitir erroneamente que ele dificulte minha aspiração para buscar o Darma seria causa de más ações. Entretanto, se eu levar adiante minha aspiração de ir para a China para buscar o Darma, e alcançar um pouco de iluminação, embora isso vá contra os sentimentos deludidos de uma pessoa, para muitas outras esta seria a condição para encontrar o Caminho. Como o mérito é maior, isso irá ajudar a devolver o débito de gratidão que tenho com meu professor (…).

Desperdiçar em vão um tempo que é facilmente perdido, por consideração a uma pessoa, não estaria de acordo com o desejo de Buda. Portanto, eu firmemente decido ir para a China agora”[3].

Para Mestre Dogen, tal decisão foi uma clara demonstração da mente bodhi. Ele mais tarde diria a seus próprios alunos que não se envolvessem em assuntos inúteis e perdessem tempo, usando seus familiares ou professores como desculpa ou justificativa para adiarem ou desistirem de sua busca espiritual.  “Não percam tempo”.

            “Vidamorte é de suprema importância. Tempo rapidamente se esvai, e oportunidade se perde. Cada um de nós deve esforçar-se por despertar. Cuidado. Não desperdice esta vida”[4].


[1] DOGEN, E. Bendowa. A Discourse on Doing One’s Utmost in Practicing the Way of the Buddhas in Shobogenzo. The treasure House of the Eye of the True Teaching. A Trainee’s Translation of Great Master Dogen’s Spiritual Masterpiece. Rev. Hubert Nearman, O.B.C., translator. Shasta Abbey Mount Shasta, California. First Edition—2007.

[2] LOORI, John D. Dropping Off Body and Mind. Darma Discourse. Koans of the Way of Reality, Case 108. Master Dogen’s Enlightenment. Disponível em: http://www.mro.org/mr/archive/21-1/.

[3] DOGEN, E. Shobogenzo Zuimonki. Disponível em: https://terebess.hu/zen/dogen/Shobogenzo-Zuimonki.pdf

[4] Poema lido depois do último período de zazen.

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).