> Shobogenzo Zuimonki (36) – Livro 2 Parte 14

(…) Portanto, em um mundo tão imprevisível, é extremamente tolo perder tempo se preocupando com as várias maneiras de ganhar a vida de modo a adiar a própria morte, incerta tal como ela é; para não mencionar maquinar o mal contra os outros. Precisamente porque isso é realidade, o Buda pregou isso a todos os seres vivos, os ancestrais ensinaram somente esta verdade em seus sermões e escritos. Em meus discursos formais e palestras também, eu enfatizo que a impermanência é rápida; vida-morte é a grande questão. Reflita sobre esta realidade mais e mais, em seu coração, sem esquecê-la e sem perder um único momento. Submeta toda sua mente à prática do Caminho. Lembre-se que você está vivo apenas hoje neste momento. Além disso [a prática do Caminho] é verdadeiramente simples. Você não precisa discutir se você é superior ou inferior, brilhante ou tolo.

LIVRO 2

2-14

Certa vez, um aluno perguntou:

“Embora muitos anos tenham se passado desde o início de minha aspiração a aprender o Caminho, eu ainda não tive nenhuma realização. Muitos dos professores antigos disseram que o Caminho não depende de inteligência nem de sagacidade. Portanto, não penso que devemos nos rebaixar por causa de nossa capacidade inferior. Há algo sobre isso que tenha sido transmitido pela tradição, e que eu deveria ter em mente?”

Dogen instruiu:

            “Você está correto sobre não contar com a inteligência, o talento, a esperteza ou a sagacidade ao aprender o Caminho. Ainda assim, é errado encorajar enganosamente uma pessoa para que ela se torne cega, surda ou ignorante. Uma vez que estudar o Caminho não requer ter um amplo conhecimento e nem habilidades altamente talentosas, você não deve desdenhar ninguém por conta da capacidade inferior dessa pessoa. A verdadeira prática do Caminho deve ser simples. No entanto, mesmo nos monastérios da grande China Song, há apenas uma ou duas pessoas entre centenas ou milhares de praticantes que entenderam o darma e obtiveram o Caminho na assembleia de apenas um professor. Portanto, devem existir coisas transmitidas que deveríamos ter em mente.

            Acredito nisto. Depende apenas de a aspiração de alguém ser firmemente determinada ou não. Uma pessoa que desperta a verdadeira aspiração e estuda tão arduamente quanto sua capacidade permite, não falhará em obter [o Caminho]. Temos que ser cuidadosos para nos concentrar e diretamente levar adiante a seguinte prática: antes de qualquer coisa, apenas mantenha a aspiração de sinceramente buscar [o Caminho]. Por exemplo, uma pessoa que deseja roubar um tesouro precioso, ou vencer um poderoso inimigo, ou ganhar uma mulher bonita de alta nobreza irá constantemente buscar uma oportunidade de concluir estas tarefas em qualquer situação ou ocasião, apesar das coisas estarem mudando, uma vez que sua mente está sempre ocupada com este desejo. Se este desejo é tão entusiástico assim, a pessoa não irá falhar em executá-lo.

            Do mesmo modo, se a aspiração de buscar o Caminho for séria o suficiente quando você pratica shikantaza (apenas sentar), estuda os koans ou encontra seu professor, embora o objetivo seja elevado, você alcançará esta marca e, embora seja profunda, você a escolherá. Sem despertar tal aspiração, como poderá você completar a grande questão do Caminho de Buda no qual o samsara da vida-morte é extirpado em um único momento? Apenas se você tiver uma mente desinteressada de uma inteligência inferior ou de faculdades tolas, de ignorância ou estupidez, é que você certamente obterá iluminação.

            Em seguida, para despertar tal aspiração, pense profundamente sobre a impermanência do mundo. Não é uma questão de meditar usando algum método provisório de contemplação. Não é uma questão de fabricar em nossas cabeças aquilo que não existe de fato. Impermanência é verdadeiramente a realidade bem na frente dos nossos olhos. Não precisamos esperar pelo ensinamento de alguém, por alguma prova vinda de alguma passagem das escrituras, nem por algum princípio. Nascida pela manhã e morta à noite, uma pessoa que vimos ontem não está mais aqui hoje – esses são os fatos que vemos com nossos olhos e ouvimos com nossos ouvidos. Isso é o que vemos e ouvimos sobre os outros. Aplicando isso aos nossos próprios corpos e pensando sobre a realidade (de todas as coisas), embora tenhamos expectativa de viver por setenta ou oitenta anos, morremos quando temos que morrer.

            Durante nossa vida, embora possamos ver a realidade da tristeza, prazer, amor de nossos familiares e ódio de nossos inimigos, estes não são assuntos valorosos. Poderíamos passar nosso tempo abrindo mão deles. Deveríamos apenas acreditar no Caminho de Buda e buscar a verdadeira alegria do Nirvana. Ainda mais para aqueles com idade avançada cujas vidas já passaram da metade. Quantos anos ainda restam? Como podemos relaxar em nosso estudo do Caminho? Isso ainda não está suficientemente perto da realidade. Em verdade, apenas hoje ou só neste momento é que podemos, então, pensar sobre assuntos mundanos ou sobre o Caminho de Buda. Hoje a noite ou amanhã podemos contrair uma doença grave, ou ter que aguentar uma dor terrível que nos incapacite de distinguir leste de oeste. Ou podemos ser mortos, de repente, por algum demônio, encontrar problemas com salteadores, ou ser mortos por algum inimigo. Tudo é verdadeiramente incerto.

            Portanto, em um mundo tão imprevisível, é extremamente tolo perder tempo se preocupando com as várias maneiras de ganhar a vida de modo a adiar a própria morte, incerta tal como ela é; para não mencionar maquinar o mal contra os outros.

            Precisamente porque isso é realidade, o Buda pregou isso a todos os seres vivos, os ancestrais ensinaram somente esta verdade em seus sermões e escritos. Em meus discursos formais e palestras também, eu enfatizo que a impermanência é rápida; vida-morte é a grande questão. Reflita sobre esta realidade mais e mais, em seu coração, sem esquecê-la e sem perder um único momento. Submeta toda sua mente à prática do Caminho. Lembre-se que você está vivo apenas hoje neste momento. Além disso [a prática do Caminho] é verdadeiramente simples. Você não precisa discutir se você é superior ou inferior, brilhante ou tolo.”