“Embora muitos leigos tenham aprendido o darma desde tempos antigos, mesmo aqueles conhecidos como bons praticantes não estavam à altura dos monges. Uma vez que os monges não possuem nenhum patrimônio, a não ser os três mantos e uma tigela, nunca se preocupam a respeito de onde irão morar, e não são gananciosos em relação a comida ou vestimenta, eles obterão benefícios à medida que se devotarem a aprender o Caminho de acordo com sua capacidade. Isso ocorre por que ser pobre é estar em proximidade com o Caminho”.
LIVRO 3
3-11
Certo dia um monge chegou e perguntou sobre o que se deve ter cuidado ao aprender o Caminho. Dogen respondeu:
“Antes de qualquer coisa, uma pessoa que estuda o Caminho deve ser pobre. Se você possui grande riqueza, com certeza perderá a aspiração.
Se um leigo que está aprendendo o Caminho ainda se apega a riqueza, cobiça moradia confortável, e se mantém na companhia de parentes, mesmo tendo a aspiração, irá se confrontar com muitos obstáculos no aprendizado do Caminho.
Embora muitos leigos tenham aprendido o darma desde tempos antigos, mesmo aqueles conhecidos como bons praticantes não estavam à altura dos monges. Uma vez que os monges não possuem nenhum patrimônio, a não ser os três mantos e uma tigela, nunca se preocupam a respeito de onde irão morar, e não são gananciosos em relação a comida ou vestimenta, eles obterão benefícios à medida que se devotarem a aprender o Caminho de acordo com sua capacidade. Isso ocorre por que ser pobre é estar em proximidade com o Caminho.
Hoon[1] era um leigo, mas não era inferior aos monges; seu nome permaneceu entre os praticantes Zen. Quando começou a aprender o Zen, ele pegou todas as posses de sua família e estava prestes a jogá-las no mar. As pessoas tentaram dissuadi-lo dizendo, “Você deveria dar a outros ou usá-las pelo bem do Budismo.”
Ele respondia, “Estou as jogando fora porque acredito que elas são prejudiciais. Uma vez que acredito que são prejudiciais, como posso dá-las a outras pessoas? Riqueza é um veneno que faz adoecer tanto corpo quanto mente.”
No fim, ele as jogou no mar.
Depois disso, ele fazia cestas de bambu e as vendia para viver. Embora fosse um leigo, por ter abandonado sua riqueza, as pessoas o consideravam uma boa pessoa. E tão mais deveria um monge completamente desistir da riqueza.”
“Sem ter a mínima expectativa, mantenha os modos de conduta prescritos. Pense em agir para salvar e beneficiar os seres vivos, pratique com seriedade todas as boas ações e abandone as más ações anteriores. Faça isso apenas em prol de se tornar o fundamento da felicidade para os homens e seres celestiais. Sem estagnar em boas ações do presente, continue praticando por toda sua vida. Um ancião chamou a isso de “’quebrando o fundo do balde de laca”[2]. O Caminho dos budas e ancestrais é assim“.
LIVRO 3
3-10
Dogen também disse:
Então, se você deseja praticar o Caminho dos budas e ancestrais, você deveria praticar o Caminho dos antigos sábios e imitar a conduta dos ancestrais sem (qualquer expectativa de) lucro; não espere nada, não busque nada, não obtenha nada.
Mesmo que você deixe de buscar e abra mão de expectativas de se tornar buda, se parar de praticar e continuar se engajando em suas más ações anteriores, você ainda será culpado por buscar e retrocederá ao velho ninho[1].
Sem ter a mínima expectativa, mantenha os modos de conduta prescritos. Pense em agir para salvar e beneficiar os seres vivos, pratique com seriedade todas as boas ações e abandone as más ações anteriores. Faça isso apenas em prol de se tornar o fundamento da felicidade para os homens e seres celestiais. Sem estagnar em boas ações do presente, continue praticando por toda sua vida. Um ancião chamou a isso de “’quebrando o fundo do balde de laca”[2]. O Caminho dos budas e ancestrais é assim.
[1] O velho ninho é para onde sempre voltamos. Um tipo de moldura da qual não conseguimos sair, ou seja, a tendência ou o sistema de valores formado por nossa educação, experiências etc. É o eu cármico (ou condicionado).
[2] Um recipiente para laca. É tão preto que você não consegue distinguir entre as coisas. Esta é uma metáfora para as ilusões, ignorância e apego ao ego. Quebrar o balde de laca significa libertar-se dos sentimentos humanos condicionados.