Outras

> Zazen por… Mushin Sensei

Prática e iluminação

Mestre Dogen, fundador da nossa ordem, a Soto Zen, nos ensinou que praticar com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação e que não existe diferenciação entre prática e iluminação. Ele assim ensina no Fukanzazengi: “Praticar o caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre zazen e a vida cotidiana”.

Esse ensinamento é de difícil compreensão para quem começa a praticar e para aqueles que nunca meditaram. Iluminação costuma ser entendida como algo de extrema dificuldade de ser experimentada, possível apenas para Buda ou monges muito dedicados, de maneira que, para o leigo, isso seria praticamente impossível. O entendimento mais comum é que iluminação seria um estado espiritual profundo e duradouro, e a prática experimental da meditação não costuma ser isso. Por essa razão, a afirmação é de muita estranheza para o não praticante.

Iluminação, no entanto, refere-se à superação do “eu”, ao experimento do não eu, ao experimento da visão não dual. E isso acontece com praticamente todas as meditações praticadas com seriedade, sob boa orientação. Mesmo alguém que inicia a praticar e esteja bem orientado sobre o zazen passa por momentos sublimes e iluminados, mas não os reconhece porque está subjugado pelos limites, quase intransponíveis (no início), da mente racional. Os iniciantes não conseguem, ainda, se livrar do hábito de enxergar através dos conceitos da razão aprendida. A mente discriminativa informa que a iluminação é uma meta difícil de alcançar e que se encontra em um futuro distante. Assim acreditando, o indivíduo não percebe os momentos de não dualidade vivenciados na prática do zazen. Quando as coisas surgem sem relação com o nosso personagem, quando surgem em nossa consciência sem serem modificadas pelo nosso raciocínio ou pela mente discriminativa, esse surgir sem se relacionar com algo que modifique o que surge, sem se relacionar com um observador externo, isso guardaria uma semelhança com iluminação: a não existência de um eu que separa. Seria comparável a um sonho no qual não nos vemos como apenas um dos personagens, mas no qual tudo o que ali acontece somos nós. Como sabemos, tudo o que acontece nos sonhos, tudo o que ali surge representa aspectos de sensações, percepções e pensamentos nossos, representam sementes sensíveis de nossa consciência.

A prática diligente do zazen, a experimentação do silêncio de ideias e pontos de vista vai mostrando-nos os limites que os conceitos mentais nos impõem. Vamos percebendo que são os movimentos ou o uso da mente discriminativa que identifica e separa um “eu”. O exercício da mente discriminativa é que cria uma visão dual. Sem a mente discriminativa, não há como identificar um eu no espaço da consciência onde tudo surge e desaparece seguidamente. A iluminação está no zazen como está na vida cotidiana. Quando a visão não dual passa a ser identificada no zazen, ela passa também a ser percebida no cotidiano. Essa não diferenciação entre zazen e vida cotidiana é a segunda parte do ensinamento do Mestre Dogen. Como essa experiência do zazen se expande para os momentos após o mesmo? Como essa experiência ocorre, também, no nosso cotidiano?

Acontece que, nas primeiras vezes em que começamos a perceber esses momentos de não eu, de independência de um eu interpretativo, ficamos muito contentes com essa liberdade, por nos percebermos livres do redemoinho do eu. Com o passar dos dias, com o suceder dos zazens, essa percepção do não eu vai se tornando frequente e depois comum nesses momentos de prática. As alegrias acontecidas nas primeiras vezes vão diminuindo pela repetição das experiências, que se tornam cotidianas. Os zazens diários se tornam sem objetivos específicos. Eles se confundem com a experiência. É o que se denomina “zazen sem objetivo”. Quando isso passa a acontecer, temos o potencial de percebermos um oceano de emoção pela vida. A vida cotidiana não é vista mais de uma maneira pobre e individualizada. Acordamos para o sonho da vida, acordamos para o bardo da vida, passamos a viver a vida através de tudo o que existe e a apreciar com profundidade a exclamação de Buda: “Eu, a Grande Terra e todos os Seres simultaneamente nos tornamos o caminho”.

Com o suceder das práticas diárias, tudo vai acontecendo de forma natural, sem pressa, sem ser forçado. O véu que constrói as individualidades vai ficando translúcido até desaparecer completamente; a ignorância da separação de um eu desaparece, e tudo se torna o caminho. Zazen/iluminação e zazen/vida cotidiana, sem separações. Esse é o caminho do zazen, o caminho de Buda, de Bodidarma, dos Mestres Dogen e Keizan, dos 90 ancestrais da linhagem Soto Shu, o Zen da nossa Mestra, Shingetsu Coen, o nosso caminho Zen. Mãos em prece,

Fonte: Jornal do Zendo Brasil, ano 20, n.71.Jan/Fev/Mar 2020.
Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (46) – Livro 2 Parte 24

“(…) a grande paz e contentamento (Nirvana) que nunca é perdido uma vez obtido depende apenas de se ter a aspiração de fazer com que este corpo semelhante a um espectro siga a vontade de Buda em seu tempo de vida. No entanto, os ensinamentos de Buda nunca encorajam o ato de fazer nosso corpo sofrer sem sentido. Se você seguir a atitude e o comportamento prescritos nos preceitos, seu corpo ficará à vontade, seu comportamento será apropriado, e você não irá perturbar outras pessoas. Portanto, abandone prazeres físicos causado por visões egocêntricas e siga minuciosamente os preceitos de Buda..”

LIVRO 2

2-24

Certo dia Dogen instruiu:

            De modo a governar o mundo, desde o imperador até as pessoas comuns, cada pessoa que tem uma ocupação realiza sua própria função. Ser inadequado para uma posição é chamado de “desorganização do mundo”. Quando o modo de governar está de acordo com a vontade do céu, o mundo está em paz e as pessoas estão à vontade. É por isso que o imperador se levanta à 01:00h da manhã e lidera o trabalho de governar o mundo. Não é uma coisa fácil. Este é também o caso do darma de buda, diferente apenas nas funções e atividades que são realizadas. No caso do imperador, ele pessoalmente executa os deveres de governar com toda sua inteligência, considerando os precedentes de épocas anteriores, enquanto busca ministros dotados de virtude e habilidade. Quando este modo de governar está de acordo com a vontade do céu, é chamado de “mundo bem governado”. Se o imperador for negligente em seus deveres, ele vai contra a vontade do céu, o mundo se torna desordenado e as pessoas sofrem.

            O imperador, a nobreza, os alto oficiais, os oficiais seniores, os oficiais comuns e as pessoas comuns estão todos encarregados de suas respectivas funções. Uma pessoa que executa seus deveres pode ser chamada humana. Se alguém for contra seus deveres, será punido pelo céu porque causou desordem no céu.

            Portanto, estudantes do buda-darma, mesmo que você tenha deixado sua casa e partido do mundo secular, você não deveria desejar viver uma vida fácil. Você não deveria perder nem sequer um minuto. Embora no começo possa parecer vantajoso, mais tarde será a causa de más influencias. Seguindo o caminho dos monges (os que deixaram o lar), você deveria cumprir seus deveres e lançar-se na sua prática. Ao governar o mundo secular, mesmo que alguém possua precedentes, regras ou exemplos de governantes anteriores, algumas vezes ele terá que seguir os exemplos de seus contemporâneos, uma vez que não há uma maneira específica que tenha sido transmitida pelos antigos sábios nem por outras grandes pessoas. Para os filhos de Buda, contudo, há precedentes definidos e ensinamentos das escrituras. Há também professores que receberam a transmissão de tais tradições. Somos capazes de refletir. Em cada ação de se mover, ficar de pé, sentar e deitar, se pensarmos nos precedentes e seguirmos nossos predecessores em nossa prática, não há razão para falhar em obter o Caminho. No mundo secular, as pessoas desejam estar em harmonia com a vontade do céu. Os praticantes do Budismo desejam estar em harmonia com a vontade de Buda. As tarefas são as mesmas, mas o resultado (para o Budista) é superior. Pois a grande paz e contentamento (Nirvana) que nunca é perdido uma vez obtido depende apenas de se ter a aspiração de fazer com que este corpo semelhante a um espectro siga a vontade de Buda em seu tempo de vida. No entanto, os ensinamentos de Buda nunca encorajam o ato de fazer nosso corpo sofrer sem sentido. Se você seguir a atitude e o comportamento prescritos nos preceitos, seu corpo ficará à vontade, seu comportamento será apropriado, e você não irá perturbar outras pessoas. Portanto, abandone prazeres físicos causado por visões egocêntricas e siga minuciosamente os preceitos de Buda.

Outras

> Zazen por… Shunryu Suzuki Roshi

“Na nossa prática de zazen, paramos de pensar e estamos livres da nossa atividade emocional. Não dizemos que não há atividade emocional, mas estamos livres dela. Não dizemos que não há pensamento, mas nossa atividade de vida não fica limitada pela nossa mente pensante. Em resumo, podemos dizer que acreditamos em nós mesmos totalmente, sem pensar, sem sensações, sem discriminar entre bem e mal, o certo e o errado. Por nos respeitarmos, por botarmos fé em nossa vida, sentamos. Essa é nossa prática. 

Quando nossa vida se basear em respeito e completa confiança, será uma vida completamente pacífica. O nosso relacionamento com a natureza também deveria ser assim. Devemos respeitar tudo e podemos praticar o respeito pelas coisas do mesmo modo como nos relacionamos com elas. 

(…) Se acharmos que é fácil praticar porque  temos um belo edifício, isso será um engano. Na realidade, talvez seja bem difícil praticar com um espírito forte nesse tipo de ambiente onde há um belo Buda e oferecemos belas flores para decorar o hall de Buda. Nós, zen budistas, temos um ditado: com uma folha de capim, criamos um Buda de ouro de quase cinco metros de altura. Esse é nosso espírito; portanto, precisamos praticar o respeito pelas coisas”.

(…) Embora ver um grande Buda dourado num grande Buda dourado seja mais fácil, quando você vê um grande Buda numa folha de capim, sua alegria será algo especial”…

Capítulo “O Respeito pelas coisas”, do livro Nem Sempre é assim, de Shunryu Suzuki Roshi