
> INSCRIÇÕES – Memória Correta – trilhando o Caminho de superação do sofrimento



Na época em que Mestre Eisai visitou a China, a escola Zen usufruía do patrocínio de leigos, reconhecimento oficial e acesso exclusivo às abadias de monastérios. É importante apontar que, nesta época, os monastérios eram públicos e o Zen não possuía exclusividade – ou seja, todos os monastérios budistas chineses possuíam a mesma arquitetura, estrutura burocrática, grade de atividades e formas de disciplina e de prática. Contavam com salas de Buda (para oferendas e sutras), salas do Darma (onde se realizavam palestras) e salas de sangha (onde os monges meditavam, comiam e dormiam em plataformas).
Todos os monastérios tinham zazen e samu, a prática coletiva de limpeza, independente da sua linhagem. Diante disso, o que diferenciava a escola Zen na prática não eram arranjos institucionais ou práticas específicas mas sim reivindicações de linhagem, traço de uma dimensão não apenas mítica mas também socialmente tangível, na medida em que os monges reconhecidos como herdeiros da linhagem constituíam uma elite privilegiada dentro da ordem budista em geral. Outra diferença também estava no estilo pedagógico e retórico dos mestres[1].
O estilo Zen chegou a dominar estes monastérios por 300 anos (séc. XI a XIII) mas nunca tiveram seus próprios monastérios independentes e exclusivos. O que eram os chamados “Monastérios Zen” eram simplesmente aqueles monastérios públicos que decretos imperiais restringiam a monges budistas certificados como herdeiros de algum ramo da linhagem Zen.
Por outro lado, as linhagens Rinzai e Soto alternavam a dominância dos mosteiros. Mas enquanto a primeira advogava um estilo de meditação relacionado com a contemplação de frases, a segunda advogava um estilo conhecido como “iluminação silenciosa”. Ambas compartilhavam, contudo, de um estilo diferenciado de retórica e do corpo de literatura de koans[2].
Após cinco anos de visitas a estes monastérios na China, Mestre Eisai leva a linhagem Rinzai ao Japão, onde se apresenta como seu herdeiro legítimo. A profundidade de sua prática era tal que logo veio a atrair um sem número de alunos. Muitos queriam aprender sobre a “escola da mente de Buda” e sobre os preceitos do Bodisatva que o mestre difundia[3].
Entretanto, quanto maior a propagação de suas ideias, mais resistência ele encontrava nas escolas budistas já existentes no Japão, como Tendai, Shingon e Nara. Mestre Eisai, inclusive, era um monge da mais alta hierarquia da escola Tendai e continuava ensinando ritos e práticas desta tradição. Sua principal proposta era que a prática Zen viesse a impulsionar uma transformação das escolas tradicionais, trazendo-as de volta à essência dos ensinamentos de Buda. Ao mesmo tempo, advogava a consolidação de uma escola independente, distinta da linhagem Tendai[4].
Para Mestre Eisai, o Budismo no Japão poderia ser revivido na sua forma mais profunda e essencial, transmitido de forma autêntica e direta, de mestre a discípulo. E isso seria feito, a ser ver, a partir de uma reforma da disciplina monástica baseada no modelo chinês descrito acima, com um rigoroso código de treinamento, pautado por preceitos morais e pelo zazen (dhyana)[5].
Cita Mestre Eisai, em um dos seus principais escritos:
“(…) portanto, praticar dhyana [chan, zen, zazen] e adentrar o Caminho pressupõe uma conduta moral que siga os preceitos. A menos que a pessoa esteja livre de transgressões e se mantenha distante do erro, como poderia obter o despertar e se tornar um ancestral?”[6].
De modo notável, esta mensagem se dava em um contexto onde os preceitos e regulações de comportamento não guardavam importância central nas práticas religiosas.
O monastério de Kennin Ji foi um dos espaços que ele construiu tendo os monastérios chineses como modelos de organização e operação. Em sua época, por inúmeras razões, coexistiam ali práticas tradicionais ligadas às escolas Tendai e Shingon, juntamente com práticas mais diretamente advindas de sua experiência com o Zen na China. Entretanto, 800 anos depois, este mosteiro se apresenta como um ambiente exclusivo da linhagem Zen Rinzai – realização da visão de Mestre Eisai, de que um dia a escola Zen se tornaria independente e amplamente disseminada no Japão.
[1] FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html
[2] FOULK, T. Griffith. History of the Soto Zen school. Disponível em: https://terebess.hu/english/zenschool.html
[3] Foreword em EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.
[4] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.
[5] WELTER, A. Zen Buddhism as the Ideology of the Japanese State: Eisai and the Kozen Gokokuron em Zen Classics: Formative Texts in the History of Zen Buddhism. 2006.
[6] EISAI, Myoan. A Treatise on Letting Zen Flourish to Protect the State. Em Zen Texts. Numata Center for Buddhist Translation and Research. 2005.
(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).

“Caso você se sinta envergonhado ao ser desprezado por conta da sua ignorância e considerar-se estúpido, então estudar amplamente os clássicos Budistas e não Budistas, para tornar-se uma pessoa de conhecimento, e estudar várias coisas para entender de questões seculares, ou para mostrar seu conhecimento, isso é um erro terrível. Isso é realmente sem sentido para o estudo do Caminho. “
LIVRO 2
2-11
Em uma palestra vespertina, Dogen disse,
Estudantes do Caminho, não tem valor nenhum ser conhecido pelas pessoas no mundo secular como uma pessoa de sabedoria ou de amplo conhecimento. Mesmo se houver uma única pessoa que esteja realmente buscando o Caminho, você não deve se recusar a explicar o darma dos budas e ancestrais seja qual for a medida que você conseguir. Mesmo se alguém que tenha atentado contra sua vida lhe pedir sinceramente para ouvir o verdadeiro Caminho, você não deve guardar rancor, e deve lhe explicar o Darma. Exceto em tais casos, é inteiramente inútil exibir seu conhecimento das escrituras dos ensinamentos exotéricos ou esotéricos, ou de textos não Budistas. Se alguém vier lhe perguntar sobre tais coisas, você não precisa se sentir mal, de forma alguma, em responder que você não sabe. Caso você se sinta envergonhado ao ser desprezado por conta da sua ignorância e considerar-se estúpido, então estudar amplamente os clássicos Budistas e não Budistas, para tornar-se uma pessoa de conhecimento, e estudar várias coisas para entender de questões seculares, ou para mostrar seu conhecimento, isso é um erro terrível. Isso é realmente sem sentido para o estudo do Caminho. Por outro lado, fingir não saber o que você sabe também é errado, precisamente porque é uma difícil (pose a assumir) e é antinatural, criando uma imagem respeitável e dando uma aparência de humildade. É melhor não saber desde o início.
Em minha infância, eu gostava de estudar clássicos não Budistas[1] e outros textos. Até ir para a China e receber a transmissão do Darma, eu lia tanto livros Budistas quanto não Budistas, a fim de me tornar familiarizado com a linguagem Chinesa local. Eu considerava que isso era importante e, de fato, era algo extraordinário na sociedade secular. As pessoas também apreciavam isso como incomum e maravilhoso.
Embora, em certo sentido, tenha sido necessário, quando reflito sobre isso agora, foi um obstáculo no estudo do Caminho. Quando você lê escrituras Budistas, se você entender o significado das sentenças frase por frase, você reterá a realidade expressa pelas palavras. Entretanto, as pessoas tendem a prestar atenção aos estilos de escrita tais como antíteses, ritmos e tons. Eles os julgam como bons ou ruins, e então pensam sobre o significado como uma reflexão posterior. Portanto, é melhor entender o significado desde o início sem se preocupar com tais coisas. Ao escrever discursos do darma, da mesma forma, tentar escrever de acordo com as regras da retórica, ou ser incapaz de escrever sem pensar em rimas e [em manter apropriados] tons é o problema de se ter muito conhecimento.
Deixe a linguagem e o estilo se desenvolverem como eles acontecerem; o que é mais importante é registrar detalhadamente a verdade que você pretende comunicar. Mesmo que pessoas das gerações futuras venham a considerar sua técnica retórica pobre, é essencial para o Caminho permitir que eles entendam a realidade. O mesmo se dá em outros campos de estudo.
Ouvi falar que Ku-Amidabutsu de Koya[2] foi um eminente erudito tanto no Budismo Exotérico quando no Esotérico. Depois que ele abandonou[3] seu templo e entrou para a Escola Nenbutsu[4], um monge Shingou o visitou e perguntou sobre a doutrina dos ensinamentos Esotéricos da escola. Ele respondeu: “Eu esqueci tudo, não me lembro de uma única palavra”. Portanto, ele não respondeu à questão do monge. Essa deveria ser a mente bodai ideal. Ele provavelmente se lembrava de algo, mas ele não queria falar sobre coisas que ele considerava inúteis. Eu acho que as pessoas que praticam sinceramente nenbutsu devem ser desta forma. Estudantes de hoje também deveriam cultivar esta atitude. Mesmo que você costumasse saber sobre a filosofia das escolas de ensino, seria melhor que você a esquecesse completamente. Desnecessário dizer, você não deveria nem começar a estudar isso agora.
Pessoas do Caminho, que verdadeiramente devotam-se a praticar, não deveriam ler nem mesmo as coleções de ditados dos mestres Zen. Você deveria entender, por meio deste exemplo, a inutilidade de outros tipos de livros.
[1] De acordo com o Kenzei-ki (a biografia mais antiga de Dogen), Dogen estava lendo o Riko Hyakuei (Os Cem Poemas de Liqiao) quando tinha quatro anos. Aos sete, ele estava lendo Moshi (Maoshi), Saden (Zouzhuan), e aos nove, ele estava lendo Kusharon (Abhidharma Kosa). O texto diz que Dogen foi tão brilhante quanto Monju. Quando ele ficava com sono enquanto estava estudando, enfiava uma agulha na coxa. Ele estudava arduamente, encorajando sua mente.
[2] Ku-amîdabutsu é outro nome para Myohen (1142-1224). Ele estudou Sanron (Filosofia de Nagarjuna) e Shingon (Budismo Esotérico). Ele praticou em Nara e no Monte Koya. Mais tarde, tornou-se discípulo de Honen, o fundador do Budismo Japonês da Terra Pura, e mudou seu nome para Ku-Amidabutsu.
[3] A palavra usada por Dogen é tonsei, que significa literalmente “escapar do mundo”. Originalmente, significava deixar o mundo secular e se tornar um monge. Mas no período Kamakura denotava uma pessoa que já havia se tornado um monge e havia deixado até mesmo a sociedade de monges para se concentrar na prática.
[4] Esta escola concentrou-se na recitação do nome de Amida, ‘Namu-Amidabutsu ‘, que significa, “[Eu presto] homenagem ao Buda Amida.”