Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (48) – Livro 2 Parte 26

“(…) Se apenas pensarmos no buda-darma com nossas mentes nunca compreenderemos o Caminho, mesmo em mil anos ou miríades de éons. Quando abrirmos mão de nossas mentes e deixarmos de lado nossas visões e compreensões o Caminho será efetivado. (…) Portanto, quando deixarmos completamente de lado nossos pensamentos e visões e praticarmos shikantaza, nos tornaremos íntimos do Caminho. Por esta razão o Caminho é sem duvida obtido através do corpo. É por isso que eu os encorajo a praticar zazen com toda sinceridade

LIVRO 2

2-26

Dogen também disse,

O Caminho é alcançado através da mente ou do corpo? Nas escolas de treinamento é dito que uma vez que corpo e mente não estão separados, o Caminho é obtido através do corpo. Ainda assim, não fica claro que obtenhamos o Caminho pelo corpo, porque eles dizem “uma vez que” corpo e mente não são separados. No Zen o Caminho é obtido através de ambos, do corpo e da mente.

Se apenas pensarmos no buda-darma com nossas mentes nunca compreenderemos o Caminho, mesmo em mil anos ou miríades de éons. Quando abrirmos mão de nossas mentes e deixarmos de lado nossas visões e compreensões o Caminho será efetivado. Um sábio clarificou a Mente Verdadeira (Realidade) quando ele viu flores de pêssego e outro compreendeu o Caminho quando ouviu o som de uma telha batendo em um bambu[1]. Eles obtiveram o Caminho através de seus corpos. Portanto, quando deixarmos completamente de lado nossos pensamentos e visões e praticarmos shikantaza, nos tornaremos íntimos do Caminho. Por esta razão o Caminho é sem duvida obtido através do corpo. É por isso que eu os encorajo a praticar zazen com toda sinceridade.


[1] Referência a Reiun Shigon (Lingun Zhixian, ?-?) e Kyogen Shikan (Xiangyan Zhixian, ?-840), que eram discípulos do Mestre Zen Isan Reiyu (Guishan Lingyou, 771-853).


Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (47) – Livro 2 Parte 25

“(…) Vida/Morte é a Grande Questão. Tudo é impermanente e muda de maneira abrupta. As escolas de ensinamentos e as escolas de Zen ambas enfatizam isso. Hoje à tarde ou amanhã pela manhã vocês poderão ficar doentes ou morrer. Ainda assim, você não tem ideia de como será sua morte nem que tipo de doença poderá ter. É absoluta tolice passar o tempo que você está vivo dormindo sem sentido ou descansando enquanto falham em praticar o darma de buda. Uma vez que sejam assim, o buda-darma estará morrendo. Quando as pessoas praticavam devotadamente zazen, o buda-darma floresceu por todo o país.

LIVRO 2

2-25

Dogen também disse:

Enquanto estive no Monastério de Tendo, na China, quando o velho mestre Nyojo era abade lá, sentávamos zazen até mais ou menos onze horas da noite e nos levantávamos lá pelas duas e meia da madrugada para sentar zazen. O abade sentava com a assembleia no sodo, nunca tirando uma noite sequer de folga.

            Durante os períodos sentados, muitos monges caíam no sono. O abade caminhava ao redor deles, batendo neles com o punho ou com o chinelo, repreendendo-os e encorajando-os a se manterem acordados. Se continuassem a dormir, ele ia até o shodo[1], tocava o sino, e mandava seus atendentes acenderem as velas. No calor do momento, ele dizia coisas como: “Qual a utilidade de dormir? Porque vocês se reúnem em um sodo? Porque você se tornou um monge e entrou neste monastério?”

            Considere o imperador e os oficiais do governo. Quem entre eles leva uma vida fácil? O imperador governa com justiça. Os ministros servem com lealdade até aos plebeus. Quem leva uma vida fácil sem trabalhar? Vocês evitaram tais trabalhos e entraram em um monastério, mas agora desperdiçam seu tempo. Para que, afinal? Vida/Morte é a Grande Questão. Tudo é impermanente e muda de maneira abrupta. As escolas de ensinamentos e as escolas de Zen ambas enfatizam isso. Hoje à tarde ou amanhã pela manhã vocês poderão ficar doentes ou morrer. Ainda assim, você não tem ideia de como será sua morte nem que tipo de doença poderá ter. É absoluta tolice passar o tempo que você está vivo dormindo sem sentido ou descansando enquanto falham em praticar o darma de buda. Uma vez que sejam assim, o buda-darma estará morrendo. Quando as pessoas praticavam devotadamente zazen, o buda-darma floresceu por todo o país. Ultimamente, o buda-darma está caindo em decadência porque ninguém promove o zazen.”

            Eu pessoalmente o vi encorajar os monges em sua assembleia desta forma, e eu o vi fazendo eles sentarem zazen.

            Uma vez, seu atendente imediato disse: “Os monges no sodo estão cansados e com sono. Eles podem cair doentes ou perder sua aspiração por causa das longas horas sentados. Por favor, encurte o tempo de zazen.”

            Irritado, o abade respondeu: “Não devemos nunca fazer isso. As pessoas sem a mente bodai que temporariamente estão no sodo dormiriam mesmo se sentássemos por meia hora ou menos. Praticantes com mente bodai que aspiram praticar ficam mais felizes quanto mais tempo eles têm a possibilidade de sentar e, portanto, praticar mais arduamente. Quando eu era jovem, visitei muitos professores em diferentes regiões. Fui encorajado por um velho mestre entre eles que me disse: “No passado, eu batia tão forte nos monges que quase quebrei meu pulso. Mas agora que sou velho e fraco, não posso bater neles com tanta força. Consequentemente, nenhum monge bom se desenvolveu. Uma vez que poucos professores incentivam o ato de sentar, o buda-darma está morrendo. Baterei neles com mais força ainda!”.


[1] Sala atrás do sodo, onde o monge chefe dá as palestras em nome do abade.

Outras

> Zazen por… Mushin Sensei

Prática e iluminação

Mestre Dogen, fundador da nossa ordem, a Soto Zen, nos ensinou que praticar com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação e que não existe diferenciação entre prática e iluminação. Ele assim ensina no Fukanzazengi: “Praticar o caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre zazen e a vida cotidiana”.

Esse ensinamento é de difícil compreensão para quem começa a praticar e para aqueles que nunca meditaram. Iluminação costuma ser entendida como algo de extrema dificuldade de ser experimentada, possível apenas para Buda ou monges muito dedicados, de maneira que, para o leigo, isso seria praticamente impossível. O entendimento mais comum é que iluminação seria um estado espiritual profundo e duradouro, e a prática experimental da meditação não costuma ser isso. Por essa razão, a afirmação é de muita estranheza para o não praticante.

Iluminação, no entanto, refere-se à superação do “eu”, ao experimento do não eu, ao experimento da visão não dual. E isso acontece com praticamente todas as meditações praticadas com seriedade, sob boa orientação. Mesmo alguém que inicia a praticar e esteja bem orientado sobre o zazen passa por momentos sublimes e iluminados, mas não os reconhece porque está subjugado pelos limites, quase intransponíveis (no início), da mente racional. Os iniciantes não conseguem, ainda, se livrar do hábito de enxergar através dos conceitos da razão aprendida. A mente discriminativa informa que a iluminação é uma meta difícil de alcançar e que se encontra em um futuro distante. Assim acreditando, o indivíduo não percebe os momentos de não dualidade vivenciados na prática do zazen. Quando as coisas surgem sem relação com o nosso personagem, quando surgem em nossa consciência sem serem modificadas pelo nosso raciocínio ou pela mente discriminativa, esse surgir sem se relacionar com algo que modifique o que surge, sem se relacionar com um observador externo, isso guardaria uma semelhança com iluminação: a não existência de um eu que separa. Seria comparável a um sonho no qual não nos vemos como apenas um dos personagens, mas no qual tudo o que ali acontece somos nós. Como sabemos, tudo o que acontece nos sonhos, tudo o que ali surge representa aspectos de sensações, percepções e pensamentos nossos, representam sementes sensíveis de nossa consciência.

A prática diligente do zazen, a experimentação do silêncio de ideias e pontos de vista vai mostrando-nos os limites que os conceitos mentais nos impõem. Vamos percebendo que são os movimentos ou o uso da mente discriminativa que identifica e separa um “eu”. O exercício da mente discriminativa é que cria uma visão dual. Sem a mente discriminativa, não há como identificar um eu no espaço da consciência onde tudo surge e desaparece seguidamente. A iluminação está no zazen como está na vida cotidiana. Quando a visão não dual passa a ser identificada no zazen, ela passa também a ser percebida no cotidiano. Essa não diferenciação entre zazen e vida cotidiana é a segunda parte do ensinamento do Mestre Dogen. Como essa experiência do zazen se expande para os momentos após o mesmo? Como essa experiência ocorre, também, no nosso cotidiano?

Acontece que, nas primeiras vezes em que começamos a perceber esses momentos de não eu, de independência de um eu interpretativo, ficamos muito contentes com essa liberdade, por nos percebermos livres do redemoinho do eu. Com o passar dos dias, com o suceder dos zazens, essa percepção do não eu vai se tornando frequente e depois comum nesses momentos de prática. As alegrias acontecidas nas primeiras vezes vão diminuindo pela repetição das experiências, que se tornam cotidianas. Os zazens diários se tornam sem objetivos específicos. Eles se confundem com a experiência. É o que se denomina “zazen sem objetivo”. Quando isso passa a acontecer, temos o potencial de percebermos um oceano de emoção pela vida. A vida cotidiana não é vista mais de uma maneira pobre e individualizada. Acordamos para o sonho da vida, acordamos para o bardo da vida, passamos a viver a vida através de tudo o que existe e a apreciar com profundidade a exclamação de Buda: “Eu, a Grande Terra e todos os Seres simultaneamente nos tornamos o caminho”.

Com o suceder das práticas diárias, tudo vai acontecendo de forma natural, sem pressa, sem ser forçado. O véu que constrói as individualidades vai ficando translúcido até desaparecer completamente; a ignorância da separação de um eu desaparece, e tudo se torna o caminho. Zazen/iluminação e zazen/vida cotidiana, sem separações. Esse é o caminho do zazen, o caminho de Buda, de Bodidarma, dos Mestres Dogen e Keizan, dos 90 ancestrais da linhagem Soto Shu, o Zen da nossa Mestra, Shingetsu Coen, o nosso caminho Zen. Mãos em prece,

Fonte: Jornal do Zendo Brasil, ano 20, n.71.Jan/Fev/Mar 2020.