Textos e Sutras

> História da nossa linhagem (9) – A Soto Zen pelo mundo

“O Zen Budismo tem suas origens nos ensinamentos de Bodidarma, o vigésimo oitavo Mestre Ancestral da linhagem que se inicia em Xaquiamuni Buda. Emigrando do sub-continente indiano, Bodidarma traz para a China do séc. VI d.C. um olhar bastante particular em relação aos ensinamentos de Buda. Seu feito mais conhecido é ter-se sentado de frente para a parede de uma caverna por nove anos ininterruptos. Os ensinamentos de Bodidarma dão origem a novas linhagens de prática, que depois de muito tempo terminam por influenciar decisivamente o surgimento do Zen no Japão do séc. XII. A linhagem Soto Shu, fundada por Eihei Dogen Zenjji Sama, a qual pertencemos, é uma destas.

9 – A Soto Zen pelo mundo

Além dos missionários japoneses, a apropriação e construção do Zen que ocorreu em vários países ocidentais teve um outro ponto de partida, comum a quase todos: a obra de Daisetsu Teitaro Suzuki e dos estudiosos da Escola de Quioto. Eles consideram que o Zen foi concebido não como uma religião, com seus respectivos rituais e doutrinas, mas como uma experiência espiritual individual que levaria à transcendência. Para eles, o Zen “autêntico” não requeria nenhuma associação a alguma tradição institucional ou qualquer transmissão formal através de linhagens[1].

 Este movimento foi forte nos Estados Unidos nos anos 60, em plena contracultura, quando a geração chamada “beat”, insatisfeita com a cultura materialista e com o cristianismo e judaísmo da época, buscava por disciplinas espirituais genuínas. Além de D. T. Suzuki, que apresentava o Zen em sua forma Rinzai e pouco mencionava o zazen, foram influenciados pela obra de Alan Watts, com um foco na filosofia do Zen e sua proposta de libertação pessoal e ausência de restrições.

A chegada de missionários da Soto Shu a este contexto, carregados de uma prática formal em monastérios, com séculos de desenvolvimento e história, surpreendeu a todos com um Zen de disciplinas e procedimentos estabelecidos[2].

Um destes missionários foi Taizen Maezumi Roshi, fundador do Zen Center de Los Angeles. Provavelmente por saber falar inglês, foi designado pela Soto Zen para viajar aos Estados Unidos e servir como monge aos imigrantes japoneses alocados na Califórnia. Com uma passagem só de ida, chegou em Los Angeles em 1956 com a incumbência de realizar serviços semanais, funerais, memoriais, casamentos e outras cerimônias requeridas pela comunidade. Nesta época não existia um interesse pelo treinamento Zen mais rigoroso, aquele dos monastérios, o que não impedia Maezumi Roshi de continuar seus estudos dos textos de Mestre Dogen, de koans e de praticar zazen. Mais do que isso, ele aprofundou seus estudos a ponto de receber a autorização de ensinar o Zen (transmissão) de três diferentes professores de três diferentes linhagens:  Soto, Rinzai e a linhagem “independente” de Harada-Yasutani Roshi[3].

Seu professor da linhagem Rinzai, Nyogen Senzaki, foi o primeiro a residir nos Estados Unidos e já havia aceitado como alunos vários estudantes europeus e americanos interessados no Zen. Com ele, Maezumi Roshi aprendeu que as práticas Zen poderiam ser do interesse de pessoas advindas de outras matrizes culturais, distantes espacial e temporalmente do Budismo, ideia antes inimaginável[4]. 

Quando ele chegou aos Estados Unidos, o interesse no Zen entre os poetas e escritores Beat estava na excentricidade dos mestres da era de ouro do Chan chinês, descrita na obra da D. T. Suzuki e não no zazen rigoroso e no estudo de koans. Mesmo assim, Maezumi Roshi mantinha sessões semanais de zazen no templo Zenshuji, em que estava alocado. Em paralelo, o sucesso do livro “Os três pilares do Zen”, fundamentado nos ensinamentos de seu professor Yasutani Roshi começou a atrair a atenção dos jovens americanos não-descendentes de japoneses para uma forma de Zen então desconhecida. Provavelmente tal movimento incomodou aqueles cuja visão mais tradicional das práticas Zen o restringia à comunidade japonesa; por conta disso, Maezumi Roshi levou seu crescente grupo de prática de zazen para outro espaço: o então chamado Los Angeles Zendo, renomeado em seguida como Zen Center de Los Angeles[5].

Outros professores vieram para os Estados Unidos, como o já citado Shunryu Suzuki, fundador do Zen Center de San Francisco e do primeiro monastério Zen americano em Tassajara e Katagiri Roshi, do Minessota Zen Center. Como a prática do zazen no Japão naquela época estava em baixa, estes professores, sabendo do interesse dos estrangeiros, esperavam que este viesse a se tornar um solo fértil para as sementes do Darma de Buda. Muitos deles vieram por conta própria e eram criticados por seus superiores no Japão, que não entendiam o que eles estavam fazendo[6].

A prática que eles ofereciam era aquela com a qual eles eram familiares, ou seja, pautada em valores e formas culturais japonesas. No Zen Center de Los Angeles, por exemplo, a prática era rigorosa e em sua maior parte ortodoxa: procedimentos cerimoniais tradicionais da Soto Zen eram aprendidos, praticados e mantidos. Visitantes e trainees passavam longas horas em zazen, incluindo sesshins (retiros tradicionais) em intervalos regulares. Havia ainda um currículo para o estudo de koans e um atendimento individual a cada estudante.

Maezumi Roshi encorajava seus discípulos e herdeiros no Darma a inovar e construir uma verdadeira tradição Zen americana, entretanto, ele mantinha em seu centro uma estrita aderência às práticas ortodoxas da Soto Zen[7]. Mas, como disse Bernie Glassman Roshi, seu discípulo mais antigo, não é que seu professor estivesse carregando a tradição da escola Soto quando chegou nos Estados Unidos; do mesmo modo que a escola Soto não estava carregando as tradições do Zen chinês. A palavra “tradicional” tem que ser considerada com cuidado[8].

Explica Egoku Sensei, outro de seus alunos:

“Não é sobre preservar algo e sim sobre fazê-lo crescer. Não era dele [Maezumi Roshi] a missão de desenvolver o Zen Americano no Ocidente. Seu trabalho era plantar as sementes. Como seria, como ele iria se manifestar, dependia de nós. Ele tinha uma tremenda fé em nós”[9]. 

No Minnesota Zen Meditation Center, Kataguiri Roshi também colocava forte ênfase na prática monástica, baseada nos ensinamentos de Mestre Dogen presentes no Eihei-shingi. Ele se empenhava em iniciar seus alunos, na maioria leigos, nas formas monásticas japonesas, traduzia sutras e versos dos cantos e explicava o significado de cada atividade realizada[10].

Além disso, vários professores japoneses e monges visitavam centros Zen, contribuindo neste movimento de transplante das formas japoneses para terras americanas. Entretanto, não foi sem algum conflito que a formalidade japonesa encontrou a sociedade americana, tão afeita ao individualismo. As gritantes diferenças culturais, principalmente o rígido formalismo e a estrutura vertical da vida comunitária japonesa, desapontou a muitos praticantes que, ou abandonaram a prática, ou desenvolveram sentimentos negativos em relação à mentalidade japonesa. Isso se deve também, como vimos acima, a uma visão corrente do Zen como uma religião da liberdade individual, buscada por aqueles que negavam regras, códigos morais e sistemas de valores[11].

Aqueles que insistiam em ultrapassar estas barreiras culturais e se aprofundavam na prática, encontravam, por sua vez, toda uma nova perspectiva e forma de ser e estar no mundo. Devemos lembrar que o que está por trás deste formalismo é uma prática espiritual que dá significado para cada atividade da vida cotidiana, desde acordar até ir para cama. Como vimos, até mesmo dormir era uma prática para Mestre Dogen. Neste sentido, a formalidade organiza a prática e a vida comunitária e prevê que cada uma de nossas atividades em casa ou no trabalho seja uma oportunidade de aprofundar nosso entendimento do Darma. Hoje, nas sangas americanas, este é o modelo de trabalho comunitário que perdura[12].

Afirma Okumura Shohaku Roshi (da linhagem de Kodo Sawaki) que certamente a forma monástica japonesa é uma expressão da espiritualidade japonesa e os praticantes americanos (e brasileiros!) não necessitam seguir as formas japonesas de estudar o Darma. Entretanto, para que se possa criar formas americanas para americanos praticantes da Soto Zen, as formas japonesas parecem ser a única fundação a partir das quais as formas americanas podem se desenvolver[13].

Um praticante americano destes primórdios afirma que não havia dúvida na mente de seus professores japoneses de que mudanças seriam inevitáveis, e portanto  orientavam que estivessem abertos a elas. Ao mesmo tempo, exortavam que seus alunos absorvessem ao máximo aquilo que eles estavam ensinando e que agissem devagar e com paciência, para que a mudança ocorresse sob uma fundação firme e sólida[14].

Afirma Okumura Roshi que as formas devem mudar de acordo com o tempo, localização e cultura. Ainda assim, a prática do Darma manifesta na performance de atividades diárias é um ponto muito importante dos ensinamentos de Mestre Dogen e que faz sentido para nós, mesmo que não vivamos em monastérios.

Uma mudança que já pode ser percebida desde aquela época é a forma de condução da prática dos leigos. Shunryu Suzuki dizia que seus alunos não eram exatamente leigos nem exatamente monges, posto que ali muitos leigos praticavam diariamente, com intensidade comparável aos monges ordenados no Japão. Neste sentido, no Brasil, Monja Coen Roshi (1947-) também tem trabalhado para a formação de Professores Leigos, uma vez que a prática monástica é muito dificultada e mesmo prejudicada pela ausência de uma comunidade budista, que teria como incumbência a manutenção de seus monges para que eles pudessem se dedicar integralmente ao Darma e à Sanga.

 Outra mudança é no papel das mulheres na prática, de formas não usuais no Japão, país fortemente marcado pela discriminação, sendo raro mulheres em posições de destaque e liderança. Mesmo que Mestre Dogen tenha ordenado mulheres e mencionado em seus escritos a igualdade de homens e mulheres para atingir a Iluminação, ainda há muito a ser conquistado em termos de igualdade entre monges e monjas na tradição Soto Zen. Até um século atrás, as monjas não tinham local próprio de treinamento, eram quase todas ordenadas por monges e praticavam em templos ou mosteiros masculinos, servindo em atividades de cozinha e limpeza, sem acesso à educação superior, não podendo então assumir tarefas de ensino e liturgia[15].

Muitas foram as monjas que lidaram com grandes discriminações mas mesmo assim se mantiveram firmes no propósito de seguir a vida religiosa, exigindo a igualdade de direitos. Por causa delas, hoje é possível a Shundo Aoyama Roshi, abadessa do Mosteiro de Treinamento para Monjas Especiais em Nagoya, desfrutar de uma posição de alto destaque dentro da hierarquia monástica Soto Shu. Ela é uma das poucas monjas que fizeram mestrado e doutorado em Estudos Budistas na Universidade de Komazawa e uma das abadessas mais jovens a assumir esse cargo; além disso é uma escritora budista reconhecida no Japão e no mundo, sendo constantemente convidada a dar palestras por todo Japão, nos Estados Unidos e na Europa[16].

“Ayoama, mulher de estrutura física pequena e delicada, jamais abandonou a tradição, mas estava plenamente inserida na erudição mais contemporânea. Existia nela uma rara habilidade de combinar o que se teima em separar. Não por acaso, tornou-se representante de toda uma geração de monjas com alguns direitos iguais aos dos monges: estudo, ensinamentos e autoridade. De alguma maneira, começava a ser preenchida uma lacuna existente desde os tempos de Buda. Sem dúvida houve mulheres que romperam com a estrutura anteriormente, mas agora toda uma época contribuía para que as conquistas não fossem isoladas. A abadessa, que carregava uma capacidade de luta inquebrantável, sabia porém que no cotidiano os combates mais estratégicos eram enfrentados nos domínios do próprio ser”[17].

Nos Estados Unidos, onde a segunda onda do feminismo nos anos 60 já havia ampliado o debate a questões de igualdade no mercado de trabalho e na família, e aos direitos em relação à sexualidade, a hierarquia monástica japonesa não deixou de ser questionada ou de encontrar resistências. Charlotte Joko Beck, por exemplo, aluna de Maezumi Roshi, percebia, sob a pretensa igualdade entre homens e mulheres, uma conduta patriarcal entre os membros de sua comunidade, afastando-se das hierarquias monásticas ligadas ao Japão e tornando-se uma referência feminina e uma das maiores mestras Zen da atualidade[18].

“Como um das primeiras professoras ocidentais, ela tentou libertar o Zen americano de muitas das armadilhas da cultura e do patriarcado japoneses. Ela parou de raspar a cabeça, de vestir roupas formais ou usar títulos japoneses. Uma de suas grandes virtudes como professora foi que ela não tentou se clonar. Ela deixou seus próprios alunos e herdeiros digerirem seus ensinamentos e crescerem em suas próprias direções (…)”[19].


[1] ROCHA, Cristina. O Zen no Brasil: em busca da modernidade cosmopolita. Campinas: Ponte, 2016.

[2] WEITSMAN, Sojun M. Zen in America. Soto Zen International Symposium, 2011.

[3] WRIGHT,  Dale S. Humanizing the Image of a Zen Master : Taizan Maezumi Roshi. EmWRIGHT,  D.& HEINE, S. Zen Masters. Oxford university Press, 2010.

[4] WRIGHT,  Dale S. Humanizing the Image of a Zen Master : Taizan Maezumi Roshi. EmWRIGHT,  D.& HEINE, S. Zen Masters. Oxford university Press, 2010.

[5] WRIGHT,  Dale S. Humanizing the Image of a Zen Master : Taizan Maezumi Roshi. EmWRIGHT,  D.& HEINE, S. Zen Masters. Oxford university Press, 2010.

[6] WEITSMAN, Sojun M. Zen in America. Soto Zen International Symposium, 2011.

[7] WRIGHT,  Dale S. Humanizing the Image of a Zen Master : Taizan Maezumi Roshi. EmWRIGHT,  D.& HEINE, S. Zen Masters. Oxford university Press, 2010.

[8] JONES, Noa. White Plums and Lizard Tails: The story of Maezumi Roshi and his American Lineage. Lion’s Roar Foundation. Disponível em: https://www.lionsroar.com/white-plums-and-lizard-tails-the-story-of-maezumi-roshi-and-his-american-lineage.

[9] JONES, Noa. White Plums and Lizard Tails: The story of Maezumi Roshi and his American Lineage. Lion’s Roar Foundation. Disponível em: https://www.lionsroar.com/white-plums-and-lizard-tails-the-story-of-maezumi-roshi-and-his-american-lineage.

[10] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[11] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[12] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[13] SHOHAKU, Okumura. Dogen Zenji’s stantards for community practice. Paper apresentado no Simpósio “Dogen Zen and its relevance for our time”. Universidade Stanford. 1999.

[14] WEITSMAN, Sojun M. Zen in America. Soto Zen International Symposium, 2011.

[15] COEN, Monja. Zen Budismo e Gênero. Disponível em: https://www.monjacoen.com.br/textos/textos-da-monja-coen/79-zen-Budismo-e-genero.

[16] COEN, Monja. Zen Budismo e Gênero. Disponível em: https://www.monjacoen.com.br/textos/textos-da-monja-coen/79-zen-Budismo-e-genero.

[17] STEINER, Neusa C. Monja Coen, a mulher nos jardins de Buda. Ed Mescla, 2009.

[18] STEINER, Neusa C. Monja Coen, a mulher nos jardins de Buda. Ed Mescla, 2009.

[19] Charlotte Joko Beck. Disponível em: https://www.ordinarymind.com/charlotte-joko-beck

(Versão adaptada do texto “O que significa ser Zen Budista no Brasil”de Mui Leticia R. Sato).

Textos e Sutras

> Shobogenzo Zuimonki (39) – Livro 2 Parte 17

“Entre as coisas que vocês deveriam fazer qual é a mais importante? ”

LIVRO 2

2-17

Em uma palestra vespertina, Dogen disse:

Estudantes do Caminho, nem é preciso dizer que vocês deveriam levar em consideração a inevitabilidade da morte. Mesmo que vocês não tenham isso em conta neste exato momento, deveriam estar decididos a não desperdiçar tempo e a evitar fazer coisas sem sentido. Vocês deveriam passar seu tempo levando adiante aquilo que vale a pena ser feito. Entre as coisas que vocês deveriam fazer qual é a mais importante? Vocês devem entender que todos os atos exceto aqueles dos budas e ancestrais são inúteis.

Outras

> Zazen por… Shunryu Suzuki Roshi

“Iluminação não é uma sensação agradável ou algum estado particular da mente. O estado da mente que existe quando você se senta em postura correta é, por si só, iluminação. Se você não está satisfeito com o estado da mente que tem no zazen, significa que sua mente está divagando por aí afora.E nosso corpo e nossa mente não devem oscilar nem vaguear. Nessa postura, não há por que falar em estado correto da mente. Você já o possui. Esta é a conclusão do budismo.”

Hoje, eu gostaria de falar sobre a postura zazen. Quando você se senta na posição de lótus completo, seu pé esquerdo fica sobre sua coxa direita, seu pé direito, sobre a coxa esquerda. Ao cruzarmos as pernas desse jeito, embora tenhamos uma perna esquerda e outra direita, elas se tornam uma só. A postura expressa a unidade da dualidade: nem dois, nem um. Este é o ensinamento mais importante: nem dois, nem um. Nosso corpo e mente não são dois, nem um. Se você pensa que seu corpo e mente são dois, está errado. Se pensa que são um, também está errado. Nosso corpo e mente são dois e um ao mesmo tempo. Habitualmente, pensamos que se algo não é um, é mais do que um; que se algo não é singular, é plural. Mas, na prática, nossa vida não é só plural, é também singular. Cada um de nós é duas coisas ao mesmo tempo: dependente e independente.

Depois de viver certo número de anos, morremos. É errado pensar que isto seja o fim de nossa vida. Mas, por outro lado, achar que não morremos também está errado. Morremos e não morremos. Este é o entendimento correto. Alguns podem dizer que nossa mente, ou alma, existe para sempre e que é apenas nosso corpo físico que morre. Isso não é bem assim porque ambos, corpo e mente, têm fim. Mas, também é verdade que ambos existem eternamente. Embora se diga corpo e mente, eles são de fato dois lados da mesma moeda. Este é o entendimento correto. Assim, a postura zazen simboliza essa verdade. Quando meu pé esquerdo está sobre o lado direito de meu corpo e o pé direito sobre o lado esquerdo, eu não sei qual é qual. Tanto pode ser um como outro.

A coisa mais importante na postura zazen é manter a coluna reta. Orelhas e ombros devem ficar alinhados. Relaxe os ombros e estique a parte superior da cabeça em direção ao teto. O queixo deve ficar ligeiramente recuado para dentro. Quando o queixo está erguido, você não tem firmeza na postura, com o que e provável que sua mente se ponha a vaguear. Assim, para reforçar sua postura, pressione o diafragma para baixo, em direção ao seu hara ou parte baixa do abdome. Isso o ajudará a manter o equilíbrio físico e mental. Ao tentar manter essa postura, poderá encontrar alguma dificuldade inicial em respirar de maneira natural, mas quando se acostumar a ela será capaz de respirar normal e profundamente.

Suas mãos devem formar o mudra cósmico. Se puser o dorso da mão esquerda sobre a palma da direita, as juntas dos dedos médios encostadas umas sobre as outras, as pontas dos polegares tocando-se levemente (como se estivessem segurando uma folha de papel), suas mãos formarão um belo oval. Mantenha esse mudra cósmico com todo cuidado, como que segurando algo precioso. Suas mãos devem estar junto ao corpo, de forma que os polegares fiquem à altura do umbigo. Mantenha os braços livres e relaxados, ligeiramente afastados do tronco, como se estivessem segurando um ovo em cada axila, sem quebrá-lo.

Não deve inclinar-se para os lados, nem para a frente, nem para trás. Deve ficar sentado bem reto, como se estivesse sustentando o céu sobre a cabeça. Isto não é apenas postura ou respiração. Isto expressa o ponto chave do budismo. E uma expressão perfeita da sua própria natureza búdica. Se você busca a verdadeira compreensão do budismo, tem de praticar deste modo. Estas formas não são meios para obter um estado mental correto. Assumir a postura já é, em si, o propósito da nossa prática. Ao se colocar nessa postura, sua mente fica naturalmente em estado correto; portanto, não há necessidade de buscar um estado especial da mente. Quando você tenta obter algo, sua mente começa a divagar por outros lugares. Quando você não se ocupa em obter algo, seu corpo e sua mente permanecem juntos, presentes onde você está. Um mestre Zen diria: “Mate o Buda”. Isto é, mate o Buda se ele existe em algum outro lugar. Mate o Buda porque é você que deve reaver sua própria natureza búdica.

Fazer algo é expressar nossa natureza. Não existimos por nenhuma outra razão senão a de sermos nós mesmos. Esse é o ensinamento fundamental, expresso nas formas que observamos. Por exemplo, quando nos sentamos ou ficamos em pé no zendô, seguimos certas regras. O propósito dessas regras não é fazer com que todos sejam iguais e sim permitir que cada um expresse o seu próprio eu mais livremente. Por exemplo: cada um de nós tem sua própria maneira de ficar em pé – nossa postura em pé é baseada na proporção do nosso corpo. Quando estiver em pé, seus calcanhares devem ficar separados um do outro a uma distância que corresponda à medida de seu punho: os dedões dos pés devem ficar alinhados com os mamilos. Assim como no zazen, temos que pôr alguma força no abdome. Aqui também suas mãos devem expressar o que você é. Ponha a mão esquerda contra o peito, com os dedos circundando o polegar, e a mão direita sobre ela. Colocando o polegar esquerdo apontado para baixo e os antebraços em linha paralela ao chão, você se sentirá firme como se estivesse seguro a uma grande coluna de um templo, sem possibilidade de encolher-se ou pender para os lados.

O mais importante é estar de posse do próprio corpo físico. Se você se encolhe, está se perdendo de si mesmo. Sua mente estará divagando alhures; você não estará presente em seu corpo. Não é assim que deve ser. Nós temos que existir no aqui e agora. Este é o ponto chave. Você tem que estar de posse de seu corpo e mente. Tudo deve existir no lugar certo e de maneira certa. Então não há problemas. Se o microfone que eu uso quando falo estiver colocado em outro lugar, ele não estará servindo ao seu propósito. Quando nosso corpo e mente estão em ordem, tudo o mais está no seu devido lugar, de forma certa.

Usualmente, sem que tenhamos consciência disso, tentamos mudar as coisas em vez de mudar a nós mesmos; tentamos arrumar as coisas que estão fora de nós. Mas é impossível ordenar as coisas se você mesmo não está em ordem. Quando você faz as coisas de forma certa, no momento oportuno, tudo o mais se organiza. Você é o chefe. Quando o chefe está dormindo, todos dormem. Quando ele faz algo bem feito, todos os demais o fazem igualmente bem e no tempo certo. Este é o segredo do buddhismo. Portanto, procure manter a postura correta, não apenas quando pratica zazen mas em todas as suas atividades. Adote a postura certa quando estiver dirigindo um carro ou quando estiver lendo. Se você lê numa posição displicente, não pode ficar lúcido por muito tempo. Experimente. Você descobrirá como é importante manter a postura correta. Este é o ensinamento verdadeiro. Ensinamentos escritos no papel não são verdadeiros ensinamentos, são alimento para o cérebro. Claro que é preciso alimentar o cérebro; porém, o mais importante é ser você mesmo praticando a forma correta de viver.

Eis por que o Buda não pôde aceitar as religiões que existiam na sua época. Ele estudou várias religiões mas não ficou satisfeito com suas práticas. Não encontrou respostas no ascetismo ou nas filosofias. Ele não estava interessado nos aspectos metafísicos da existência, e sim em seu próprio corpo e sua própria mente no aqui e agora. E quando encontrou a si mesmo, descobriu que tudo quanto existe tem natureza búdica. Essa foi sua iluminação. Iluminação não é uma sensação agradável ou algum estado particular da mente. O estado da mente que existe quando você se senta em postura correta é, por si só, iluminação. Se você não está satisfeito com o estado da mente que tem no zazen, significa que sua mente está divagando por aí afora.

E nosso corpo e nossa mente não devem oscilar nem vaguear. Nessa postura, não há por que falar em estado correto da mente. Você já o possui. Esta é a conclusão do budismo.

Suzuki, Shunryu. Mente Zen, Mente de Principiante.
São Paulo: Palas Athena, 1994. Pág. 23-27